Opinião

O centenário da escritora Ada Curado

diario da manha

Ada Ciocci Curado, escritora e acadêmica de renome em Goiás, nasceu em Jardinópolis, interior de São Paulo no ano de 1916 e faleceu em Goiânia, em 1999, aos 83 anos de idade. No ano de 1954, Ada Curado (1916-1999) iniciava sua carreira literária que seria eclética entre romances, contos e livros de poesia. Tornou-se goiana de alma e coração após o casamento com o militar destacado, Gentil de Amorim Curado.
Deixou obras importantes como O sonho do pracinha, Morena, Paredes agressivas, Figurões, Nego rei e Acalanto que foram bem recebidas pela crítica e a fizeram conquistar uma cadeira na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e a filiação em entidades como a União Brasileira de Escritores, seção de Goiás e Associação Goiana de Imprensa.
Polígrafa, mesmo com todas as dificuldades, conseguiu construir uma obra de mérito em diferentes gêneros, até mesmo no teatro.
Ada Curado publicou o seu primeiro livro, “O Sonho do Pracinha”, reunindo contos que alcançaram sucesso imediato, aplaudido pela crítica de Goiás e de outros Estados. “Os contos de Ada Curado, enfeixados no livro pioneiro possuem verdadeiros reflexos do nosso sertão e são como pepitas literárias”, conforme escreveu Geraldo Valle.
Quatro anos depois, em 1958, Ada Curado publicou o seu segundo livro, o romance “Morena”, em que registrou, com muita propriedade, o folclore goiano.
Com o selo da livraria Brasil Central, no ano de 1966, Ada Curado publicou o livro de contos Nego rei, recebendo elogios críticos de Orígenes Lessa, Xavier Júnior, Carmo Bernardes e do Jornal das Letras do Rio de Janeiro.
Mesmo iniciando sua produção literária com contos, Ada Curado não se prendeu apenas a esse gênero, mostrando talento em outros trabalhos, revelando-se verdadeiramente diversificada, até mesmo dentro do mesmo gênero, já que escreveu romances urbanos e rurais.
Em 1976, enveredou pelo campo da produção dramática, publicando, pela Gráfica Oriente, a peça teatral Sob o tormento da espera, premiada num concurso da Caixego. Em 1977, estreou no romance com “Paredes agressivas”, publicado pela mesma editora, registrando o momento histórico e político brasileiro dos conturbados anos 30, conforme escreveu o crítico Geraldo Coelho Vaz.
Com o selo da gráfica de O Popular, Ada Curado publicou, em 1985, o seu livro “Figurões”, em que mescla contos, crônicas e artigos críticos sobre Wendell Santos, Ursulino Leão, Miguel Jorge, José Xavier de Almeida e Aidenor Aires. Tal versatilidade de gêneros prova o poder criador e o senso crítico da autora.
Quando completou 75 anos, Ada Curado lançou o seu último livro, “Acalanto”, de poemas suaves, organizados numa longa e expressiva experiência de vida, calcada nas mais diferentes sensações: alegria, tristeza, desapontamento, solidão, angústia, sensibilidade, erotismo.
É o momento de maior vibração da produção deixada pela autora, pois “criar em literatura, é dar vida às imagens e às ideias. É passar do domínio da meditação e da observação ao da ação por meio de intuição criadora”, conforme escreveu Alceu Amoroso Lima.
Seus contos primam por uma linguagem simples, coloquial, revelando vivências comuns do cotidiano, dando ênfase aos aspectos femininos na solidão, no casamento, na convivência, no condicionamento moral e nos próprios preconceitos sociais, vinculados à questão da emancipação feminina.
De seu primeiro livro “O Sonho do Pracinha”, selecionamos o conto “O que viveu sem nascer” tocados pelo curioso título e pelo conteúdo que se vai apreendendo. Narrativa curta, característica, pois do conto literário, inicia-se com a exposição da voz narrativa, mostrando os dois personagens envoltos com cuidados excessivos com a primeira gravidez da mulher. Pela exposição, notamos ser a cena no passado e que veremos no último parágrafo que tudo fazia parte, deveras, de um acontecimento pretérito: “Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de d. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa” (p. 37).
Pelo próprio uso do tempo verbal, observamos que a cena aconteceu num tempo passado. Pela simplicidade dos nomes dos personagens, observamos a intenção da voz narradora de evocar fatos triviais de gente comum. Em seguida, utiliza-se de um discurso direto, na fala do marido: “Hoje mesmo ajustarei uma criada. Não há necessidade meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o médico que recomendou?” (Idem).
