Cultura

Longa mistura história familiar com ditadura

Com menção Honrosa na última edição Festival É Tudo Verdade, documentário faz oposição ao revisionismo histórico ao retratar ditadura a partir de recorte familiar

diario da manha
Documentário ‘Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil’ aborda ditadura a partir de recorte pessoal - Foto: Ricardo Azoury/ Divulgação

A História é uma ciência nebulosa, e talvez por isso de tempos em tempos seja comum haver desastres em seu percurso: ditaduras se estabelecem com uma facilidade que é inexistente na hora de tirá-las do poder. No Brasil, por exemplo, os militares colocaram o Palácio do Planalto à disposição dos civis após negociarem uma abertura política que não lhes incriminassem ao mesmo tempo em que fingiam consentir com a anistia. 

Sem uma justiça de transição que efetivamente tenha punido torturadores e assassinos do período fardado, o País passou a assistir desde a eleição de Jair Bolsonaro a uma guerra de narrativas que colocou o legado do regime militar no centro do debate, e hoje não se deve falar mais sobre o passado, não se deve refletir sobre mais o passado, não se deve mais investigar o passado… Mas não falar é esquecer, não refletir é ser conivente com negacionistas e não investigar é deixar impune criminosos dos porões.

E foi a partir dessa necessidade que a diretora Carol Benjamin sentiu que deveria fazer o documentário “Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil”. Disponível gratuitamente no Globoplay até a próxima quinta-feira (19), o longa mostra a história de três gerações da família de Carol que foi atravessada pelo regime de exceção: seu avô era coronel do Exército, enquanto seu pai, César Benjamin, foi detido ilegalmente aos 17 anos, em 1971, e ficou numa cela solitária por três anos e meio, além de mais dois em prisão comum.  

A detenção e tortura do filho mais novo levou a dona de casa Iramaya Benjamin, avó da diretora, a se transformar numa militante incansável pela anistia. “Acho que tem uma história muito interessante e orgânica, porque não é um filme pautado em heróis”, diz a documentarista em entrevista ao Diário da Manhã. Por conta da pressão de Iramaya, o caso de César logo foi adotado pela Seção Sueca da Anistia Internacional, mas apenas em 1976 ele foi considerado “Prisioneiro da Consciência’. 

Trailer do documentário – Imagem: Reprodução

Sob forte pressão dos organismos internacionais, o governo brasileiro se viu obrigado a exilar o pai de Carol na Suécia, e por lá ele ficou durante dois anos. E no esforço de resgatar as memórias de sua família, “Fico Te Devendo” começa com imagens de Estocolmo numa narração em off sobre como o Brasil serviu de modelo para regimes sanguinários da América Latina – a exemplo do implantado por Augusto Pinochet, no Chile. “Ao longo do processo vi que falar sobre a ditadura era uma necessidade, tinha de colocar isso no filme”, recorda-se a diretora. 

Para o filme, Carol revela que chegou a estudar a Lei da Anistia, já que sempre tinha ouvido falar dela, mas nunca a compreendeu muito bem. “A Lei era um pacto de silenciamento do passado e acabou chegando até os dias de hoje”, explica. No país europeu, numa emocionante cena que integra o longa, a diretora se encontrou Marianne Eyre, membra da Anistia Internacional desde 1966, com quem sua avó se correspondia por meio de cartas e de quem ela acabou se tornando amiga e confidente. 

“Com muita sensibilidade, abrindo os porões de sua família, Carol investiga o silêncio que contaminou três gerações e todo um país. Precisamos da nossa memória para recontar nossa história e nos reconhecer. “Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil” é um exemplo corajoso de como devemos nos investigar para ir além e construir novas perspectivas de futuro”, afirma a atriz Leandra Leal, produtora do documentário. 

Narrado em primeira pessoa, “Fico Te Devendo” é um filme corajoso e dirigido de forma segura por Carol, lançando um olhar sensível sobre as masmorras do autoritarismo fardado. “Espero sinceramente que a história da minha família possa contribuir para a abertura de um diálogo mais empático em torno de um tema tão caro para todos nós, que é a manutenção do pacto democrático”, afirma Carol Benjamin.

O cinema, colhendo os frutos das políticas públicas implantadas na última década, cumpre o papel de mostrar nossas feridas. Ainda bem.

‘Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil’

Diretora: Carol Benjamin

Gênero: Documentário

Duração: 88 minutos

Disponível no Globoplay e para não assinantes do Canal Brasil

‘Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil’

Diretora: Carol Benjamin

Gênero: Documentário

Duração: 88 minutos

Disponível no Globoplay e para não assinantes do Canal Brasil

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