Opinião

Almir Turisco de Araújo no caminho do centenário

Bento Fleury ,Especial para Opinião Pública

diario da manha

Almir Turisco de Araújo chega aos 99 anos de idade. Está no caminho seguro e florido para a totalidade de uma vida centenária que tão poucos alcançam nesse mundo. Viver cem anos com saúde não é para qualquer pessoa. Almir Turisco obteve essa graça pelo seu imensurável merecimento, nas bênçãos da Divina Misericórdia.

Ele, na veneranda altura de seu centenário, representa, nas contradições e desacertos políticos desse nosso mundo atual, a autêntica liderança que jamais usurpou o dinheiro público com deslealdade, pois, a exemplo de outros de seu tempo como Venerando de Freitas, Ana Braga, Julieta Fleury, Ursulino Leão, José Luciano da Fonseca, Hélio de Britto e outros, não enriqueceu ilicitamente ao ocupar uma função pública; vivendo de cabeça erguida na mais completa dignidade.

Vive com o que ganhou e, confiante, segue para o centenário.

Ele veio do alto sertão da Bahia, na perdida cidade de Macaúbas naquele tempo, bem próxima da Chapada Diamantina, perto das minas de prata de Moribeca, decantadas pelo gênio literário José de Alencar e onde, ainda hoje, se extrai a maior quantidade de chumbo do mundo. Foi nessa terra, outrora castigada e pobre, que, em 19 de julho de 1916, numa quarta feira, pelas quatro horas da madrugada, nasceu Almir Turisco de Araújo.

Rosa Turisco de Araújo, sua mãe, era filha de Vicente Antonio Turisco, imigrante italiano que aportou em Salvador em 1870 e de Maria Sophia do Rego Turisco. O nome “Turisco” vem da Calábria, na Itália. Rosa Turisco de Araújo foi casada com José Trajano de Araújo, também baiano, advogado provisionado, fazendeiro e comerciante em Macaúbas-BA. Ele faleceu em Jataí-GO no ano de 1934. Rosa Turisco passou a viver em Anicuns, onde faleceu em 1943.

Desse cadinho, veio ao mundo Almir Turisco de Araújo.

Nessa pequena cidade de Macaúbas, ele fez o curso primário e, aos 13 anos preparou-se para o Exame de Admissão na cidade de Caitité, mas, por falta de recursos, precisou retornar ao lar paterno para ajudar a cuidar da família. Em 1931, com a idade aumentada, passou a exercer a função de professor rural da Fazenda Bela Sombra, no município de Anchieta, antigamente denominado Bom Jesus do Rio das Contas, nomeado com parcos vencimentos, mas que eram úteis ao cuidado que necessitava dar aos pais e irmãs.

Já no ano seguinte, 1932, é nomeado porteiro zelador da Prefeitura Municipal de Anchieta, no período em que por lá era prefeito o padre Manuel Joaquim de Santana. Por convite desse mesmo padre, em vista de suas dificuldades, passou a residir na casa paroquial e ali dar prosseguimento a seus estudos.

Por convite de sua mãe, Rosa Turisco de Araújo, resolveu mudança para a próspera cidade de Jataí, no Estado de Goiás, onde já vivia seu irmão, Tancredo de Araújo, que era comandante das tropas revolucionárias da Revolução de 1932 e possuía bom relacionamento no oeste brasileiro, notadamente na região do Sudoeste, entre as cidades de Jataí, Mineiros e Rio Verde.

O primeiro trabalho de Almir Turisco de Araújo em Goiás foi como balconista do bar do irmão em Jataí. No ano de 1933 chegaram da Bahia o seu pai e as suas irmãs. Novamente a família estava reunida, mas por pouco tempo. No ano de 1934 faleceu seu pai e em busca de amparo à mãe e irmãs, partiu para os garimpos de Mato Grosso, nas decantadas minas de Guiratinga, esperando bamburrar. Também ali montou uma pensão familiar para ter alguma renda e foi nomeado, por seus conhecimentos, tesoureiro contador da Prefeitura Municipal de Guiratinga, na gestão do então prefeito Celso Lacerda de Azevedo. Chegou o Estado Novo e, com ele o prefeito foi deposto e, por conseguinte, também Almir Turisco de Araújo.

Nesse tempo, em 1937, faleceu seu irmão e grande amigo Tancredo de Araújo a serviço do Estado de Goiás. Foi um duro golpe para toda a família.

