Cultura

O vrau da Gal

"O vrau da Gal" crônica de Júlia Moura, publica às sextas no DM Revista

diario da manha
Foto: Reprodução

Danada e faceira estava na porta da minha casa como quem não quer nada. Um dia atrás tinha tomado uma antirrábica em uma tentativa frustrada de sequestro. Subia a rua devagar, quase um mês depois de Monet, meu gato e melhor amigo, resolver ser independente em seu caminho de libertinagem, traíra. Acontece que, o vazio do danado ficou e a conta em algum momento chegaria. 

Ela chegou em um dia despretensioso, de carência forte e audácia no peito; voltando, enquanto subia a rua, como quem não quer nada, encontrei um pequeno querido, peludinho e assustando “psi psi” veio na hora, carinho, aceitou, colinho, adorou. Conferi rapidamente para ter certeza que o bichano estava sozinho e desci saltitante para minha casa com meu novo amigo. Sabemos que os tempos atuais não estão os melhores e que decisões insensatas são o motor para a manutenção da saúde mental, eu posso tudo pra me manter viva, olha quem é o presidente desse país!

Agora que a justificativa está pronta, não há motivos para julgamentos, entrei em casa e o gato se assustou com o Chico, o seu quase novo companheiro de lar. Acontece que o susto provocou reações complicadas, traída pela segunda vez, recebi uma mordida terrível em minha mão, acompanhada de vários arranhões. Minha mãe acompanhando a festa como quem assiste um circo em chamas, perguntou-me pacientemente “onde você arrumou esse gato”, respondi calmamente “achei….”. 

Minha mãe pega o gato, atravessa a rua e se dirige a casa de Dona Fátima, idosa que divide os aconchegos do bairro com a minha família e informa “A Júlia roubou seu gato, vim trazer de volta”. Explosão, destruição, desmoronamento de reputação e tristeza LATENTE. Dona Fátima me acha uma sequestradora, tenho uma mordida de um gato não vacinado e a solidão da falta de um amiguinho felino. Mas nem tudo estava acabado, leitor. No dia seguinte, após uma sinfonia de miados, aparece a mais querida dentre as queridas, de mancha na cara, olhar penetrante e enérgica feito guaraná. Nem pensei duas vezes, coloquei a espertinha pra dentro e já corri para a mais próxima loja de pets, a mimei com o kit “fica comigo”, enchi de carinho, mostrei que ali ela teria um lar. 

Não demorou muito para que a deusa se acomodasse, tomasse conta da minha cama, rolasse em meu travesseiro, subisse em meus ombros e tocasse o terror na residência. Nem o pobre Chico escapou dos seus encantos e deboches, ela botava a banda pra tocar, tinha balanço e tinha malícia, era ela, era eu, era tipo Gal.

Divina e maravilhosa ela sacudiu as estruturas da minha casa como ninguém, se eu olho pra ela eu rosto entrega a paixão, quando põe teus cornos pra fora e acima da manada surge com sua magia de espírito marginal, o nome da danada é Gal.

“Quem dera a primavera da flor

Tivesse todo esse aroma de beleza que é o amor

Perfumando a natureza … Numa forma de bichana

Por quê tão linda assim não existe

A flor, nem mesmo a cor não existe

E o amor … Nem mesmo o amor existe”

Gal Costa – Meu nome é Gal

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