Cultura

"Estamos resistindo", diz cineasta torturada na ditadura

Lúcia Murat lança filme sobre artistas plásticas que lutaram contra ditaduras latino-americanas. Ex-presa política torturada pelo regime militar, ela diz que ‘é fundamental recuperarmos nossa história’

diario da manha
Atriz Stella Rabello e diretora Lúcia Murat em cena de ‘Ana. Sem Título’ - Foto: Divulgação/ Primeiro Plano

No documentário “Que Bom Te Ver Viva” (1989) e na ficção “Quase Dois Irmãos” (2004) a cineasta Lúcia Murat, de 71 anos, conseguiu desvendar a memória das atrocidades ocorridas nos porões durante a ditadura civil-militar, mostrando o vínculo entre o regime autoritário e a democracia. 

Agora, em 2020, a ex-presa política torturada durante os anos de chumbo mistura realidade e ficção em “Ana. Sem Título”, seu novo filme que fica em cartaz até o próximo dia 4 na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e cuja estreia mundial foi no Festival Internacional de Cinema de Moscou. 

Um road-movie, o longa usa artifícios narrativos dramáticos para discutir questões como o papel da mulher na sociedade, a realidade política da América Latina e a luta das artistas plásticas contra regimes autoritários estabelecidos no continente na segunda metade do século 20. 

O filme é protagonizado – além da própria diretora – pela atriz Stella Rabello e técnica de som Andressa Neves, única barrada num aeroporto mexicano por ser negra. “A ditadura, para a gente, nunca deixou de acontecer. Está aí até hoje”, afirma Andressa em uma das cenas mais emocionantes de “Ana. Sem Título”.  

Nascida no Rio de Janeiro em 1949, Lúcia Murat militou no movimento estudantil na década de 1960, sendo presa pela primeira vez durante congresso da UNE, em Ibiúna, São Paulo. Com a promulgação do AI-5, em 13 de dezembro do mesmo ano, ela entrou na clandestinidade, optando pela guerrilha. 

Em 1971, foi presa mais uma vez e sofrera torturas no Doi-Codi. 

Três anos depois, já solta, Murat começou a escrever textos para o Jornal do Brasil, bem como ao Opinião e Movimento – veículos da chamada imprensa nanica. No final da década, obteve imagens sobre a guerrilha na Nicarágua e produziu o documentário “Pequeno Exército Louco” (1984). 

Em entrevista por e-mail ao DM realizada na última terça-feira (27), a cineasta, cuja obra é marcada pelas suas experiências na ditadura, revela como nasceu a ideia de fazer “Ana. Sem Título” e diz que “é fundamental recuperarmos nossa história”.  

Diário da Manhã – O filme “Ana. Sem Título” retrata a história de artistas plásticas mulheres da América Latina por meio da ótica de Stella. Como nasceu a ideia de realizar uma produção com esse viés?

Lúcia Murat – O filme é livremente inspirado numa peça de teatro chamada “Há mais futuro que passado”. As cartas e a personagem Ana vieram dali. A partir dessa ideia original eu e a escritora Tatiana Salem Levy escrevemos um roteiro onde a ideia era fazer um road movie na América Latina mostrando algumas dessas artistas e procurando Ana.

Pouco antes de começarmos a filmar a Pinacoteca de SP apresentou a exposição Mulheres Radicais sobre artistas plásticas latino-americanas dos anos 70 e 80. E foi ali que iniciamos as filmagens. 

DM –  Chamou-me atenção na obra a viagem que Stella faz para países que viveram sob ditaduras civis-militares no século passado. Por que mostrar uma ferida e um desastre político que ainda está vivo na memória coletiva do continente?

Murat – Porque é fundamental recuperarmos a nossa memória e a nossa história, além de que essas artistas com quem estávamos trabalhando viveram basicamente em tempos de ditadura. Muito de suas artes eram reflexos e resistências desses tempos. 

Trailer do filme ‘Ana. Sem Título’ – Imagens/ Reprodução/ Youtube

DM – O centro do filme gira em torno de mulheres artistas. Em sua opinião, a arte é um antídoto contra regimes autoritários e tirânicos? 

Murat – Sim. Como pode ser visto no filme, a arte – das formas as mais diversas e sem nenhuma imposição – devem representar a liberdade e a autonomia, o que nenhuma ditadura suporta. 

DM – Na visão distorcida da realizada bradada por Jair Bolsonaro e outros líderes de extrema-direita é perceptível críticas ao movimento feminista. Como você analisa a luta das mulheres por direitos iguais numa sociedade que ainda não puniu seus torturadores da ditadura?

Murat – Acho que os movimentos identitários, o movimento feminista , o movimento negro e o movimento LGBT+ são fundamentais hoje e estão à frente da luta contra o conservadorismo, a estreiteza, o atraso  e a desigualdade. 

DM – O que te motivou a ir do sul do Brasil para a efervescente Buenos Aires atrás da história de Stella?

Murat – Nós – a equipe do filme – junto com Stella estávamos à procura dessas artistas incríveis, muitas delas injustamente esquecidas, e no caminho descobrimos Ana e resolvemos encontrá-la. 

DM – Em meio aos seguidos ataques às artes encampadas pelo governo Bolsonaro, como você vê a situação da produção artística e audiovisual?

Murat – Estamos vivendo uma situação muito difícil e o maior exemplo é o abandono da Cinemateca Brasileira, onde está guardada a memória audiovisual do País. Mas estamos resistindo, tentando impedir que a arte brasileira seja destruída.

‘Ana Sem. Título’

Onde: 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Como assistir: https://mostraplay.mostra.org/

Preço: R$ 6

Filme disponível até dia 4

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