Sem outras possibilidades de recursos, Almir Turisco de Araújo seguiu para os garimpos de Poxoreu em busca de melhores dias, mas sem sucesso. Em 1939, foi para os garimpos de Paranaíba e o Tijuco, onde foi nomeado Inspetor de Quarteirão em Rochelândia. Mas, a Segunda Guerra Mundial havia irrompido e outras dificuldades vieram; somadas à grande violência que reinava nessa região.

Cansado de tantas lutas e decepções em lugares perigosos e ermos, com sua coragem e destemor, Almir Turisco de Araújo se dirigiu ao interventor federal dr. Pedro Ludovico Teixeira na solicitação de uma ajuda para que pudesse, em Goiás, ter condições seguras de cuidar da mãe e das irmãs que eram suas dependentes; lembrando as lutas de seu irmão Tancredo, que dera a vida em combate em favor de Goiás.

No ano de 1940 foi, então, nomeado por Venerando de Freitas Borges para sub-prefeito de Santo Antonio das Grimpas, hoje Hidrolândia. No ano seguinte foi removido para o mesmo cargo na cidade de Trindade e em 1942, exatamente no dia 19 de abril foi nomeado prefeito municipal de Anicuns, onde, de fato, deu provas de sua audácia, dinamismo e carisma, transformando em pouco tempo a pequena e histórica localidade.

No ano de 1942 casou-se em Trindade com a normalista, professora, pianista e escritora Ereny Fonseca de Araújo, natural de Itaberaí, filha de Benedito Garibaldi da Fonseca e Delmira de Faria Fonseca. Dessa união teve cinco filhos: Tancredo (falecido), Cristiana, Rosa, Edgard e Maria Sophia.

Ereny Fonseca foi a esposa ideal, carinhosa, meiga, fraterna e caridosa. Construiu um lar edificado em valores e medidas, traduzindo seus ideais de mulher de luta. Foi também telegrafista e professora e, mais tarde, funcionária da Assembleia Legislativa. Teve em sua cunhada Yaiá, uma companheira dedicada para ajudar na criação dos filhos.

Depois de idosa, dedicando-se ao piano, violão e literatura, publicou em 1997 um livro de memórias intitulado Histórias de uma vida. No seu centenário, compilamos ao lado de Rosa Maria Fonseca de Araújo, um livro biográfico, com o apoio do historiador dr. Antonio Cesar Caldas Pinheiro para eternizar seu legado de amor e de luz.

Em Anicuns, o casal passou a viver a florescência da vida.

A cidade de Anicuns surgiu ainda no século XVIII no caminho dos bandeirantes na busca por riquezas e divisas territoriais, na saga de Bartolomeu Bueno Filho, o alcunhado Anhanguera. Segundo narra a sua história, foi no pouso dos tropeiros e boiadeiros que houve o encontro entre os Bandeirantes e os índios da Tribo Guainicuns, da nação Tapajó, origem do local onde hoje se encontra a cidade.

O Distrito de Anicuns foi criado por Resolução Provincial 02 de 07 de junho de 1843 com subordinação administrativa a São Sebastião do Alemão. Foi somente em 07 de junho de 1911 é que passou à categoria de cidade, com o nome de Anicuns, alusão a um grande pássaro pré-histórico que, segundo a lenda, habitava a região, lenda inclusive que leva ao mito do “boi de ouro” como contam os antigos moradores.

Havia grandes e difíceis distâncias entre os povoados de São Sebastião do Alemão, Santa Luzia de Mário Mello e Anicuns, razão de muitas dificuldades de locomoção, atendimento à saúde e principalmente em caso de falecimento, surgindo assim cemitérios perdidos no alto sertão.

Imensuráveis distâncias impediam os moradores das grandes glebas de terras férteis da região a conduzirem condignamente os seus mortos até os cemitérios das povoações e pequenas cidades que ficavam léguas e léguas de distância uma das outras.

Outros documentos encontrados foram o “lançamento de imposto profissional de alambique e fumo, de Poções em 1933” com os nomes de Eduardo José Florentino, João Manoel Vieira (Fundoso), João Pedro Soares Fialho (Fundoso) e Justiniano Francisco Alves (Fundoso). Também, parecem no “Boletim de apuração das eleições em Anicuns” no ano de 1935 os nomes de eleitores de Poções daquele ano, sendo Herculino Gomes Arantes, Cosme Gomes de Azevedo, Elizena Gomes Xavier, João Cardoso Bueno, João Gomes Arantes, José Gomes dos Santos, Martinho Gomes de Azevedo, Marcolino Gomes da Silva e Timóteo Gomes Sardinha, evidenciando o pioneirismo da família Gomes e Arantes na região.

