Saúde

Quebrando o tabu da hipnoterapia

Para entender melhor a prática o DM conversou com o hipnoterapeuta Sherman Calixto do Prado

diario da manha
Imagem: Reprodução

A palavra hipnose pode parecer moderna quando soa aos ouvidos, contudo, o conceito, mesmo que rudimentar, já era usada no Egito Antigo, nos chamados “Templos do Sono”. A crença, na época, era de que muitas enfermidades poderiam ser tratadas, depois de o enfermo ficar dias imerso em um profundo sono.

A raiz do nome, como conhecemos hoje, vem da mitologia grega. Uma derivação do nome Hipnos, deus do sono. Baron D’Henin de Cuvillers, no século 18, foi o primeiro a utilizar o termo em seus estudos sobre magnetismo. Mais tarde, James Braid, foi um dos cientistas pioneiros a popularizar o nome e levá-lo à comunidade científica.

Dentro do processo terapêutico, a ferramenta só ganhou espaço com os estudos de Sigmund Freud, fundador da psicanálise, Dave Elman (Hipnose Clássica), ensinando a ferramenta para médicos e Milton Erickson (Hipnose Erickssoniana), na sua prática clínica.

A hipnoterapia é a terapia que usa a hipnose como principal ferramenta no tratamento de medos, fobias, insônias, dores crônicas, bruxismo, problemas emocionais, entre outros.

Para entender melhor a prática, baseada em estudos científicos e na visão de um especialista, o DM conversou com o hipnoterapeuta formado em psicologia, com atuação na área clínica e desenvolvimento cognitivo, Sherman Calixto do Prado.

Hipnoterapeuta Sherman Calixto do Prado
Foto: Arquivo pessoal

1: O que é a hipnoterapia?

Sherman Calixto do Prado: Existem várias formas de apresentar a hipnoterapia. Aqui vou explicar conforme a minha formação em Psicologia e como eu a utilizo no consultório. O processo terapêutico em si segue as diretivas da Psicologia Cognitivo-Comportamental em todos os aspectos desta abordagem da Psicologia acrescida de uma poderosa ferramenta chamada hipnose.

2: A prática possui embasamento científico?

Sherman Calixto do Prado: Sim. O embasamento científico encontra-se no processo terapêutico em si que é aplicado na abordagem Cognitivo-Comportamental e na Neurociência. Aqui se faz necessário separar a forma que uma pessoa com formação em Psicologia usa a ferramenta hipnose e uma que só usa a hipnose como técnica porém sem outras formações como Medicina, Fisioterapia, Odontologia e Psicologia.

3: Quais são os profissionais autorizados a trabalhar com esse tipo de terapia?

Sherman Calixto do Prado: A hipnoterapia por si só não tem regulamentação. Existem muitos profissionais atuando no processo terapêutico tendo sua formação apenas em hipnose. A técnica da hipnose é reconhecida e autorizada pelos conselhos de Medicina, Psicologia, Odontologia, porém qualquer pessoa que aprenda a hipnose pode se beneficiar dela para ajudar outras pessoas como, por exemplo, professores, enfermeiros, técnicos de futebol e tantos outros. A questão chave é para o que vai se utilizar a hipnoterapia? Para tratar um transtorno psicológico, por exemplo, ou para demonstrar fenômenos que ocorrem por conta da hipnose? Se for para tratar um transtorno é mais seguro que o profissional tenha em sua formação os conhecimentos necessários para lidar com estes transtornos.

4: A hipnoterapia pode curar doenças psicossomáticas? Se, sim, por quê?

Sherman Calixto do Prado: É complicado falar em cura. Sempre me refiro a hipnoterapia como tratamento para doenças psicossomáticas. Na nossa área de atuação é mais seguro tratarmos as melhoras e até mesmo a eliminação de sintomas como um controle bastante eficaz dessas doenças.

