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O dia em que o heavy metal nasceu: conheça uma a uma as faixas do Black Sabbath

Reportagem mostra o começo do heavy metal a partir do clássico álbum "Black Sabbath", lançado no dia 13 de fevereiro de 1970. Entenda o que é o estilo que segue mais vivo do que nunca

diario da manha

Há exatos 50 anos nascia o heavy metal com um disco seminal na história da música ocidental: “Black Sabbath”.

Quando foi lançado, em 13 de fevereiro de 1970, o disco não tinha a pretensão de ser o que é. Representava mais a insatisfação de uma juventude cansada do discurso flower power, da diretriz hippie de que é preciso dar amor para ter paz.  

O heavy metal é uma linha divisória do hard rock, que já ecoava em Deep Purple e Led Zeppelin após Beatles terem construído o riff montanha russa de “Helter Skelter”.

Diferente destas bandas, não existiam mais dúvidas: o novo estilo era mais pesado, mais sombrio, mais veloz e mais complexo.  Era, sobretudo, Black Sabbath.

E dele surgiram temáticas, inspirações e ecos de Megadeth, Metallica, Iron Maiden, Sepultura, Judas Priest, Slayer, Kiss, dentre outras superbandas.  

Ao se reunirem para tocar dois anos antes, os músicos operários Tony Lommi, Bill Ward, Ozzy Orbourne e Geezer Butler estavam interessados em expressar tudo o que a geração passada não mais conseguia. Ainda sim tentaram prestar contas com o passado. A banda se chamava Earth e devia sua fama em Birminghan por tocar covers de Jimi Hendrix, Beatles e Cream.

Ocorre que os clubes estavam tomados por hippies que bebiam muito e falavam alto. Desprezada, a Earth procurou outro caminho.

Geezer Butler veio com uma ideia: escrever letras baseadas em terror. E sugeriu um novo nome: Black Sabbath, nome de um filme de terror italiano veiculado na televisão inglesa naqueles anos.

A musicalidade sofreu uma mudança: a distorção subiu três levels, tornando a guitarra mais pastosa e gordurenta. Para piorar, nos discos futuros, baixaram em um tom a afinação – já que no primeiro segue a usual.

As baquetas usadas por Ward eram mais grossas também, o que dava uma sonoridade “gorda”.  O baixo de Butler, por sua vez, tornou-se cru e caminhante, com grande gama de passagens semelhantes aos acordes de guitarra. Ficou pesado (heavy).

Depois de “Black Sabbath” o rock jamais seria o mesmo. Primeiro, por perder toda a ingenuidade que existia até então.

 Moinho de Mapledurham Watermill, local que inspirou a capa macabra do primeiro disco do Black Sabbath

Ao flertar com demonismo e satanismo, inicialmente apenas uma estética adaptada por Butler para comunicar que estavam cansados dos hippies, o Sabbath reinventou a rebeldia, agora com o flerte do macabro e misticismo.  Os religiosos ficaram assustados com o heavy metal, mas jamais questionaram os filmes de terror.

ESCOLA

O disco é uma escola musical. Começa com a faixa título, que é gravada em sol maior. 

De imediato o primeiro riff, do primeiro disco, traz um trítono, que na Idade Média era chamado de “Diabo na Música” (Diabolous in Musica). O intervalo sol-dó sustenido trazia exatamente o efeito a ser evitado, pois se temia que a aquela junção de notas chamava o diabo.

Outros pesquisadores reduzem o drama em torno do trítono: seria do “diabo” por conta da dificuldade de se reproduzir na voz.

A letra é macabra: “O que é isso que se levanta a minha frente?/ Um vulto preto que aponta para mim/ Viro rapidamente, e começo a correr/ Descobri que eu sou o escolhido/ Oh não!”.

Nos dias de hoje, a letra é cômica de tão cinematográfica: “Uma grande figura negra com olhos de fogo/ Dizendo às pessoas seus desejos/ Satã está sentado lá, ele está sorrindo/ Observem aquelas chamas crescendo cada vez mais/ Oh não, não, por favor Deus me ajude!”.

Em seguida Ozzy emenda o lamento: “Esse é o fim, meu amigo?/ Satã está vindo lá na curva/ As pessoas correm pois elas estão assustadas/ Pessoal, é melhor correr e tomar cuidado!/ Não, não, por favor, não!”.

Na música cantada por Ozzy, o que se sente nos primeiros minutos é um abandono completo, quase visceral, em que a música surge em meio ao silêncio assustador. A metáfora é de um barco a deriva, depois surpreendido por uma tempestade.

Primeiro heavy metal da história: música fala de satanás, sob a ótica de um protagonista de filme de terror

Ozzy não faz o trítono na voz, mas a guitarra martela aquele riff como se fosse uma goteira em nossas cabeças. Chega a doer.    

