Cultura

Lawrence Ferlinghetti, o último beatnik, morre aos 101 anos

Lawrence Ferlinghetti marcou contracultura ao publicar obra taxada como obscena de Allen Ginsberg

diario da manha
Ferlinghetti e Ginsberg no túmulo de Jack Kerouac em 28 de junho de 1988 - Foto: AP/ Reprodução/ San Francisco Chronicle

O poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, responsável por publicar Allen Ginsberg e marcar a história da literatura contracultural da costa oeste dos Estados Unidos, morreu na última segunda-feira (22) em decorrência de problemas pulmonares. A informação foi divulgada pelo documentarista e amigo do escritor, Starr Sutherland, que está trabalhando num documentário sobre City Lights Bookstore, lendária livraria de São Francisco e templo da Geração Beat. Ferlinghetti tinha 101 anos.  

Alto, esguio, barbudo e bonito, Ferlinghetti não era conhecido pelas bebedeiras, como Jack Kerouac, ou pelo delírio nudista de Allen Ginsberg, muito menos por conta do estilo de vida doidão de William Burroughs. Ele nadava todos os dias e se locomovia para trabalhar na City Lights de bicicleta. Era um dos sobreviventes: Kerouac morreu aos 47 anos, de cirrose, e Ginsberg e Burroughs em 1997, aos 70 e 83, respectivamente.

Um dos nomes que mais afrontaram o establishment norte-americano do período macartista, Lawrence Ferlinghetti representa os tempos de uma Califórnia que ousou apresentar ao mundo uma opção de literatura até então menosprezada pelo sistema judicial dos Estados Unidos, o mesmo que censurara Henry Miller anos antes. Ferlinghetti é um dos símbolos da contracultura e tudo o que veio a reboque: literatura beat, luta pelos direitos civis, movimento hippie, rock de protesto e veganismo. 

Em 1957, a City Lights editou “Uivo”, libertária obra de Allen Ginsberg que se rebelava contra os valores mais importantes para os Estados Unidos. Ferlinghetti chegou a ser preso por tê-la publicada, em um caso jurídico que se espalhou pelos EUA e se tornou referência na discussão sobre liberdade artística e expressão. O poeta foi solto a partir de uma decisão que citava a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos e livros como “Trópico de Câncer”, proibidos de circularem, puderam sair da mordaça.

Um dos pilares da contracultura dos anos 1960, o movimento beatnik surgiu de uma definição criada por Jack Kerouac durante uma entrevista. Obras como “On The Road”, de Kerouac, “Almoço Nu”, de William Burroughs, e “Uivo”, de Ginsberg, espalharam um estilo de vida livre, sem apego a bens materiais e em constante efervescência criativa e sexual. Entre os fãs, estão o jornalista gonzo Hunter S. Thompson e o cantor Bob Dylan. 

Mas Ferlinghetti também era um poeta respeitável e ficou conhecido por “A Coney Island Of The Mind”, coleção de poemas com a qual vendeu 1 milhão de exemplares nos EUA desde que a lançou pela primeira vez, em 1958. “Lawrence inspirou provavelmente centenas de milhares de pessoas a ler poesia. Leram sua poesia primeiro e depois passaram a ler mais poesia”, disse o poeta e ensaísta norte-americano Michael McClure, que chamava Ferlinghetti de mestre, ao jornal San Francisco Chronicle, em 2003.

Revelou ainda, em 1988, seu talento para a prosa em “O Amor Nos Tempos de Fúria”, romance emocionante e bonito em fluxo de consciência lançado no Brasil pela L&PM – é possível comprá-lo no site da editora. O enredo é ambientado em 1968, na Paris das insurreições dos estudantes da Sorbonne que ocuparam as ruas com protestos, discursos e pichações. 

Nascido em 1919, o principal responsável pelos beats – filho de um imigrante italiano e uma mãe de origem caribenha – teve sua trajetória marcada por desastres familiares: quando tinha cinco meses de vida, seu pai morreu em decorrência de um ataque cardíaco. Sem grana, a mãe lhe entregou a irmã que, também sofrendo de problemas financeiros, perdeu a guarda do garoto. Depois, já empregada na casa de gente rica, a tia o resgatou, mas em pouco tempo acabou sendo demitida do trabalho. O jovem, contudo, permaneceu. 

Formado em jornalismo, com mestrado em literatura pela Universidade de Columbia e doutorado na Sorbonne, Ferlinghetti frequentou a Redação da revista Time nos anos 1940. Na Segunda Guerra, foi intimado a comandar um submarino no Dia-D e, em seguida, esteve na batalha do Pacífico. Assim que findou a guerra, se estabeleceu em San Francisco, onde fez amizades com artistas e poetas, como Kenneth Rezroth, Robert Duncan e Gary Snyder, e foi fundamental para a poesia americana.   

Nos últimos anos, Lawrence Ferlinghetti se preparava para lançar um romance autobiográfico, em fluxo de consciência, sem ponto, subvertendo a linguagem e gramática, no qual conta sua trajetória e faz análises sobre a política americana das últimas décadas – tudo aparentemente sem sentido. Uma pena que tenhamos de esperar para o livro chegue ao Brasil.

Com Ferlinghetti, desaparece o último beatnik e o sonho de um mundo no qual as liberdades sexual, de embriaguez e criatividade não provoquem espanto se tornam um pouco mais distante. Mas fica o legado do mestre, e isso definitivamente não é pouco: Lawrence Ferlinghetti foi um dos intelectuais mais brilhantes do século 20. O mundo está mais triste.

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