Pelo diálogo, percebemos que dona Maria já não é tão moça e que o fato de estar grávida recomendava cuidados especiais. Revela, também, logo em seguida, que o filho era bastante aguardado: “Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que o nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.” (Ibidem).
Ada Curado utiliza-se de um procedimento discursivo diferenciado para nos envolver nos embates existenciais e nos sonhos do casal, mostrando o parecer de cada um sobre a gravidez e sobre os cuidados com o filho tão esperado. Utiliza-se de frases fortes, termos concisos, reduzindo ao máximo o enunciado.
Mostrando uma onisciência interpretativa, a voz narrativa vai em seguida analisando ações e reações dos personagens, deixando pistas, antecipando o desenlace da narrativa através de observações como aparece logo após o diálogo do casal: “Pobre… pobre seu Manuel! Parece que estava adivinhando.” (p. 38).
Mesmo estando ainda na exposição da narrativa e na apresentação dos personagens, a voz narrativa antecipa o que poderá acontecer logo adiante, mostrando certos laivos de desencanto e irrealização dos planos de seu Manuel. Tal acontecimento na trajetória do conto condiz com a afirmação de Moisés (1976, p.43): “O bom começo é tudo, pois dele nascerá o epílogo.”
Em seguida, a voz narrativa apresenta um parágrafo descritivo sucinto que se ajusta aos rigores do gênero, mostrando a alegria do casal com a possível concretização do sonho. Realiza-se aí a função delatória da descrição: “Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros como nunca.” (pág. 38).
A complicação da trama já se descortina dois parágrafos adiante quando o sonho parece esboroar para o casal idealizador: “Ia pelo sétimo mês de gravidez quando apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar do caminhar cauteloso, dona Maria caiu. Caiu e que tombo… Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado!” (p.38).
Da complicação para o clímax do conto é rápida a extensão, haja vista que toda a trama gira em torno de um casal já idoso que deseja filhos e a irrealização de tal sonho é o ponto mais doloroso da história: “O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que dona Maria jamais seria mãe. Choraram desesperados, um abraçado ao outro.” (p.38).
Daí em diante a narrativa seguirá rumo ao desvendamento do título do conto. A voz narrativa participa assim da diegese, aderindo com seus comentários à existência dos personagens: “Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando.” Nessa explicação observamos a onisciência da narradora comentando e antecipando, como ocorreu na alegria dos personagens, os acontecimentos futuros.
A partir desse ponto, de forma rápida e condensada, a voz narrativa vai fazendo o adensamento estrutural da trama, caminhando para o desenlace, mostrando os devaneios dos personagens que, mortos em suas esperanças, passaram a dar vida àquele que havia morrido, daí a razão do título: “Pela lua, hoje o nosso filhinho viria ao mundo”, “hoje Joaquinzinho faria oito dias”, “como seria lindo e perfeito”.
Observamos que na mudança do tempo verbal para o futuro do pretérito indica um fato hipotético, fruto apenas do imaginário doentio do casal. Na onisciência interpretativa, insiste a voz narradora: “E assim continua.”
De forma sequencial no desenlace, a voz narrativa vai desfiando os inúmeros problemas que passariam os pais, estivessem com o filho vivo, mas que agiam de uma forma ilusória: o surgimento de crupe na cidade, os estudos, a ida para a guerra, o festejo com o fim da guerra, o casamento.
Era a falsa alegria, a mentira em que passaram a viver, pois segundo José Fernandes, “a angústia do ser provém da absoluta impossibilidade”. E na impossibilidade carnal do filho, construíram “um filho idealizado” e presentificado nas emoções que qualquer casal teria com uma família completa.
Percebemos que a mentira permeou toda a existência do casal desiludido. Tão fortemente impregnada no inconsciente de ambos, ela passou a constituir uma verdade, tornou-se realidade.
Era alimento, vida, alento, força para viver. Dar vida ao que não nasceu era a única forma de também continuarem vivos. Era uma falsidade que dependia, como qualquer mentira, de esconderijos, dissimulações e aparências. Quando a cruel verdade poderia aflorar, fugiam, tal qual ocorreu quando dona Maria enviou roupas pelo correio ao “filho pracinha de guerra”. Indagada pelo agente telegráfico ela “não deu tempo, saindo apressada”. Toda e qualquer explicação esbarraria na prova concreta da verdade.