Aparecem também os documentos da “Escola Isolada do Fundoso”, em 1946, cuja professora foi Ana Ramos e os “Lançamentos de impostos da freguesia de Poções” em 29 de janeiro de 1947, feitos por Petrônio Francisco Cabral. Também destaca-se a nomeação em 23 de janeiro de 1947 de Lindolfo Ferreira de Oliveira para o cargo de subdelegado da Freguesia de Poções, nomeado pelo então prefeito municipal de Anicuns, Francisco Vieira da Paixão, que governou a cidade de 23 de novembro de 1946 a 30 de abril de 1947.

Desde os tempos da freguesia foram prefeitos de Anicuns os seguintes cidadãos que gerenciavam as decisões sociais, políticas e administrativas: Manoel Benedito de Oliveira, João Cardoso Bueno, Francisco Azeredo Coutinho, João Ferreira de Azevedo, Hermínio Alves de Castro, Antonio Quintino Xavier, Claudionor Mendes das Neves, Antonio Pereira Bahia, Felipe Antonio Chaud, Paulino Avelino Costa, Laudelino Batista Xavier, Almir Turisco de Araujo, Manoel Fernandes Teixeira, Zênio Correia, Benedito Ferreira Raizama, José Natal de Macedo, Ary Ribeiro Valadão, Laudelino Batista Xavier e Marat Abrantes, além de outros.

A profícua gestão de Almir Turisco de Araújo frente à Prefeitura de Anicuns foi inovadora em vários aspectos, principalmente no que concerne à estrutura administrativa da cidade. Construiu vários prédios; reformou outros tantos, melhorou o Grupo Escolar, definiu caminhos à autonomia administrativa da cidade, buscando torná-la financeiramente viável.

Também deu ênfase à Usina de Força e Luz pioneira da cidade, construiu o edifício do Fórum local e criou a Escola Normal local e também fez intensa propaganda da fertilidade das terras da região, o que muito motivou a vida de investidores de pequenas fábricas e também da agricultura. Cuidou das estradas para Palmeiras de Goiás, Mossâmedes e até a Cidade de Goiás, assim como para os patrimônios de Poções (Turvânia) e Nazário, assim como Ruibarbo (Claudinápolis).

Com o fim do Estado Novo, cai a política de Pedro Ludovico e Almir Turisco assume o cargo de inspetor de Rendas no governo do general Felipe Xavier de Barros e no governo de Jerônimo Coimbra Bueno perde o cargo por questões políticas, tempo em que não esmorece e adquire a Fazenda Santa Fé e monta uma empresa rural com engenho e alambique, passando a fabricar a conhecida cachaça “Dona Boa”, assim como rapadura, manuê e açúcar mascavo, largamente conhecidos na região. Também funda em Anicuns uma casa comercial para auxiliar na despesa familiar muito grande.

Em 1951 Pedro Ludovico reassume o poder e Almir Turisco de Araújo é conduzido ao cargo de Fiscal de Rendas de toda a região do Mato Grosso Goiano, tornando-se conhecido e amado. Tal fato o leva a ser candidato a deputado estadual, eleito em 1954 e reconduzido ao cargo por seus méritos, por mais dois mandatos.

No ano de 1955 transfere-se para Goiânia com esposa, os cinco filhos e duas irmãs, passando a residir na Rua 04. Em 31 de janeiro de 1963 assumiu a presidência da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás num período de grande turbulência política. Em 30 de abril desse mesmo ano, assume o Governo do Estado de Goiás, ficando no cargo até 04 de junho do mesmo ano, por 35 dias, tal fato em razão do governador Mauro Borges estar em vilegiatura pela Ioguslávia, Israel, Japão e União Soviética.