A segunda faixa, “Wizard”, tem dez minutos e lembra os doze compassos do blues em algumas passagens, mas como na faixa que abre o LP também segue um léxico próprio. 

No meio, uma seção de guitarra bluesy repleta de passagens nas pentatônicas entregam a fonte original da banda inglesa. 

Ao fim desta passagem, com uma nota pedal, ele realiza uma frase erudita que logo em seguida incorpora o retorno da mesma base que sustenta o início da música.

Canção “Warning”, um dos clássicos do disco que completa 50 anos

Isso sem antes a guitarra imitar um avião, um zumbido de abelha ou um ataque armamentista.  A letra é sobre o amor, mas em uma crueza nunca antes vista: “Agora o mundo todo está se movendo/ porque há ferro no meu coração. Eu não posso simplesmente parar de chorar porque você disse que temos que se separar. A tristeza se agarra à minha voz enquanto eu permaneço aqui, sozinho”.

“Behind the Wall of Sleep” traz um dos enigmas a ser estudado do heavy metal: a mudança de andamentos sem perder integridade. A música tem quatro fases. Começa como um hard rock estilo Deep Purple (parte no acorde de si  maior), depois cai em um movimento mais próximo da originalidade (é Sabbath puro) e emenda para outro, com um típico jogo de notas altas e baixas. Por fim, surge o solo com grande fluência do blues. A letra não é agradável para a época: “Sinta seu espírito levantar-se com o padre/ Sinta seu corpo caindo aos seus joelhos/ Dê sua caminhada de remorso/ Leve seu corpo a um cadáver/ Leve seu corpo a um cadáver/ Leve seu corpo a um cadáver/ Se você quer todo o remorso/Leve seu corpo a um cadáver”.

O próximo petardo é “NIB”, estranhamente sobre “amor” carnal. O sujeito da música propõe que a protagonista da narrativa venha com ele. Mas ele é…Lúcifer. “Agora tenho você comigo, sob meu controle/ Nosso amor se fortalece a cada hora/ Olhe em meus olhos, você verá quem eu sou/Meu nome é Lúcifer, por favor, segure minha mão”. Chega a ser assustador, como bem queria Geezer Butler ao cogitar imitar o cinema terror.

NIB interpretada pelo Black Sabbath em um dos seus últimos momentos juntos, no início da década: música fala de lúcifer e ‘arrepiava’ jovens e irritava religiosos

A musicalidade da faixa é um riffão antecedido pelo baixo poderoso de Butler. Powers chords seguem ao chamado. Um interlúdio lindo é intercalado com as sequências E5-D5-F#5 fecha a obra de arte. Tornou-se clichê no metal a sequência ré-dó-si antecedida por uma pausa. Isto que é invenção copiada.

Na sequência, um Black Sabbath retributivo faz covers.

Entrega uma bela releitura de “Evil Woman” (Crow) e “Warning” (Aynsley Dubar e Retaliation). Ela retira os metais de “Evil Woman” e torna a segunda menos psicodélica.

WARNING

Ao contrário, envenena “Warning”, com um baixo cavernoso. Mas respeita a estrutura e acordes de todas as músicas que resolveram cobrir. Em Warning, uma gaita anuncia o jeito Black Sabbath, sempre precedido de muito peso e vigor no conjunto de bumbo-caixa-chimbau.

O riff que sai do lá grave e corta até o dó, depois entremeado o sustenido de lá, assusta os ouvidos mais calmos.

Banda de garagem de Americana em São Paulo toca músicas do Sabbath do primeiro disco: onde existirem jovens, em qualquer lugar do mundo, existirá um flerte com a pegada musical do Black Sabbath

A música que vem antes dos covers é uma balada tenebrosa. Mas estranhamente “Sleeping Village” fala de paz: “Sol vermelho nascendo no céu/ Vilarejo adormecido, os galos cantam/ Brisa suave soprando nas árvores/Paz de espírito, sinta-se à vontade”.

Ela é que define todo o heavy metal com uma balada em tom menor melancólico. Não importa o que se escreve, a letra, o sentido, mas se na camada inferior existe uma base pesada, uma bateria veloz, o que sobra é a identificação de que algo não vai normal com o adolescente e jovem que escuta aquela canção.  Ainda bem.

Ele não se adapta fácil, não se submete, não se integra para fazer parte da maioria, não se comporta como massa. É um jovem muitas vezes íntegro, idealista, dedicado e cerimonioso em seu projeto de vida. Gosta de ler, se informar, aprender coisas.

Há 50 anos este jovem procura algo para escutar assim: que o torne diferente e não igual a massa.   Se escolhe o diabo, definitivamente não é por odiar Deus. Mas por não suportar as hipocrisias daqueles que se dizem filhos de Deus. Se cantarola um heavy metal ou faz um solo imaginário, entra em transe pela sensibilidade e verdadeiro amor ao rock and roll. Não é à toa que se fala aqui de um disco que foi lançado há meio século.

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