Cultura

Jogo influente do Playstation, “Shadows of Colossus” completa 15 anos

Considerado obra prima da indústria de games, “Shadows of Colossus” reúne mundo aberto, confronto com gigantes e uma trilha sonora existencial

diario da manha

“Shadows of Colossus”, um dos games mais influentes da história, completa 15 anos em outubro deste ano. Lançado em 2005, o jogo japonês é uma revolução minimalista na indústria de games e que ainda hoje mostra sua força a partir das influências que tem deixado em outros produtos: lançado para Playstation 2, ele é, por exemplo, a principal influência de “Praey of Gods”, que chegará em 2021 para PS5.  

“Shadows of Colossus” é também jogado em PS3 e PS4.

Em poucas palavras o que simboliza jogar “Shadows of Colossus”? A emoção em sentir-se só no universo, diante da perspectiva do amor perdido e da missão de matar monstros gigantes para tê-lo de volta.

O game tem uma trilha sonora emocionante, uma coloração dessaturada/apaziguadora e o minimalismo da solidão em contraste com o que vivemos na vida real em um caos urbano e pandêmico.

Cumprir o gameplay é relativamente demorado, chegando a quase seis horas, mas um speedrunner já teria cumprido a missão com 36 minutos.

Em sua jogabilidade no Playstation 2, no próprio console, é preferível executá-lo no modelo mais antigo, o fat/tijolão. É possível jogá-lo no computador através de emuladores, que apresentam alguns bugs, que não comprometem o ato de “sentir” o que a equipe de desenvolvedores, Time da Ico, nos deseja proporcionar.     

Dirigido por Fumito Ueda, mito do game cult que nos entregou “Ico” (2001) e “The Last Guardian” (2015), “Shadows of Colossus” tem um enredo simples: o jovem Wander anda solitário pela terra com sua égua Agro. Sua missão: derrotar 16 criaturas. O que ele ganha fazendo isso? Poderá restaurar a vida da amada. Trata-se game do gênero aventura ação e resgata evidentemente as emoções outrora experenciadas por jogadores de Pitfall, Mario, Zelda, Crash e tantos outros: a sequência por fases, a batalha e o prêmio. Suas armas: espada e flecha.

Mas a beleza estrutural clássica é menos impactante do que a estética polissêmica: a música com temas orquestrais, a cor dessaturada que lembra quadrinhos se encontrando com o realismo e a lentidão das cenas longas de galope. Tudo isso leva ao movimento dos dedos mais reflexivos no controle e a interação característica desta arte, mas o que realmente impacta é entender: mesmo quão grande seja nosso desafio, ainda sim devemos encará-lo. E mais: passada a fase de entendimento do desafio não devemos subestimá-lo, pois é relativamente fácil matar o colosso, mas ainda sim ansiosos e afoitos morrem na missão.  

O jogador ao contemplar um dos colossos se desespera inicialmente diante do jogo de câmeras que transforma a criatura em algo tão imenso e intransponível que só nos resta declinar.  Não é um jogo de sangue, mas de estratégia, em que matar o gigante se parece como transpor os desafios tidos como impossíveis. Ao matá-lo, podemos sentir pelo menos duas emoções: pessoas mais sensíveis e menos agressivas tendem a ter pena do animal, flexionam seus pensamentos sobre a vida e existência, mas entendem que faz parte da narrativa aniquilar o “grande”. É algo bíblico, darwinismo social.

Pessoas mais agressivas matam sem dó e procuram agir o mais rápido para cumprir as fases, tendo como instinto a competitividade, que é inerente ao processo interativo proposto.

O jogo começa com Wander entrando com Agro na terra proibida, depois ele deixa a amada no altar e então parte através do mundo aberto em busca dos gigantes.

A música de Kō Ōtani se contrasta com o silêncio. Se desperta nas cutscenes e momentos de encontro com o colosso. Durante as travessias, impera o silêncio e a experiência do jogador faz voltar ao cérebro as camadas musicais, que misturam música tonal ocidental com o mimetismo melancólico da música japonesa – instrumentos japoneses como o shamisen. A música japonesa com uso de escalas pentatônicas geram estado de relaxamento, meditação e reflexão.  

Esta experiência de enfrentar o gigante segue pela jornada, cuja emoção repete outras já sentidas na indústria cinematográfica, como no clássico “King Kong” – que na mesma época virou também um jogo.

“Shadows of Colossus” é uma imersão existencial que nos desacelera e impacta nossas emoções. Apesar da violência contida, sugiro o jogo aos maiores de 10 anos tendo a perspectiva da missão e de nos purificar diante da idade mídia, em que estamos saturados de sons, barulhos e agressividades.     

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