Opinião

Darci Accorsi e sua ligação com a confecção de Goiânia

diario da manha
Jairo Gomes, presidente de honra da Associação Empresarial Região da 44 (AER44)_

Por Jairo Gomes

A forte vocação econômica de Goiânia para o setor da confecção surgiu na década de 80. Nessa época, a já movimentada Feira Hippie, realizada durante as manhãs de domingo, preenchia a Praça Cívica, descia a Avenida Goiás e era ponto de encontro de escritores, artistas, pensadores e adeptos do movimento hippie que ali expunham seus trabalhos artesanais. De repente algumas poucas famílias começaram a levar peças de confecções, especialmente moda feminina e infantil, para expor e vender de forma tímida, para garantir uma renda extra.

Tal situação chamou atenção de confeccionistas que tinham seus negócios em três regiões da cidade e que mais tarde viraram importantes polos de confecção da capital: a Avenida Alberto Miguel, no Setor Campinas; a Avenida Bernardo Sayão, nos setor Fama; e Av 85 no Setor Marista, que focava num público mais elitista, diferente dos dois primeiros, que se dedicavam a uma moda mais popular e do dia a dia.

Com o passar dos anos, esse movimento de pequenos confeccionistas cresceu de tal forma que já atraia compradores de todo o Estado e de outras partes do Brasil. Ficou então insustentável manter no centro histórico da cidade a Feira Hippie, que já não era tão hippie assim. As milhares de barracas montadas ao longo da Avenida Goiás incomodavam os moradores locais e atrapalhavam consideravelmente a entrada e saída de veículos. A partir do final da década de 80 e início dos anos 90 começa então uma discussão sobre a transferência da feira para outro local, que causasse menos impacto na região central da capital.

Em 1992, a Feira Hippie já se consolidava como um polo de confecção e moda de Goiás. Naquele mesmo ano, nas eleições de novembro, conhecia-se o nome do próximo mandatário municipal que iria dirigir os destinos da capital do estado nos próximos quatros anos. O novo prefeito era o professor de Filosofia Darci Accorsi, um simpático e carismático gaúcho que já há alguns anos tinha escolhido Goiânia para criar sua família. Na época, Darci, que já era vereador e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, recebeu logo no início do seu mandato, em 1993, o desafio de encontrar um local para aquela feira que já abrigava mais de dois mil expositores.

Depois de muitas reuniões, debates e pesquisas, já no ano de 1995, o socialista Darci Accorsi, preocupado com as questões sociais que implicam a mudança de uma feira das dimensões que era a Feira Hippie, define que o local adequado para receber os feirantes seria a Praça do Trabalhador, junto à antiga Estação de Ferroviária da Capital.

É nesse momento que Goiânia conhece o lado mais humano e ao mesmo tempo ousado daquele professor de filosofia. Mesmo contra a vontade de vários auxiliares e com uma ideia arrojada na cabeça, ele transforma a Feira Hippie da Praça Cívica, que reunia cerca de 2.100 expositores, na maior feira a céu aberto da América Latina, com mais de 6.000 mil pontos de vendas, praticamente triplicando seu tamanho.

Na época, o professor Darci talvez não tivesse a devida dimensão de como sua decisão transformaria a vida de milhares de famílias e como impactaria no futuro da economia da capital. De uma polêmica mudança do local da Feira Hippie, Accorsi levou oportunidade para milhares de microempreendedores, ao implantar o maior projeto social da sua administração e o maior que Goiânia já teve.

Mas algo incomodava aquele jovem senhor dono de um vistoso bigode, uma de suas marcas. Como essas famílias de origem humilde e sem dinheiro poderiam se organizar para tocar seu negócio? Darci, um grande entusiasta da economia popular, percebeu que primeiro teria que qualificar aqueles micro e pequenos empreendedores, até porque a grande maioria não tinha habilidades de gestão e nem os maquinários necessários para tocarem seus negócios. Muitas dessas pequenas confecções funcionavam de forma improvisada em fundos de quintais, geridas por mães e pais de famílias.

E foi por meio da antiga Fundação Municipal de Desenvolvimento Comunitário (Fundec), que oferecia gratuitamente cursos profissionalizantes, que milhares de pequenas costureiras e costureiros viraram empresários, muito deles hoje bem sucedidos. Faltava então o fomento financeiro necessário para que esses microempreendedores conseguissem adquirir seus equipamentos. Eram pessoas, em sua grande maioria, de origem simples, fugindo do desemprego que naquela época assolava a nação.

Para isso professor Darci criou o Banco do Povo do município, uma iniciativa que já era sucesso em muitas cidades brasileiras como instrumento para fomentação de pequenos negócios e apoio à economia popular. Empréstimos de pequenos valores, há juros de quase 0%, para que aquelas famílias pudessem adquirir o maquinário necessário e iniciar seu novo negócio ou profissionaliza-lo.

De desempregados a donos de seu próprio negócio, era este tipo de empreendedor que dava origem a uma nova Feira Hippie, que em poucos anos fez de Goiânia um respeitado polo de confecção e moda do país. Em setembro de 1995, era inaugurada a nova Feira Hippie na emblemática Praça do Trabalhador.

Milhares de feirantes recebiam com largos sorrisos os turistas de compras que vinham de todo os estados brasileiros, a moda goiana começa a conquistar o Brasil, e surgia ali o embrião de um dos principais pólos de confecção em moda do Brasil, a nossa pujante Região da 44. A transferência da Feira Hippie para a Praça do Trabalhador, nas proximidades do terminal rodoviário da capital e perto da principal via expressa da cidade, a Marginal Botafogo, foi a condição sine qua non para que Goiânia passasse abrigar o que hoje é o segundo maior polo de confecção e moda do Brasil.

É preciso que as gerações de hoje e amanhã reconheçam e reverenciem o papel decisivo de Darci Accorsi para a inserção de Goiânia neste dinâmico e promissor mercado da moda. Se neste plano terrestre ainda estivesse, no último dia 13 de junho, esse gaúcho de nascença e goiano de coração, teria completado 75 anos. A idade, certamente, não seria empecilho para segurar o seu espírito arrojado e transformador, e nem sua vontade de promover o bem público. Professor Darci, onde estiver, o meu sincero agradecimento e carinho. Nos dias de hoje, políticos como o senhor, fazem uma enorme falta. Obrigado.

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