A unidade de tempo nesse conto de Ada Curado é deveras importante. Aparece como forma de síntese dramática, envolvendo o passado do casal numa ideia de sequência: “Naquele dia”, “lá foram os dois”, “ia pelo sétimo mês”, “os dias foram passando”, “Joaquinzinho fez dois, três anos”, “Joaquinzinho cresceu”, “quando o Brasil declarou guerra”, “quando terminou a guerra”.
Mesmo no tempo do sonho e do devaneio do casal, percebemos que na realidade o tempo passou e no último parágrafo a voz narrativa presentifica os fatos, mostrando também perspectiva de futuro na chegado do “netinho”: “Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra… Espera já o terceiro filhinho…” (pág. 39)
No tocante ao tom, o conto obedece a uma estrutura harmoniosa, com o mesmo e único objetivo, um sentimento condutor que delineia a trama, chegando ao desenlace esperado pelas ações de personagens planas e estáticas, já que o casal, após o sonho perdido, continua se iludindo, não havendo uma mudança de postura, ao contrário, um acordo velado em continuar cada um, sua vida de máscara e devaneios. É um conto que segue a linha psicológica, analisando atitudes humanas diante do indevassável ou do inexorável da perda.
Mesmo sendo personagens estáticas, no conto analisado percebemos a força interior do casal para continuar resistindo ao fatalismo da verdade. Viviam eles “angústias metafísicas oriundas do invólucro da miséria e limitações que impõe o estar no mundo”, segundo a visão de Heidegger.
Ada Curado foi uma contista por excelência. Mesmo escrevendo dois romances, uma peça de teatro e um livro de poemas, destacou-se mesmo foi com narrativa curta, a qual mereceu crítica positiva no Jornal das Letras do Rio de Janeiro em 1966: “Uma escritora atenta às exigências da narrativa elaborada em linguagem liberta das formas gastas.”
Figurões reúne vários contos e desse trabalho destacamos o conto “Cré com cré, lé com lé”, em que Ada Curado estuda, de forma profunda, o comportamento humano diante das adversidades da vida, mostrando, principalmente na mulher, a complexidade do sofrimento e das intempéries de circunstâncias advindas da miséria material e moral. A voz narrativa inicia o conto, mostrando uma cena de forte impacto para a personagem, sobre a sexualidade do amante em relação à inocência de sua filha: “O pisado leve não era malicioso. Era de natureza e, isso, levou-a a surpreender o amasio com a mão no sexo, incendiado de desejo a fitar as pernas bonitas de sua filha, que muito à vontade, dormia no banco de madeira da salinha. Sutilmente, como havia chegado à porta do rancho, recuou e, somente após conseguir controlar a indignação de que se achou tomada, avançou novamente, limpando a garganta para anunciar-se. Pelo vão da porta enxergou o bicho mau dando largos passos no rumo do quarto.” (pág. 25).
A situação exposta mostra um fato deveras comum nas comunidades de baixa renda, embora esse fato tenha a ver mais com a índole dos seres humanos, que à classe social, em que o homem, unindo-se a uma mulher já com filhas, passa mais tarde a assediá-las como se estas fossem sua propriedade. Cena grosseira, agressiva, mas de forte realidade, já que, tal fato, vemos cotidianamente estampado nos jornais em páginas policiais.
O conto nos mostra, ainda, a situação de desequilíbrio vivido pela mulher e seu amásio, os conflitos e a violência dentro de casa: “A modo de que a fuça tá amarrada? De cabeça baixa, respondeu: – Tô cansada. Das quatro da manhã até est’ora plantando café, debaixo daquele sol quente que não é brincadeira! E encarando-o com ódio, indagou: – E ocê? Que qui ta fazendo aqui em casa nest’ora da tarde? – Não é de sua conta. – Por que não? Não é eu quem sustenta a casa? Vai caçá serviço, anda! Fez um gesto feio, respondeu enfezado: – Vai pros diabo, mulher! – e dando largos passos, foi saindo.” (pág. 25).
Evidencia-se uma situação de conflito entre o casal desajustado economicamente e moralmente. Não há respeito no diálogo e o homem parece ser apenas um vagabundo, desempregado. Cria-se, na personagem, um verdadeiro dilema: “Sentou-se no banco segurando a cabeça e dizendo-se: – Agora mais essa!… Vagabundo, bêbado, mau, bruto, por cima disso tudo mais essa! Era só o que faltava, Santa Bárbara! O desgraçado de olho na menina. Agora entendia por que não ia embora por mais que tocava! Cachorro!” (pág. 25)
Observamos em relação ao primeiro conto analisado da obra de estreia de Ada Curado uma evolução significativa. Nesse seu último trabalho nota-se uma preocupação social inserida como marca de denúncia contra a miséria e opressão da mulher. A narrativa está centrada num conflito grotesco e violento, sendo por isso os personagens mais esféricos, já que a personagem mudará bruscamente sua maneira de pensar e agir, chegando às raias da loucura e do desajuste social.
