Política & Justiça

Melenchon : A nova cara da esquerda Francesa

Deputado francês ao Parlamento Europeu e candidato à Presidência da República Francesa em 2017, Jean Luc Melenchon concede, em Paris, entrevista ao Diário da Manhã

diario da manha

Com a colaboração de Efraim Mellara

A concentração de riquezas alcança mais do que nunca índices imorais e trágicos em grande parte dos países do mundo. De repente, os que poderiam resistir a isto, os políticos de esquerda, assistem a tudo indignados mais impotentes. O pensamento de esquerda se estiolou num marxismo escolástico ou num socialismo cada vez mais liberal e cada vez menos socialista.

Mais do que nunca, as ideias de esquerda precisam de oxigênio, de pensadores, de militantes e de lideranças. Jean Luc Melenchon, dissidente do PS e fundador do Partido de Esquerda, o « Parti de Gauche », vem se destacando por uma nova e criativa abordagem da crise atual. Sua « revolução cidadã », num continente em que a revolução proletária saiu definitivamente da agenda até dos PCs tradicionais, urge como alternativa radical ao que existe, e como contraponto ao radicalismo reacionário da extrema-direita francesa.

Em segunda-feira fria de fevereiro, o deputado europeu Jean-Luc Mélenchon lotou as seiscentas cadeiras do Teatro Déjazet, em uma das esquinas da simbólica Praça da República, em Paris. Estava ali para lançar a edição de bolso de seu livro «A era do povo». Dias antes anunciara sua candidatura à presidência da França, mais de um ano antes do pleito. Campanha antecipada, na França pode. Só não pode no Brasil, onde uma classe política retrógrada cria todos os dias leis cerceantes da atividade eleitoral.

Quem acompanhou a última campanha eleitoral francesa, até hoje custa a entender o resultado final. A Frente de Esquerda, articulada por Mélenchon, reuniu seu novo partido, criado a partir de uma dissidência do PS, mais o tradicional e antigo partido francês em atividade, Partido Comunista, além de outras legendas progressistas.

As maiores manifestações populares da campanha eleitoral foram em torno da candidatura do deputado europeu. Apenas depois de se assustarem com as massas correndo ao seu encontro, os partidos polarizadores, escolhidos pelo sistema para se alternarem com a mesma política, realizaram grandes atos públicos. Os votos obtidos por Melenchon provocaram o segundo turno e fizeram dele uma personalidade central da política francesa.

O PS (de Hollande) tinha as máquinas municipais para juntar gente ; a UMP(de Sarkozy) tinha o governo nacional para atrair público e até hoje enfrenta a Justiça para explicar o dinheiro gasto na campanha. Com recursos mínimos, Mélenchon conseguiu fazer um belo movimento, dramatizando uma eleição que se prometia apática. Mas ficou em quarto lugar, atrás até mesmo da Frente Nacional, a extrema direita racista e xenófoba.

A França continua a ser um dos centros irradiadores de influência e laboratório de ideias e políticas.Neste contexto, Jean-Luc Mélenchon levanta sua voz, se lixando para o medo, o deboche, a perseguição e a indiferença que provoca nos adversários e até em ex-aliados. Sózinho, mas « a cada dia mais perto do povo ». Poucos dias depois de lançar seu site de campanha, Mélenchon jácontava com a adesão de mais de 50 mil seguidores.

Melenchon é um dos raros políticos que põem em letra de forma o que pensa. Já escreveu vários livros. O mais recente é « A era do Povo », em que desenvolve o seu conceito de « revolução cidadã ». Seus livros ainda não foram traduizdos para o português e não se sabe quando serão publicados no Brasil.

Jornalista de profissão, JL Melenchon é um homem de estatura mediana e carismático. Está sempre rindo, embora faça cara amarrada quando posa para fotos. Gosta de tiradas poéticas. Em sua última campanha, seus cartazes traziam frases do tipo « L´human d´abord » ( o ser humano primeiro) ou « France, la belle, la rebele » ( França, a bela, a rebelde). Era comum vê-lo pelas ruas de Paris distribuindo folhas volantes de sua campanha, ou participando de debates em livrarias dos 20° e 19° distritos da capital francesa, os tradicionais redutos do esquerdismo parisiense.

