Cotidiano

Gripe espanhola ceifou a vida de milhões de pessoas entre 1918 e 1920

Como as moléstias de outrora podem nos ajudar a compreender a crise provocada pelo novo coronavírus

diario da manha
Leitos onde a população ficava internada na época da gripe espanhola - Foto: Reprodução

No apagar das luzes da Primeira Guerra Mundial, as baionetas e metralhadoras foram abaixadas nos campos de batalha do Velho Mundo, vislumbrando o armistício que seria assinado em novembro de 1918. No entanto, outra desgraça iria acometer naquele ano a Europa, bem como as Américas e o Oriente: a gripe espanhola. Os discípulos do senhor Jesus Cristo, amém, acreditavam que a pandemia era um castigo de Deus pela tragédia humana que havia dizimado milhares de pessoas durante a Grande Guerra. Para os estudiosos, era preciso explicar a natureza da doença a fim de evitar futuros surtos. 

A pandemia provocada pela gripe espanhola ceifou de 20 a 40 milhões de vidas, mas desde então a evolução genética de vírus e bactérias continua desafiando a ciência. Em alguns meses, a doença matou mais do que os quatro anos de Primeira Guerra Mundial. Para termos uma ideia, um número maior de americanos morreu nos dois anos em que a moléstia se alastrou pelo mundo em comparação com a carnificina da Segunda Guerra, da Guerra da Coreia e da Guerra do Vietnã. Mortos eram empilhados, familiares eram impedidos de se despedir deles e faltaram caixões para enterrar todo mundo.    

No Brasil, a primeira cidade a entrar no mapa da gripe foi o Rio de Janeiro, então capital da República. A mutação do vírus veio a bordo do navio Demerara, que vinha da Europa. E sem saber que a embarcação traria uma doença letal para o País, o transatlântico atracou no Porto do Rio de Janeiro com passageiros infectados que tinham como destino o Recife, Salvador e o Rio. No mês seguinte, o Brasil estava em situação de calamidade pública, e até hoje aquele foi o pior cenário provocado por uma pandemia em nossa história, vitimando ninguém menos que o presidente Rodrigues Alves.  

O Rio na ocasião estava traumatizado pela campanha higienista capitaneada por Oswaldo Cruz, em 1904. A jovem República, que tinha pouco mais de dez anos, decretou a vacinação obrigatória contra a varíola e uma parte da população reagiu com violência à medida do governo. Foram cerca de 30 mortos e aproximadamente 110 feridos. Mas na década seguinte não havia vacina, nem Oswaldo Cruz, nem nada: houve 35 mil mortos… artistas, intelectuais, cidadãos comuns… todos padeceram ante a gripe espanhola, considerada a maior pandemia do século passado. 

Historiadores dizem que gripe espanhola matou entre 20 e 40 milhões de pessoas – Foto: Reprodução

Assim como os falatórios nos tribunais das redes sociais culpam a China pelo surto do novo coronavírus, a Espanha à época levou o crédito por ter iniciado o ciclo de mortalidade e contaminação. Totalmente injusto, sem pé nem cabeça, um equívoco. Foi no país europeu que a pandemia atingiu a autoridade mais nobre, ao infectar o rei Alfonso XIII, que escapou por pouco. Até hoje a origem geográfica da gripe segue sendo motivo de debate, ainda que sejam comuns entre historiadores a defesa de que a moléstia começara em outros países europeus ou na própria China, vejam só.  

Os sintomas da gripe espanhola são bem conhecidos da maioria da população: febre, dor de cabeça, dores no corpo, mal-estar geral, tosse e coriza. No entanto, esse quadro que hoje se resolve com apenas um comprimido, no final dos anos de 1910 provocou temor na população. E dizimou populações inteiras. Historiadores acham, inclusive, que a Primeira Guerra teria acabado pela falta de soldados no front. Mas, mesmo com essa trajetória sanitária, o fim da guerra não acabou com a pandemia. A Alemanha, derrotada no conflito, recebia cerca de seis milhões de ex-soldados vulneráveis. 

Outras pandemias

Na década de 1960, a gripe aviária foi classificada pelas autoridades da saúde mundial como pandemia, espalhando-se a partir de Hong Kong, na Ásia, pelo Vietnã, Cingapura, Filipinas, Austrália, África do Sul e países da América do Sul. Nos Estados Unidos, o vírus chegou como um efeito colateral da participação do Tio Sam na tragédia da qual dedicaram grande concentração e dedicação na Guerra do Vietnã. O que diferencia essa gripe da espanhola, de 1918, é a mutação do influenza. Até hoje, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vacina galinhas no sudoeste asiático. 

Sociólogo Max Webber foi uma das vítimas da gripe espanhola

Embora esteja distantes séculos dos dias atuais, a praga que detém as piores narrativas é a Peste Negra. Com pico entre 1347 e 1351, a doença acabou com um terço da população da Europa. Historiadores chegam a dizer que foram, ao todo, pelo menos 200 milhões de mortes. A Idade Média não tinha a menor compreensão de que existiam uma infinidade de microrganismos – bactérias, vírus, fungos – capazes gerar pânico, medo e moléstias em larga escala e morte.

A religião, sempre disposta incutir na população sentimento de culpa, insiste na máxima novíssima: a de que somos pecadores e o fim do mundo é iminente. No entanto, se há alguma culpa nesta história, é a da que igreja sempre mandou seus discípulos para se inocularem na praça nos Lugares Santos, com a promessa de ir ao céu. De fato, é preciso manter as orientações de higienização para enfrentar a pandemia. E, se possível, ler o clássico “A Metamorfose”, do escritor Franz Kafka (não confundir com Kafta, por gentileza).

Guillaume Apollinaire contraiu gripe espanhola – Foto: Reprodução

Veja os famosos que morreram vítima da gripe espanhola

Max Webber

Autor do clássico “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, o sociólogo morreu vítima da pandemia da gripe espanhola em 1920. 

Guillaume Apollinaire

Um dos maiores poetas do século passado, o francês Guillaume Apollinaire padeceu em decorrência à gripe espanhola, em 1918. Apollinaire é reverenciado como um dos maiores nomes da literatura.

Comentários

Mais de Cotidiano