Opinião

Eleições e economia

diario da manha

Dos anos 1950 aos anos 1970, o pla­ne­ja­men­to eco­nô­mi­co de ca­rá­ter es­tra­té­gi­co (no sen­ti­do mi­li­tar do ter­mo) e de­sen­vol­vi­men­tis­ta (no sen­ti­do ce­pa­li­no da ex­pres­são) foi as­su­mi­do pe­los su­ces­si­vos go­ver­nos, no Bra­sil, des­de o ter­cei­ro Var­gas (“de­mo­crá­ti­co”) até o au­ge do re­gi­me mi­li­tar. O mo­te era cres­cer sob im­pul­so es­ta­tal e ga­ran­tir a so­be­ra­nia na­ci­o­nal, mes­mo que sob o guar­da-chu­va ame­ri­ca­no, os­ten­si­va­men­te an­ti-pla­ni­fi­ca­ção, em con­fron­to com o mo­de­lo so­vi­é­ti­co. Deu em, pri­mei­ro, cres­cer, pa­ra de­pois dis­tri­bu­ir (quan­do pos­sí­vel), o cres­ci­men­to, de fa­to, in­ter­rom­pi­do pe­las cri­ses do pe­tró­leo (1973 e 1979) e pe­la cri­se da dí­vi­da ex­ter­na (anos 1980), sem tem­po pa­ra qual­quer ini­ci­a­ti­va pe­la des­con­cen­tra­ção da ri­que­za e da ren­da.

O fra­co de­sem­pe­nho eco­nô­mi­co pós-mi­la­gre, sob re­gi­me au­to­ri­tá­rio, le­vou à que­da dos mi­li­ta­res gol­pis­tas, re­tor­nan­do o pa­ís à de­mo­cra­cia, mas amar­gan­do uma cri­se eco­nô­mi­ca pro­lon­ga­da, ca­rac­te­ri­za­da por de­sem­pre­go e in­fla­ção. Os anos 1980 e 1990 fo­ram dé­ca­das per­di­das, so­bran­do um na­co bom dos 90: o fim da hi­pe­rin­fla­ção, por meio de uma po­lí­ti­ca eco­nô­mi­ca que le­vou à ex­plo­são da dí­vi­da pú­bli­ca in­ter­na.

Nos anos 2000, gra­ças ao bom de­sem­pe­nho da eco­no­mia mun­di­al (be­ne­fi­ci­an­do se­to­res pro­du­ti­vos fa­vo­rá­veis à es­tru­tu­ra pro­du­ti­va bra­si­lei­ra) e a uma atu­a­ção go­ver­na­men­tal que com­bi­nou es­ta­bi­li­za­ção fis­cal com po­lí­ti­cas so­ci­ais (dis­tri­bu­ir pa­ra cres­cer, ao con­trá­rio da ex­pe­ri­ên­cia do “mi­la­gre eco­nô­mi­co”), a dé­ca­da foi de bons re­sul­ta­dos, até um pou­co de­pois do es­tou­ro da bo­lha es­pe­cu­la­ti­va do mer­ca­do fi­nan­cei­ro in­ter­na­ci­o­nal, em 2008. A era das “po­lí­ti­cas pú­bli­cas” (anos 2000), as­sim co­mo a era do “pla­ne­ja­men­to eco­nô­mi­co” (1960-1970), ter­mi­nou nos no iní­cio dos anos 2010.

As­sim fun­cio­na a eco­no­mia bra­si­lei­ra: aos sur­tos, se­guin­do a os­ci­la­ção das on­das da eco­no­mia mun­di­al, ho­je di­ta glo­bal. Des­tra­va ou tra­va con­for­me o ní­vel de li­qui­dez do sis­te­ma, con­tro­la­do pe­las for­ças es­pe­cu­la­ti­vas glo­bais. Sem­pre pa­ga, na on­da de­pres­si­va se­guin­te, um pre­ço al­to pe­las ou­sa­di­as do bo­om an­te­ri­or. A po­lí­ti­ca eco­nô­mi­ca (cur­to pra­zo) e a po­lí­ti­ca de de­sen­vol­vi­men­to (lon­go pra­zo) são sem­pre re­féns de mo­vi­men­tos pen­du­la­res, en­tre mais Es­ta­do e me­nos Es­ta­do na eco­no­mia.

2018 é um ano de dis­pu­ta elei­to­ral que se­rá mar­ca­do for­te­men­te por es­se mo­vi­men­to pen­du­lar, de cu­nho ide­o­ló­gi­co. Um go­ver­no ile­gí­ti­mo op­tou por um re­cuo am­plo e ace­le­ra­do da atu­a­ção eco­nô­mi­ca es­ta­tal, tan­to no âm­bi­to so­ci­al co­mo no pro­du­ti­vo; dis­se um pe­remp­tó­rio não ao “pla­ne­ja­men­to eco­nô­mi­co” e às “po­lí­ti­cas pú­bli­cas”. O fô­le­go des­sa op­ção se­rá tes­ta­do, jun­ta­men­te com a ca­pa­ci­da­de de de­ci­dir e de agir de seus pro­ta­go­nis­tas, fi­nal­men­te fren­te a fren­te com os elei­to­res. Es­pe­ra-se.

 

(Val­de­mir Pi­res, pro­fes­sor da Fa­cul­da­de de Ci­ên­cias e Le­tras da Unesp de Ara­ra­qua­ra)

 

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