Opinião

Operação Aletheia

diario da manha

Quando escrevi “Porque que o PT não presta” a ironia escapou de sua refinada dimensão literária e virou puro deboche. A 24ª fase da Operação Lava Jato da Polícia Federal (PF) fala em verdade – Aletheia – palavra que expressa um profundo conceito grego de verdade. A nossa ideia de verdade é judaico-cristã – nossa cultura foi erigida com base nas mentiras provocadas pela fé e pela crendice nos dogmas de certa igreja que agora não vem ao caso.

Nós, brasileiros, temos uma verdade própria, ela transcende o conceito filosófico grego do que possa vir a ser isso. Nossa verdade apreendida ainda nas reminiscências afro/tupi/cristã possui por base “o amoral” – desde que velado pelas vestes do consentimento mútuo. Nossa identidade cultural nos permite sonegar um pouquinho, fazer vista grossa, furar a fila, dar uma carteirada, atravessar o sinal vermelho. É assim que somos, para isso fomos educados como nação.

A operação deflagrada pela PF possui em seu rascunho uma resposta política do judiciário para o povo, mas não da justiça em si, mas de uma corrente da justiça. A resposta seria a de que ninguém estaria acima da lei, e que se ela quiser, ela faz e acontece. Isso para a desgraça de nossa sociedade. Porque essa atitude comprova que a justiça não é cega e vê tudo que se passa, só não pune porque não quer.

A dominação da política pelas oligarquias tomou conta do País desde a primeira república e seus efeitos foram a cartelização das decisões de Estado em todos os aspectos: da industrialização da cultura à execução de obras públicas. Tudo no Brasil passa pelo filtro das oligarquias financeiras e o que é pior, das oligarquias intelectuais.

As oligarquias financeiras estão aí, expostas, portanto não será necessário desenhá-las com palavras para que o leitor saiba que são formadas pelas empreiteiras e grandes empresas. Já a oligarquia intelectual é mais sutil, difusa e de difícil identificação. Ela está infiltrada nas universidades, na produção da cultura, nos veículos de comunicação, nos livros herméticos do conhecimento, nas escolas caras que garantem franquear o ingresso nas melhores universidades do País – é a oligarquia da classe média que possui o monopólio da opinião pública.

O que se quer dizer com isso até aqui? O discurso de classes está sendo derramado contra nossa cultura e contra nossa moral através dos atos de uma suposta justiça que hoje está emblematicamente vinculada a figura do Juiz federal Sergio Moro.

Moro é a catarse de nossa ignorância, porque em 200 anos de política, a justiça brasileira foi incapaz de identificar e punir seus feitores – ela olvidou nossa perversão eleitoral com base no estado constitucional que reza a independência dos três poderes. Com isso, consolidamos o que hoje se destaca em todos os jornais do mundo: Lula foi conduzido de forma coercitiva para depor no saguão de um aeroporto – ridículo.

O juízo de nossa moral está sendo feito pela ética da classe média. Uma verdade grega contra os usos e costumes de uma gigantesca parcela da sociedade brasileira que, por estrutura formacional, está a quem da compreensão do que se passa – a cultura tupiniquim desafiada e subjulgada pelo saber grego alienígena. O País do permissivismo, levou um choque, mas não para ressuscitar o enfartado sistema político, mas para mostrar que tem um desfibrilador.

Quando o PT rachou o Brasil nas últimas eleições, ficou claro que a moeda social brasileira possui duas faces – cara e coroa. No jogo, deu coroa de novo, ou seja, as oligarquias de sempre se impuseram e, como se fosse uma eleição romana, prevaleceu o valor pecuniário do candidato. Não podemos defender Lula e muito menos o PT, mas podemos acusar a justiça de ignorante e covarde, posto que jamais se preocupasse em questionar o congresso sobre nossa lei eleitoral que abre precedentes para que animais como Sarney, Collor, Lula, Dilma e todos, sem exceção, venham à tona no processo político representando as velhas oligarquias. Deu no que deu.

 

(Waldemar Rego é jornalista e artista plástico. [email protected])

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