Perspicaz e intuitiva, a voz narrativa vai tecendo filigranas de variados aspectos que vão somando-se ao enredo formando um interessante jogo, caracterizando a verdadeira obra de arte.
A personagem do conto vai, portanto, como mulher prática e decidida, tomar resoluções lógicas, levando a filha para a casa de uma comadre, a fim de que possa arquitetar o seu plano maquiavélico. Mas, assustada e indignada, acaba descobrindo que o padrinho também assediava a filha.
Trabalhando com o inesperado, a autora vai relevando descobertas desagradáveis da protagonista, insuflando assim, cada vez mais, o seu plano de vingança. Ada Curado narra de forma instigante, evidenciando sua preocupação com o estado psicológico da personagem. Segundo Nunes (1986, pág. 155), “narrar é narrar-se: tentativa apaixonada para chegar ao esvaziamento do eu sem máscara, tendo como horizonte a identificação entre o ser e o dizer, entre o signo escrito e a vivência da coisa indizível e silenciosa”.
E, nesse “silêncio do indizível”, a narradora destaca, com requinte descritivo, a vingança da personagem, evidenciando o clímax da narrativa: “Uma coruja emitiu seu canto agourento! Um galo cantou sentido. Um arrepio navegou pelo seu corpo. Benzeu-se e rebenzeu-se. Calculou que devia ser pra mais de duas horas da madrugada. Assuntou e percebeu que o amasio vinha chegando. Com pouco, junto à porta ele tossiu, arrotou, cuspiu, urinou e cambaleando, adentrou à casa e seguiu no rumo do quarto. Não percebeu-a acocorada junto do fogo. Aguardou algum tempo. Coração num baticum feio! Quando percebeu que ele dormia, pôs-se de pé e com a mão firme agarrou o rabo da rabinha pousada na chapa. Entrou no quarto, aproximou-se do homem e sem tremer, ou pestanejar, despejou dentro de seu ouvido o estanho fervente, que desceu fazendo chi… causando arrepios. Deu dois passos para trás e esperou um pouco. Quando percebeu que havia parado de respirar, reaproximou-se a auscultar-lhe o coração, o pulso. Sorriu. Abriu o baú de lata amassada e ali de dentro pegou um lenço grande. Passou-o por debaixo do queixo do defunto e amarrou no alto da cabeça para com isso ocultar qualquer vestígio de queimadura. Trazia isso na cuca, pensado e repensado.” (pág. 26)
Cena tétrica pelo próprio arranjo do ambiente lúgubre com coruja agourenta, galo cantando sentido (o próprio galo bíblico anunciando traição), imagens insólitas de tensão constante, na firmeza da personagem criminosa, ciente de seu destino duro, tendo o crime como libertação daí a firmeza com que pegou a rabinha sem tremer ou pestanejar e com que despejou o estanho fervente.
O desenlace do conto sugere uma situação de alívio da personagem em relação à grande castração sofrida e dos temores do assédio à integridade da filha, desnudando, portanto, a inconsciência do próprio ato bárbaro: “Coou o café, bebeu com prazer dele e preparando o pito de palha acocorada junto do fogo, chupando-o, aguardou a chegada do dia. Assim que o sol se fez presente, muito aprontada e calma, dirigiu-se, primeiro, à casa da comadre que era mais próxima da sua, e, depois, à casa da comadre, onde a filha pegara pouso, a levar a notícia que sem mais nem menos, o Miguelão havia acabado…” (pág. 26)
A transgressão da personagem em relação aos valores da vida nos é apresentada pela autora como um ato banal, num cenário de gente bárbara e injustiçada, as atrocidades quase são recíprocas.
Nada de condenações, não há alteridade feminina negada, a personagem, desnudada à luz de seus instintos parece fazer o que qualquer um teria feito, na defesa dos seres ternamente amados e, ao mesmo tempo também vítimas de agressão.
Ada Curado apresenta personagens femininos atormentados pelos dissabores cotidianos, mulheres subjugadas por um determinismo histórico e biológico, assumindo responsabilidades extremas e pesados encargos. É a essência do discurso feminino no século XX, retratando a miséria em relação ao feminino.
