Opinião

Lacerda, a conspiração fatal

diario da manha

Por mais que se queira, o Brasil não esquece a passagem do golpe de 31 de março, que deu um tiro certeiro na democracia.
O movimento militar teve o apoio de vários segmentos da sociedade brasileira. “A Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, liderada por Leonor de Barros, esposa do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, foi o exemplo mais notável. Aflitas, terço nas mãos, mulheres pediam o fim do governo de João Goulart.
Uma das figuras marcantes desse movimento de 1964 foi o jornalista Carlos Lacerda. Na época, governador da Guanabara, apoiado por outros opositores, articulou o golpe que apearia João Goulart do poder.
Proprietário do jornal Tribuna da Imprensa, editado no Rio de Janeiro, Lacerda conquistou notoriedade na cena política nacional.
Político arguto e inteligentíssimo, tinha temperamento irrequieto, poucos amigos, dificilmente conservava amizades.
Em Goiás, tinha a amizade de Carlos Lacerda, o ex-deputado estadual Olímpio Jayme, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, morto em 30 de junho de 2015.
Para Jayme, “um ano antes (1963), já havia uma movimentação conspiratória para a Revolução de 64. Principalmente entre os governadores de São Paulo (Adhemar de Barros), Guanabara (Carlos Lacerda) e Minas Gerais (Magalhães Pinto). Eu já conhecia a personalidade de Lacerda, filiado a UDN. Entrei em contato com ele e passei a integrar a Conspiração Revolucionária. Atendendo orientação sua, formei em Goiás, com apoio de companheiro, entre eles Camargo Júnior, Manoel dos Reis, Antônio Alves de Carvalho, Bebé Borges e outros, a Frente de Mobilização Democrática (FDM). Aparentemente, o objetivo seria o patrocínio da defesa da propriedade rural, seriamente ameaçada pelo governo João Goulart, que estava sob o comando e a orientação do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola”.
Na realidade, destacava Olímpio Jayme, o objetivo da conspiração era o preparo da zona rural para a revolução. As armas seriam fornecidas por Adhemar de Barros. “Participando da conspiração, permaneci no Rio de Janeiro, onde eram constantes os contatos com Carlos Lacerda. Na conspiração do Rio de Janeiro e Goiás, houve a colaboração decisiva do deputado estadual Olinto Meirelles (da UDN de Goiás), que gozava de absoluta confiança de Lacerda. Olinto é um homem combativo, organizado e conspirador nato. Foi vítima da revolução, dizia Olímpio Jayme”.
Olímpio Jayme dizia que, mesmo antes de romper com o movimento de 64, Lacerda já discordava dos rumos da revolução. O coronel Boaventura, amigo incondicional de Lacerda, pregava nos quartéis a derrubada do governo e a entrega dos destinos do País a um triunvirato civil, presidido por Lacerda. “Descoberta a trama, o coronel foi para a reserva. Várias portas se fecharam também para Lacerda. Seu inimigo principal era o ministro Costa e Silva, o presidente que destruiu o movimento de 64. A revolução teve por certo tempo o comando de Costa e Silva, eliminando da vida pública as grandes e mais sérias lideranças da época”.
Assim, Carlos Lacerda se tornou vítima da revolução da qual foi a grande inteligência, pagando um preço muito alto, inclusive sacrificando a possibilidade de sua candidatura à Presidência da República nas eleições diretas previstas para 1965 (que acabara não acontecendo). Como João Batista, teve a cabeça a prêmio oferecida em bandeja de prata pela linha dura do Exército.
Lacerda, que se definia democrata, sentiu o peso do chicote. Ele não gozava da confiança dos generais golpistas. Não nasceu para receber ordens dos quartéis, tinha uma liderança imensa. Gostava de eleições, e isso os revolucionários não toleravam.
Em 28 de outubro de 1966, Lacerda publicaria um manifesto ao povo brasileiro onde cobrava a redemocratização do País com eleições livres, reforma partidária, entre outros itens. Houve grande repercussão.
Logo após, ele encontra-se com Juscelino Kubitschek em Portugal, e, em 19 de novembro de 1966, publicam a “Declaração de Lisboa”, expressando o desejo de atuarem juntos em frente ampla de oposição ao governo dominante no Brasil.
O passo seguinte seria o encontro de Lacerda, no Uruguai, com João Goulart, que promete apoio à frente de resistência ao governo militar.
Ao provocar a fúria dos militares, Lacerda acenderia o estopim de uma bomba, balançando a estrutura do “governo revolucionário”, levando os donos do poder a endurecer mais o regime. Ainda assim, a Frente Ampla realizaria dois grandes comícios em pleno regime militar. Um em Santo André, no ABC Paulista, e o outro em Maringá, no Paraná.
Apesar dos erros e acertos, Lacerda foi maior que seu tempo, como Juscelino e João Goulart, que se tornaram vítimas de um período obscuro da história brasileira.

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