Esta entrevista ao Diário da Manhã é a primeira que concede a um jornal brasileiro. Apesar de ser, hoje, a mais destacada personalidade da esquerda francesa, e já em campanha à presidência da República, Melenchon é desconhecido no Brasil até mesmo nos meios socialistas e comunistas. Para esta entrevista, o Diário da Manhã contou com o apoio do jornalista Efraim Melara, que mora em Paris e atua no Insituto Cultrural Castro Alves. Ele não só formulou perguntas a Melenchon como submeteu a ele as que enviamos por e-mail. Melenchon recebeu Melara com sua habitual cordialidade.

Em tempo : a França foi, por décadas, a grande referência cultural do Brasil. Boa parte de nossas elites intelectuais lá se formaram. Os franceses tentaram colonizar o Brasil, e fundaram no Maranhão uma cidade, São Luiz. O capital francês perde apenas para o americano em presença no Brasil. De resto, o Brasil faz froteira com a França. Perplexo ? Pois a Guiana perdeu o status de colônia e, hoje, é uma extensão territorial da França, ou «France de autre mer », França Ultramarina.

Eis a entrevista:

Diário da Manhã – Uma de suas bandeiras é fundar a sexta rep

blica. Como definir esta meta?

Jean Luc Melenchon – A Constituição francesa de 1958 não corresponde mais ao nosso contexto econômico, social e demogr

fico. As instituições não permitem mais uma representação democr

tica dos cidadãos. Os eleitos são, a cada dia, menos legítimos, e precisamos mudar as regras da vida política. Os políticos devem temer a decisão do povo e não o contrário. O povo é quem deve definir as regras da política. A constituição atual foi modificada vinte e uma vezes sem o consentimento direto do eleitor. A crise social é em parte devido à crise política e uma nova constituição pode ser o remédio contra a grave crise atual.

Diário da Manhã – O que o sr. Quer dizer quando fala em « Revolução cidadã » ?

Jean Luc Melenchon – O povo deve ser o condutor do país. Ele precisa retomar o poder que a oligarquia financeira, a Comissão Européia e o monarca presidencial progressivamente confiscaram. Temos urgência pois este sistema nos conduz a uma cat

strofe ecológica e social e a uma guerra generalizada sem que os cidadãos nunca possam dizer a sua palavra. Convocar uma Assembleia Constituinte para fundar uma sexta república é o meio de reorganizar pacificamente nossa democracia. É o momento de fixar os direitos ecológicos, sociais e democr

ticos aos quais necessitamos nesta época.

Diário da Manhã – Pode-se considerar ainda o PS (Partido Socialista) um partido de esquerda ?

Jean Luc Melenchon – A UMP (que agora adotou o nome «Les Republicans ») e o PS foram convertidos ao liberalismo puro e simples. Eles fazem a mesma política. Mas o país a rejeita profundamente. O povo elimina a cada eleição aqueles que fazem esta política, pois ela agrava sem cessar os problemas concretos da vida de cada um. Todo o campo político tradicional perdeu seus princípios. Restam a Frente Nacional, de direita, e o Partido de Esquerda ( Parti du Gauche). Entre eles, ficam os políticos submissos ao modelo de Angela Merkel, segundo o qual tudo se conserta por si só.

Diário da Manhã – Como combater o capital financeiro ap

trida que a cada dia ameaça mais a soberania dos pa

Jean Luc Melenchon – Quando um país se afunda cada vez mais em termos econômicos, social e político, o que h

 de mais importante do que questionar o poder? É aí que reside a ideia de uma nova república. Quem decide? O povo ou a oligarquia ? O MEDEF(federação das 40 maiores empresas francesas) ou os assalariados ? Os lobbies ou os cidadãos ? Nenhum problema urgente pode encontrar respostas no sistema atual. Como lutar contra o desemprego e aumentar os sal

rios quando os acionistas são os superpoderosos nas empresas ? Como sair da austeridade enquanto a soberania popular é negada pela Comissão Européia e o Tratado de Lisboa ? Como proceder à transição energética, em meio aos lobbies, e submeter as grandes questões como o futuro da energia nuclear, à decisão dos cidadãos ? Como mudar a política para uma maior participação popular, quando a abstenção avança à cada pleito ? É impossível sem uma mudança profunda nas regras da política.

Diário da Manhã – Por que se expor tão cedo ao se lançar candidato à Prtesidencia da República mais de um ano antes do pleito ?

Jean Luc Melenchon – O tempo se acelerou quando quatro candidatos à prim

ria da direita estão ativos e a candidata da extrema-direita est

 em campanha. Nós est

vamos ameaçados de ficar paralisados por uma prim

ria de esquerda. Existe uma missão a cumprir e neste momento eu sou o melhor colocado.

Diário da Manhã – Sua campanha começa com o lema de representar a França insubmissa. Qual é ela ?