Isso ocorre devido a origem das doenças psicossomáticas. Como a origem é psicológica então a abordagem psicológica do tratamento é bastante eficaz. Com a hipnoterapia podemos identificar a origem, elaborar um tratamento específico em que a pessoa aprende a resolver suas questões internas, criar novos recursos mentais e, por fim, controlar ou eliminar os sintomas.

5: Como se estrutura uma sessão de hipnoterapia?

Sherman Calixto do Prado: A primeira sessão é de avaliação e anamnese. O Psicoterapeuta junto com o paciente busca entender a demanda, os motivos de buscar este tipo de terapia, a estruturação da questão trazida do ponto de vista do paciente. Identificação de crenças disfuncionais e elaboração do plano terapêutico que é totalmente individualizado. Ainda na primeira sessão fazemos uma explicação do funcionamento da mente e de como a hipnose funciona. Quando possível, na primeira sessão eu busco passar a pessoa por todo processo hipnótico para desmistificar o uso da técnica.

Nas sessões seguintes vamos caminhando no tratamento de acordo com os resultados obtidos pelo paciente. Eu sempre faço no início das sessões uma avaliação geral da semana que passou. Dependendo dos resultados a sessão pode ser reestruturada na hora e damos sequência ao tratamento que envolve relaxamento e indução hipnótica, sugestões diretas e indiretas, criação de recursos, reestruturação de memórias, etc. (depende muito do caso tratado) e finaliza-se com o despertar do transe hipnótico.

6: Existe contraindicação?

Sherman Calixto do Prado: Não existe contraindicação. Hipnose requer comunicação e que a pessoa entenda as instruções. Também tomamos cuidado com pessoas que tenham epilepsia não controlada; Pessoas com quadro psicótico (como na esquizofrenia) também requerem cuidado, atenção e conhecimento na utilização da técnica.

7: Existe preconceito por parte das pessoas pela hipnoterapia? Se, sim. Quais os fatores contribuíram para criar o estigma?

Sherman Calixto do Prado: Existe muito preconceito ainda, mas está bem melhor do que antes. A hipnoterapia vem sendo muito explorada na internet e em programas de TV, porém, de um jeito que acaba confundindo as pessoas. O que mostram é a hipnose de entretenimento onde o hipnotista provoca uma serie de fenômenos reais, porém espantosos como fazer uma pessoa esquecer o próprio nome. Muitos pensam que isso não é real ou que é tudo combinado. Justamente por isso, na primeira sessão de hipnoterapia gastamos um bom tempo desmistificando a hipnose antes de iniciarmos o tratamento.

8: Nesse período de pânico, por conta da pandemia do coronavírus, o sentimento de medo e insegurança aumentam o as sensações de estresse e depressão nas pessoas, como elas podem ter acesso à hipnoterapia sem saírem de casa? A possibilidade existe?

Sherman Calixto do Prado: A tecnologia está aí para ajudar todo mundo. O Conselho de Psicologia já autoriza e orienta as terapias online. No caso da hipnoterapia também podemos fazer via internet seguindo os protocolos de segurança. O paciente precisa estar em um ambiente favorável e isolado livre de interrupções, e a sessão de hipnose (relaxamento e transe hipnótico) tende a ser mais curta, porém com a mesma eficiência.

9: No reality show da rede globo, o Big Brother Brasil, Pyong, um dos participantes fez sessões de hipnose em outros brothers, como você enxergam essa atitude? É seguro?

Sherman Calixto do Prado: O que o Pyong fez foi hipnose de entretenimento, não é hipnoterapia. Este tipo de uso da ferramenta hipnose é totalmente seguro, é uma brincadeira onde os fenômenos são totalmente reais, não tem nada combinado. Basta a pessoa estar disposta a brincar e se entregar ao processo que a mágica acontece. Os fenômenos do entretenimento não acontecem com todas as pessoas. É necessário preparar e orientar todos que querem brincar. Quem estiver mais concentrado e focado no momento vai ser selecionado pelo hipnotista. Já no consultório, todos são hipnotizáveis. Uns mais facilmente do que outros. Só não é hipnotizado quem não se permitir.

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