Cultura

"É extremamente fecunda e diversa, como não pode deixar de ser neste país-continente"

Diário da Manhã – Quarenta e cinco anos após o lançamento de “26 Poetas Hoje”, a crítica literária Heloísa Buarque de Holanda compila poemas de poetas femininas da nova geração. Obra foi lançada em janeiro. Como é a cena da poesia produzida por mulheres hoje?

Fernanda Marra – É extremamente fecunda e diversa, como não pode deixar de ser neste país-continente. Ao falar sobre essas duas antologias, Heloísa aponta diferenças de comportamento e perspectivas das mulheres que estão escritas nos poemas de ontem e de hoje. Nos anos 1970, em meio à repressão e brutalidade do regime ditatorial, o foco da escrita consistia em revindicar a liberdade do corpo e abrir alas para indagar sobre isso de ser mulher, nascer mulher, tornar-se mulher. A escrita deste século não é a ocupação desse espaço cevado pelas gerações anteriores, mas a sua preservação. Cada uma que escreve está cingindo a abertura, sustentando esse lugar de onde é possível perguntar: “que é a mulher?”, “a mulher existe?”, “existo?”, “quando?”, “onde?”.Ao afirmar que toda mulher é uma poema,Nina Rizzi também está se referindo a isso. Isso também é o que faz da escrita um centro, uma perspectiva. Esta semana, Itamar Vieira Junior, autor do lindo romance Torto Arado, ao ser perguntado sobre a relação de sua obra com o regionalismo no Programa Roda Viva, comentou que cada autor é um centro e escreve desde seu centro. Acho que é algo muito importante de se escutar com atenção porque extrapola a discussão sobre literatura regional. Pensar o centro desde o lugar de onde a voz se levanta desloca as referências e no arranca da inércia.

DM – A antologia reúne versos que falam sobre representação identitária, sexo, amor, fúria, política e os delírios do Brasil atual. Qual é a principal característica da produção atual?

Marra – Qualquer tentativa de enumerar características do que estamos produzindo se aproximaria de propor uma unidade em torno de quem é a mulher, produzir uma identidade, sempre excludente, rotular. Esse é o modo como aprendemos a conhecer: apreendendo o objeto pelo logos, pelo esquartejamento analítico. O que as escritas de mulheres vêm nos ensinar tem a vercom encontrar um jeito de lidar com essa alteridade radical que não segmenta, nem adora critérios eletivos. A diversidade de vozes e das formas não é excludente, não faz conjunto.Penso na dança contemporânea, no corpo (de baile) que se reúne e desfaz em movimento. Isso me remete ao caráter performativo que passa pelo levante das vozes descentradas e faz com que sejam mantidos aqueles espaços abertos pela palavra, com a palavra. Nesse sentido, talvez a coragem de se expor e de se entregar possam ser pensadas como características.

DM – Como você define essa cena comandada por mulheres? Como é o panorama regional? Quais são as autoras que mais te agradam no âmbito estadual e nacional?

Marra – Penso que a cena é marcada pela indefinição e pelo movimento descentradoque acontece, sobretudo, nas redes. Sem comando, portanto. Outra imagem que me vem é a de uma cheia de rio,uma enchente que rompe a contenção. Essa força avassaladora que transborda não pode e não quer ser determinada. Acho corajosa e louvável a iniciativa de fazer antologias, sobretudo quando envolve um lapso histórico tão interessante para pensarmos as mudanças. Também creio que o uso da língua é sempre um ato responsável (no sentido ético de impor responsabilidades) e responsivo (no sentido de se ter de responder por, não se furtar a responder). Empregar um artigo definido no título de uma antologia – que sabemos perfeitamente envolver escolhas e recortes por inúmeras e insondáveis razões – determina. E tem algonessa determinação que aponta para o quanto ainda é preciso transbordar para fora do desígnio incidioso do conjunto, do pensamento falogocêntrico que insiste em fazer UM. Aescritaéum gesto de dizer e de fazer mundos.Penso que só começamos a supor e inventar as possibilidades de diálogo, as malhas que nos conectam umas às outras sem nos anularmos. De minha parte, o movimento só anima.

Marra – Quanto aos panoramas, posso dizer a partir de minha percepção – que é a de alguém escrevendo, lendo e respirando no fluxo das águas, e não a de uma pesquisadora da poesia brasileira contemporânea propriamente – que estamos nessa intenção de manter o espaço aberto por outras escritas, sejam elas atuais, ou de gerações anteriores.O que não significa que precisemos criar mitos e nos obrigar a identificações forçadas ligadas às nossas localizações geográficas. Acho que tem a ver com uma curiosidade que nos move a querer saber de outras escritas. Acabo de conhecer, por exemplo, a poesia linda de Maria Lúcia Alvim. Poeta mineira, de Araxá, que perdemos, este mês, para a covid-19. Era alguém que estava no do limbo e foi resgata recentemente pela editora Maíra Nassif, da Relicário, e pelos poetas e pesquisadores Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck, atentos e dispostos a dar visibilidade a poetas apagadas(os) pela história, pelos pares, pela crítica.