Jean Luc Melenchon – Toda pessoa que na vida resiste a se rebaixar, os lançadores de alerta, os sindicalistas que se batem para defender o emprego. É também o país diante do mundo. A França insubmissa vai do indivíduo à Nação. Eu quero encarnar a rebelião e a insubmissão necess

ria para fazer nascer um mundo novo. É preciso usar o pleito de 2017. Senão, como derrubar a casta de privilegiados, como abolir a monarquia presidencial, defender nossos interesses diante dos tratados europeus e passar à um modelo de produção com a planificação ecológica ?

Diário da Mamhã – Como estão as relações entre o seu partido e os aliados do ultimo pleito ?

Jean Luc Melenchon – O PCF e outros partidos da Frente de Esquerda decidiram se engajar em uma prim

ria com o Partido Socialista e os ecologistas do EELV. Ninguém pediu minha opinião. De minha parte, eu avanço sem pedir permissão a ninguém. Eu conclamo as pessoas a se reunirem para agir por meio do meu site «

 ». Os únicos golpes que foram dirigidos à minha candidatura vieram justamente de meus antigos aliados. É doloroso. Eu esperava uma atitude mais fraternal. Mas eu não me resigno ao fim da Frente de Esquerda. As pessoas que se reconhecem dentro da esquerda são benvidas à « La France Insoumise » (« A França insubmissa »).

Diário da Manhã – Mas não haveria um risco maior de sair candidato sem a força militante e a estrutura do PCF, que ocupa diversas prefeituras por todo o pa

s e controla sindicatos ?

Jean Luc Melenchon – O mito dos grandes aparelhos verticais, dando ordens a exércitos de robôs, acabou-se. Nós vimos nascer outra coisa nas eleições passadas, em 2012. A campanha foi feita por dezenas de milhares de pessoas anônimas não enquadradas. Eu acredito na auto-organização e nas redes sociais.

Diário da Manhã – Qual a sua posiç

o em relaç

o à guerra civil na S

Jean Luc Melenchon – Recusamos uma tentativa de entender o conflito dentro de uma nova guerra fria. Existem aqueles que procuram reduzir a complexa questão internacional à dicotomia simplista de disputa entre EUA e Rússia. Somos de acordo a que a ONU solucione o problema. Esperamos uma solução internacional para este caso.

Diário da Manhã – Como resolver o problema do aumento dos refugiados de guerra na Europa?

Jean Luc Melenchon – Apenas acolher os refugiados não é uma resposta ao problema. O verdadeiro realismo é bloquear as causas das partidas. Não é « impedir as pessoas de chegar », é dissuadí-las de partir. Claro que somos a favor de acolher refugiados, não podemos jog

-los ao mar. Isto não pode, porém, ser uma cortina de fumaça para que evitemos buscar solucionar as causas. Eles não partem por prazer; eles fogem por não terem escolha.

Diário da Manhã – Mas a Alemanha se dispôs a acolher cerca de 800 mil pedidos de asilo, enquanto a França estimou em 30 mil suas possibilidades de acolhida…

Jean Luc Melenchon – Eles ( a Alemanha) têm um déficit de população grande, do qual eles mesmos têm consciência. Mas não acredito que esta seja uma medida realista, parecendo-me mais um pouco de oportunismo.

Diário da Manhã – Qual seria, ent

o, uma pol

tica melhor em relaç

o aos refugiados e à migraç

o por motivos econômicos ?

Jean Luc Melenchon – Recusamos entrar em uma discussão sobre quotas de migrantes que devem ser aceitos ou não nos países europeus. Mas o que sentimos é que o aumento de migrantes est

apenas começando… Temos nossa responsabilidade. A política econômica da Comunidade Européia massacra as economias locais, provocando um deslocamento massivo de populações. Temos que parar com essa estratégia de parcerias econômicas que exigem que os países reduzam suas tarifas, de modo a que os produtos europeus dominem mercados locais. Ainda que a União Européia não possa ter influência sobre a economia do Sudão, da Eritréia ou da Somália, em todas essas guerras não há nenhuma que seja uma guerra espontânea. Não há nenhuma em que não haja as mãos das grandes potências para o equipamento bélico. O dinheiro vem de algum lugar.

Janelas

ticos aos quais necessitamos nesta época ».

ria para fazer nascer um mundo novo ».

ria com o Partido Socialista e os ecologistas do EELV. Ninguém pediu minha opinião. De minha parte, eu avanço sem pedir permissão a ninguém ».

Comentários