Cultura

Grand Hotel chega aos 84 sem o movimento de antes

Monumento chega aos 84 anos sem o movimento cultural que fez dele um dos mais queridos da cidade pelo público; DM conversou com pessoas que compartilharam momentos inesquecíveis no local

diario da manha
Famoso pelos eventos culturais do passado, prédio sofre com falta de movimento - Foto: Reprodução

Se Gay Talese (mestre do Novo Jornalismo) fosse redigir a abertura desta reportagem talvez ele optasse por um olhar inesperado: o Grande Hotel, em suas calçadas, abriga pessoas de diferentes tribos urbanas que convivem ali às sextas-feiras após o expediente curtindo um samba sem gastar um centavo. A não ser, lógico, a grana da cerveja vendida por ambulantes posicionados estrategicamente na Avenida Goiás. 

É importante lembrar, todavia, que eu não sou o jornalista americano e o Chorinho – que busquei evocar por meio da descrição feita no parágrafo acima – ficou gravado nas paredes da memória da população goianiense. O monumento está vazio. Solitário. Triste. Sem vida. Nem alma. Não há mais a algazarra dos bêbados. Tampouco os apaixonados.

“O primeiro hotel de Goiânia está abandonado e sucateado. Poderia ter várias ocupações como um museu do art déco ou mesmo abrigar a Secretaria de Cultura do município. Os grandes eventos que aconteceram no Grande Hotel ficaram no passado e na história”, lamenta o produtor cultural Gutto Lemes, ao DM.

O prédio, simbólico monumento em estilo art déco erguido no coração de Goiânia, já foi considerado o suprassumo dos bailes e reuniões de negócios que aconteciam nas primeiras décadas de vida da então nova capital do estado. Inaugurado em 1937, o local foi construído em três pavimentos de 60 quartos, além de quatro apartamentos de luxo, banheiros chiques, com água quente e fria. Seu restaurante, para os padrões da época, passou a ser ponto de encontro ao discreto charme da alta sociedade.

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Grand Hotel fez sucesso nos primeiros anos da formação da então nova capital – Foto: Reprodução/ IBGE

Segundo Lemes, as primeiras apresentações de chorinho são mais antigas do que se pensa. “Em 2002 na Casa Cor que ocupou o Grande Hotel, a arquiteta Eliane que coordena o evento me procurou pra atividades culturais de inauguração”, relata. Para animar a festa, ele contratou o grupo Alma Brasileira e o evento privado teve presença de jornalistas no estacionamento do Hotel. O público, lembra, ficou na entrada. “Com a Big Band do centro cultural do Gustavo Ritter que apresentaram oito peças.”

Localizado num ponto estratégico da capital goianiense, com fácil acesso para a Praça Cívica e vias importantes da cidade, como as avenidas Tocantins e Araguaia, ao longo dos anos o Grande Hotel foi se transformando em ponto de encontro entre jovens sedentos por novas experiências e amantes da cultura em geral: ali passou a rolar encontros e desencontros, amores e desamores, versos e prosas, poetas e músicos… Todo mundo junto e misturado pela pulsão de conversas libertárias.

“Já participei de muita coisa no Grande Hotel, mas uma vez muito legal foi quando eu descobri a produção de zines poéticos anarquistas goianos numa festa punk que teve na frente do Grande Hotel”, recorda-se a artista Maia, que frequentava assiduamente o local. Imagine a cena: ela, uma jovem loira, vestida como hippie, entre os punks, dançando. Inusitada, não? “Foi acho que em 2015 e foi muito incrível. Tem fotos disso, até. É uma lembrança da qual eu gosto muito”, revive ela, sorrindo. 

Aos 84 anos, completados durante a maior crise sanitária de nossa geração, o espaço precisa ser ocupado para que haja sua manutenção e valorização. É o que diz Lemes, comparando com a Antiga Estação Ferroviária da capital: “Hoje abriga um museu, galeria de arte e espaço de serviço que atende a população”. Em se tratando de um patrimônio tombado, prossegue o produtor, é necessária maior atenção por causa do valor histórico. “Falta vontade e o devido respeito ao acervo art déco goianiense.”

Balanço divulgado em dezembro pela Secult diz que 200 mil pessoas passaram pelo Chorinho, em 68 edições – Foto: Reprodução

Em balanço sobre a gestão da cultura divulgado no ano passado, a Secretaria Municipal de Cultura (Secult) estimou que o projeto Grande Hotel Vive o Choro, em 68 edições, contou com a participação de 120 grupos musicais e mais de 200 mil pessoas prestigiaram o evento. Segundo a diretora de políticas e projetos culturais, Marci Dornelas, o Chorinho conquistou um público cativo, de diferentes bairros da cidade.

“Realmente noites muito agradáveis, de boa música e na rua, a céu aberto, gratuitamente, para quem quiser chegar, curtir, cantar e dançar”, disse Dornelas, na ocasião. 

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