Em Goiás, a poeta e crítica Darcy França Denófrio foi responsável pela pesquisa e resgate do nome de Leodegária de Jesus, mulher negra e pioneira na publicação de poemas neste estado. Importa saber da escrita de Leodegária, conhecer sua história, o que não significa que precisemos sempre escrever referendando o que escreveu. Até porque, Leodegária e Cora Coralina foram mulheres que escreveram quando a geografia do Centro-Oeste e a condição da mulher eram, de fato, barreiras quase intransponíveis que elas, mesmo assim, ousaram perfurar. Como disse, a barragem está rompida, a internet nos trouxe a rede, atalhou distâncias, estamos descobrindo que podemos ampliar as referências e nos aproximar outras paisagens. Sinto que é preciso apertar o passo e essa urgência me leva a ler muitas mulheres contemporâneas, brasileiras, argentinas, portuguesas, não distinguo:comoAna Martins Marques, Prisca Agustoni, Inês Campos Duarte, Mônica de Aquino,Matilde Campilho, Jeanne Callegari, Natália Agra, Carla Diacov, Julia de Souza,Julia Bac, Julia Studart, Julia de Carvalho Hansen, Chantal Casteli, Ledusha Spinardi, Marília Garcia, Thaíse Monteiro, Beta Reis, Cida Pedrosa, Lu Menezes, Camila Assad, Micheliny Micheliny Verunschk, Cecília Pavón, Nina Rizzi, Dheyne de Souza, Adelaide Ivánova, Angélica Freitas, Yasmin Nigri, Lubi Prates, Natasha Félix, Viviane Nogueira e outras, muitas outras que não me ocorrem agora, ou que ainda não publicaram, ou que não li.  

DM -É recorrente no caso de nós, homens, elencar nossas referências literárias a partir de textos escritos por autores também homens. Em sua análise, por que ainda existe – sobretudo nas editoras que monopolizam o mercado, como a Cia das Letras – uma barreira que impede que conheçamos obras de Nina Rizzi ou Marcia Mura?

Como você mesmo traz, tem essa enorme questão do mercado editorial no Brasil. Pensar que um livro como é caso de Torto Arado (2019), do Itamar Vieira Júnior, que é um sucesso absoluto e foi consagrado pelos prêmios Leya, Oceanos e Jabuti atinge a marca de vendas de 60 mil livros em um país de mais de 200 milhões de habitantes é estarrecedor,no mínimo. Estamos falando de uma narrativa premiada, de um autor que alcança muita projeção. Isso nos confirma precipuamente que não somos um país de leitores e, até aí, não contamos nenhuma novidade. Quando falamos de poesia o cenário é ainda mais desolador. Há muita indisposição por parte do grande público quanto à leitura de poesia e sabemos que há responsabilidade na postura de escritores e críticos que acirrou e perpetua essa distância.

A despeito disso tudo, ressalto dois aspectos que relativizam um pouco a forma de enxergar o Brasil leitor e o mercado editorial. Primeiro, que estamos vivendo um momento muito prolífico e feliz em termos de iniciativas de pequenas editoras e da quantidade de autoras(es) publicadas(os) no país. Considero que essas editoras são mantidas por gente bravíssima e apaixonada pela arte. Aqui faço questão de citar algumas das casas editoriais que acompanho, a começar pela martelo casa editorial, do Miguel Jubé, que publicou meu livro de poemas taipografia(2019) e tem feito trabalhos primorosos de edição. Ainda no Centro-Oeste, temos a Nega Lilu, da Larissa Mundim, Goiânia Clandestina com Mazinho de Souza e agora conheço também a Oribê, em Brasília. Já mencionei a Relicário, de Minas, e há várias do Sudestecomo: Macondo, Jabuticaba, Patuá, Corsário-Satã, Todavia, Laranja Original, Quelônio, Ubu, Chão da Feira, Garupa, enfim, são as que me ocorrem no momento e que têm feito chegar até mim grande parte das leituras que tenho feito. Manter uma editora no Brasil é resultado de uma entrega e de uma aposta muito generosas porque não há, realmente, um volume portentoso de vendas. As tiragens são pequenas e os livros circulam em um circuito reduzido de pessoas, geralmente que escrevem e que leem umas às outras.

Passando ao segundo aspecto que quero mencionar acerca desse nosso desconhecimento de algumas obras, penso muito nisso de escrever, de querer ser lida e de que isso me convoca a ler, a conhecer o trabalho de outras pessoas porque a escrita não é algo estanque, por mais que se fale de um eu, esse eu é atravessado por uma língua que é outro, que vem do outro e que nos constitui. Compreendi, principalmente com as leituras de minha pesquisa no campo da literatura, filosofia e psicanálise, que escrever não é um ato isolado. Pode ser solitário, mas é, antes de tudo, diálogo e urdidura. Então, respondendo sua pergunta, se há monopólio do mercado editorial, há, por outro lado, esse movimento em direção ao outro, maior e mais exigente quando o centro é margem, que precisa acontecer de nossa parte também. 

Comentários