Esse momento vivido por Almir Turisco de Araújo foi o mais turbulento no âmbito Federal, quando se coloca frontalmente contra o governo de João Goulart e com a expulsão de Mauro Borges e a instalação da Ditadura, posiciona-se ao lado de Pedro Ludovico e de seu partido, mesmo por prejuízo próprio para não trair seu partido; coisa tão rara hoje, com um verdadeiro pula-pula de candidatos por partidos, conforme a situação e em benefício próprio. Era o tempo da lealdade a todo custo, mesmo que viessem dias sombrios…

Coube a Almir Turisco de Araújo a espinhosa missão conferida a ele pelo general Meira Mattos de estabelecer as negociações com o PSD ao visar o afastamento definitivo de Mauro Borges sem derramamento de sangue, certo é que a Revolução não consentiria o seu retorno após a intervenção. Almir Turisco com diplomacia executa esta dificílima missão de polo de ligação entre as bancadas estadual e federal e o chefe do partido de um lado e do outro o Interventor, representando aquela mesma revolução.

almir

Como um grande homem de bem e de paz, conseguiu ele o seu intento, embora todos os entraves da época.

Com o término da difícil missão ocorre em 08 de janeiro de 1965 a eleição por um ano para completar o mandato de Mauro Borges do novo governador do Estado. Almir Turisco é eleito vice-governador na chapa do Marechal Ribas, exercendo essa função até 31 de janeiro de 1966. Tenta eleição para Deputado Federal, mas não se elege, apesar do número expressivo e redondo de 13 mil votos. Fica como segundo suplente e passa a dedicar-se às funções particulares em sua fazenda Santa Fé em Anicuns.

Construiu em 1952 pelo Ipase, com prestações de 15 anos, a sua casa residencial, um belo sobradinho na Rua 19 no centro de Goiânia onde até hoje reside. Pagou por muitos anos essa casa, como prova de honestidade dos políticos daquele tempo.

Nessa época, representou Goiás em vários congressos e seminários pelo País. Na Assembleia Legislativa de Goiás assumiu postos além da Presidência como primeiro secretário (1955), vice-presidente (1960), líder da bancada (1967), presidente da Comissão de Finanças (1961), presidente da Comissão de Redação (1964-1966).

Como deputado estadual aprovou diversas melhorias para Goiás, notadamente para a região do Mato Grosso goiano como a emancipação de cidades como Avelinópolis, Turvânia, Maiporá, Novo Brasil e Jussara. A criação de ginásios em Trindade, Corumbaíba, Nazário, Fazenda Nova, Aurilândia e Anicuns. A criação de grupos escolares em dezenas de cidades, assim como emendas na área da agricultura e pecuária, notabilizando a valorização de nosso gado e de nossas riquezas em grãos.

Na Celg também deu provas de sua sabedoria e gestão, conduzindo com lealdade e honestidade as suas funções.

E assim passou sua vida. Envelheceu, enviuvou, mas não perdeu o brilho próprio. Vive bem em sua casa, acolhido pelo amor dos filhos e netos. Tem relativa saúde para 99 anos. Passeia, visita amigos; é visitado. Tem voz forte e possante como nos tempos dos palanques, ao certo. Fala em Deus sempre e sorri para todos.

Seu maior exemplo é de que a vida é uma luta. Lutou ele com todas as forças para sobreviver num tempo de dificuldades. Venceu e continua entre nós como prova cabal de que a vida é um presente. 99 anos mostram que, agora para o centenário, são necessários apenas mais alguns passos. Deus o ilumine!

anicuns

(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado. Graduado em Literatura e Linguística pela UFG. Pós-graduado em Literatura Comparada pela UFG. Mestre em Literatura e Linguística pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutor em Geografia pela UFG. [email protected])

Comentários

Mais de Opinião

27 de outubro de 2018 as 21:44

A estratégia de Pedro

27 de outubro de 2018 as 21:18

Bom dia, Brasil

26 de outubro de 2018 as 21:35

As propostas de Bolsonaro

26 de outubro de 2018 as 21:34

Ensaio sobre a criação do espaço

26 de outubro de 2018 as 21:33

Um amor de Goiânia

26 de outubro de 2018 as 21:32

Brasil e totalitarismo

26 de outubro de 2018 as 21:07

Esses corregedores do CNJ são uma piada

26 de outubro de 2018 as 21:00

O voo do DM

26 de outubro de 2018 as 20:57

Casos de câncer de mama sobem no País

26 de outubro de 2018 as 20:53

O Brasil pede socorro à CNBB!

26 de outubro de 2018 as 20:49

O direito de sonhar

26 de outubro de 2018 as 20:47

O STF legisla demais