Nesse conto também percebemos um tratamento importante das unidades de tempo e de espaço. Notamos que a exposição inicia-se na noite em que a mulher chega cansada do trabalho estafante, depara com a cena insólita e termina na noite seguinte em que friamente assassina o seu amante.
Há sempre um halo de noturno e de mistério, pois as descrições maiores são sempre da noite e, no clímax, mostram o escuro ao redor, apenas um claro da mulher no rabo do fogão, “incendiada de ódio” arquitetando a hora mais propícia para o ato frio do assassinato.
Para criar o clima de mistério e também de terror, a voz narrativa associa outros elementos também significativos na sua descrição produtora de efeitos reais pois, “não raro, as várias descrições se mesclam entre si, ou aparecem fundidas com outros recursos expressivos”, conforme destaca Massaud Moisés.
Assim, o conto feminino em Goiás iniciado em 1904 e consolidado em 1954, passou por evoluções constantes, sendo gênero da preferência feminina. Por meio dessa narrativa curta e incisiva, a mulher de Goiás mostrou o seu talento e determinação não só para discussões espiritualistas ou idealizadas, mas para a crítica social e histórica de seu tempo, lembrando a afirmação de Lucas (l982, p. l05): “O gênero conto constitui um dos que mais se adequaram às exigências da era moderna.”
Trata-se da narrativa que “acompanhou a evolução da imprensa e das publicações periódicas”. Na contística feminina goiana observamos a verdade de tal afirmação quando, na atualidade temos novos nomes de mulheres que se expressam em contos modernos como Augusta Faro Fleury de Mello que teve destaque nacional com seu livro de contos “A friagem”, além das publicações de Maria Helena Chein (As moças do sobrado verde, Joana e os três pecados e Do olhar e do querer), Célia Siqueira Arantes (Fios da memória e Chão livre) Maria Helena de Campos Borges (Quinquilharias), Leda Xavier de Almeida (Gente) e Judite Furtado Miranda (Desencantos e saudades).
Em seu livro de contos Figurões, Curado (1985, pág. 31), no conto “Sob o luar de março”, destaca a descrição de uma lua de rara beleza, na chapada do Corguinho, o cheiro peculiar da lobeira, a viagem seguindo solta, com as rédeas abertas ao animal por onde fosse: “A noite tá clara. Bonita! No céu liso, sem uma nuvem, além da luz, a lua transmitia tranquilidade. Após haver se despedido da noiva, plantou-se em cima da mula, dando ré a ela e ao pensamento: ‘Depois da chapada o Corguinho, depois do Corguinho a mata, depois da mata a outra chapada e, pronto; Dali à casa, um pulinho. Para descansar o corpo das lides de uma semana inteira de labuta bruta, nada como um banho no manso olhar da Toninha! Para ganhar um beijo daquela boca mimosa e sentir junto ao seu o calor daquele corpo que o efervescia, toda distancia era pouca. Melhor conseguir com os pais da menina uma abreviação para o enlace. Cada separação ia se tornando um martírio. No próximo encontro, procuraria acertar isso com os velhos.’” O cheiro da fruta lobeira somado ao do capim meloso iam embalsamando os gerais. O silencio, somado ao frescor da noite e ao embalo do passo macio do animal, iam convidando ao cochilo. Soltou as rédeas, deixando que por conta própria o quadrúpede seguisse.
Na mesma obra, no conto “A ponte do Chico”, Ada Curado descreve o Cerrado com as suas árvores esqueléticas, os animais como a seriema, as rolinhas, os sabiás, o carro de boi. Uma cena típica do povo goiano: “Árvores esqueléticas, eretas, inertes, sem movimentar uma folha. Seriemas dando risadas. O eco morrendo lentamente ali no baixo. Sabiás, em surdina, tocando suas flautas. Rolinhas dizendo que o fogo-apagou e os anús aconselhando: põe lenha… põe lenha… Amante da natureza, do silencio, dos pássaros, no momento em nada ia pondo sentido. Um gemido de carro de bois, tremureando no espaço, arrancou-o da inconsciência.”
Assim foi Ada Curado, a inteligência feminina a serviço da cultura. Muito alva, alta, magra, ativa e inteligente, viveu no seu belo sobrado no coração geográfico de Goiânia, em estado de graça com a poesia até que um dia se eternizou na pureza de seus versos e imagens.

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado é graduado em Letras e Linguística pela UFG, pós graduado em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG, escritor, professor e poeta, [email protected]

Comentários