Cultura

O poeta do cotidiano

Escritor Rubem Braga marcou época no jornalismo brasileiro com textos que encontravam beleza no lado trivial do cotidiano

diario da manha
Rubem Braga - Foto: Reprodução

A prosa jornalística se transformou ao longo dos anos deixando de lado o lirismo pra dar lugar a textos informativos não raros redigidos numa linguagem desinteressante. Talvez dessa turma militante das palavras o nome mais atraente seja o de Rubem Braga, um especialista em encontrar beleza no lado trivial do cotidiano.

Em suas crônicas, Braga mergulhava no lirismo de um Rio de Janeiro que já deixou de existir. “Extraviei-me pela cidade na tarde de sábado, e então me deixei bobear um pouco pela Cinelândia. Foi certamente uma lembrança antiga que me fez sentar na Brasileira; e quando o garçom veio e me perguntou o que eu desejava, foi um rapaz de 15 anos que disse dentro de mim”, escreveu o cronista em maio de 1952 nas páginas do Correio da Manhã, tradicional periódico fundado por Edmundo Bittencourt, em 1902. 

Antes de ir morar numa cobertura na rua Barão da Torre, em Ipanema, Zona Sul do Rio, Braga foi um escriba que honrou a prática jornalística. Saiu de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, para viver em Niterói, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre e Recife, com idas e vindas à então capital da República. Como repórter, foi enviado para a Itália pra ser correspondente na II Guerra Mundial. Também passou por Paris, já em tempos de paz, Santiago, no Chile, e Rabat, no Marrocos.

Das andanças pelo mundo Braga batucou centenas de crônicas selecionadas para coletâneas, parte delas reunidas em “200 Crônicas Escolhidas”, obra lançada pela editora Record, que está em sua trigésima nona edição. Por causa de seu estilo despretensioso sobre coisas aparentemente desimportantes da vida, chamou atenção da crítica literária. “Parece que às vezes escrever crônicas obriga a uma certa comunhão”, atestou Antonio Cândido, no ensaio “A Vida aos Rés-do-Chão”. 

De fato, parece. Mas, vai além: se a crônica é “essa faculdade de dar sentido solene e alto às palavras de todo dia”, como o próprio Braga definiu o ofício de extrair poesia do cotidiano, ele exibia uma clareza e precisão herdadas dos tempos de repórter, numa sintaxe direta e desprovida de firulas. 

Acervo Rubem Braga - DocReader Web em 2020 | Rubem braga, Braga, Acervo
Crônica de Rubem Braga publicada no extinto Correio da Manhã – Foto: Reprodução/ Pinterest

“A crônica tem sofrido com essa nova configuração e esse novo modelo de se fazer notícia. Não apenas pela mídia impressa ter sofrido muito com todas as mudanças que a gente tem hoje em dia, as tecnologias, outro fluxo de informação, outra maneira de se enxergar essa construção da informação, então consequentemente a forma de se escrever crônica mudou. Lembro que quando eu era criança pegava um jornal impresso e o lia de cabo a rabo, me deparava com as crônicas muito facilmente ali”, afirma a escritora Júlia Moura, em entrevista ao Diário da Manhã. 

É bom ressaltar, contudo, que Braga produziu em um tempo no qual apenas o Rio tinha dez jornais diários: Clarice Lispector, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e Rachel de Queiroz arejavam o noticiário carregado com textos brilhantemente regidos sob a necessidade de falar do lado belo da vida, e hoje isso não faz tanto sentido assim. Pelo menos é o que diz Júlia.

“Hoje não tem mais essa coisa de folhear a mídia impressa, que a pessoa se deparava com a crônica. Se ela queria ler uma crônica, ela tinha que ir atrás. Aí são outros quinhentos. Então acho que, por uma questão de demanda, o jornalismo deixou a crônica de lado, além de a gente ter de competir com veículos de informação que se propagam muito rápido e de uma maneira totalmente descontrolada. Então a arte, a literatura e a cultura sempre vão ficando em terceiro plano”, afirma Júlia.  

Aos poucos, com a delimitação proposta pelos manuais de redação entre informação e opinião, a crônica foi saindo dos jornais, dando espaço para articulistas e suas teses sobre os fatos mais importantes. E o leitor, como consequência, perdeu o respiro entre uma notícia e outra. Não seria exagero, pois, afirmar que Sabino, Lispector, Drummond, Mendes Campos e Queiroz seriam taxados hoje como uma perda de tempo. 

Mesmo tendo se definido como “caçador de ventos e melancolias”, Rubem Braga figura entre os melhores cronistas brasileiros de todos os tempos, senão o melhor. “No fundo, a crônica de Rubem Braga é uma só – a narrativa da solidão; e os diversos textos que a compõem, produzidos em diferentes momentos, podem ser lidos como fragmentos de um mosaico, que retratam a multiplicidade do real mas convergem sempre para esse tema medular”, explicou o crítico Flávio Loureiro Chaves.

Tamanho era o compromisso braguiano com o nada que, sendo Rubem Braga sujeito de poucas palavras, evitava se meter em discussões literárias. Reza uma lenda contada pelo jornalista Humberto Werneck que uma vez, ao ser indagado para definir a crônica enquanto gênero literário, Braga se saiu com essa: “se não é aguda, é crônica”. 

Morto há 30 anos em decorrência de câncer, Braga é um alento para a prosa engessada do jornalismo brasileiro e suas estatísticas que não dizem nada com nada. Não deixemos que a velha crônica brasileira seja esquecida.

Para conhecer Rubem Braga

‘200 Crônicas Escolhidas’

Editora: Record

Preço: R$ 35,91 (na Amazon)

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