Cultura

Mostra de Cinema de Ouro Preto preserva memória do audiovisual brasileiro

Evento relembra ainda a efeméride da televisão no Brasil

diario da manha
Em Ouro Preto, Público assiste a sessão na edição passada do CineOP - Foto: Leo Lara/ Universo Produção

O cinema preserva a memória da sociedade. E emociona, impulsiona e impressiona. Com programação gratuita por causa da pandemia de coronavírus, a Mostra de Cinema de Ouro Preto (uma das mais tradicionais do País) reúne em sua programação 102 filmes, de 15 estados (com participações de produções goianas) e dois países (Brasil e Argentina) divididos em 33 sessões. As exibições, antes realizadas presencialmente na histórica cidade mineira, agora vão acontecer no site da mostra, mas mantendo o propósito que tornou o evento pioneiro: a preocupação em torno da memória do audiovisual, que está sob ataque desde 2018.

Em sua 15ª edição, o público do CineOP poderá desfrutar de três mostras com as temáticas Histórica, Preservação e Educação acompanhadas de uma grade de programação que inclui debates e análises, enriquecendo a experiência cinematográfica. Além dos já tradicionais filmes, o evento promove ainda o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, o Encontro da Educação: XII Fórum da Rede Kino, diálogos audiovisuais e rodas de conversas que terão a participação de 75 intelectuais e artistas em 24 debates. Também são ofertados, como é de praxe nos eventos da Universo Produção, oficinas, exposições e shows.

Cidade de Ouro Preto é o palco da mostra, mas mudou com a pandemia – Leo Lara/ Universo Produção

A abertura da mostra acontece nesta quinta-feira (3), às 20h, com os convidados Ailton Krenak (liderança indígena) e Tadeu Jungle (cineasta), que discutem questões em torno da temática “Cinema de Todas as Telas”. No centro da pauta do debate, estarão reflexões sobre a multiplicação dos streamings na era digital e os desafios laborais do cinema em conquistar um espaço cativo e efetivo na sociedade brasileira. Ainda na primeira noite será exibido o média-metragem experimental “Avesso, Festa Baile” (1983), de Jungle, documentário que retrata o programa Festa Baile, da TV Cultura, responsável por lançar um olhar diferente à cultura popular brasileira.

Com a efeméride das sete décadas da chegada da televisão ao Brasil, os curadores da Cine OP tiveram a sensibilidade de angariar discussões sobre como esse potente meio de comunicação transformou o audiovisual. E por isso que produções jornalísticas feitas num primeiro momento para consumo doméstico, como as grandes reportagens do “Globo Repórter” no final dos anos 70 e início dos 80, hoje ganharam o status de obras modernas e de vanguardas. É o caso dos documentários “Theodorico, o Imperador do Sertão”, (1978), de Eduardo Coutinho, e “Wilsinho Galiléia” (1978), filme dirigido pelo jornalista João Batista de Andrade, que estarão na mostra.

Cena do documentário ‘Wilsinho Galiléia’, de Eduardo Coutinho – Foto: Divulgação

Das inventividades que saíram do cocuruto rebelde dos jornalistas dos canais abertos, “Os Araras” (1980-1981) foi pensado para ser um documentário para a TV Bandeirantes, mas o diretor do filme, Andrea Tonacci, brigou com os manda-chuvas da família Saad, e a iniciativa deu para trás. O mais emblemático da Mostra Histórica, porém, é “TV Cubo 1 e 2” (1986 e 1987), de Marcelo Masagão, autor do livro “Rádios Livres – A Reforma Agrária do Ar”: o filme é a gravação de uma transmissão de TV pirata, que foi ao ar na zona Oeste de São Paulo, provocando interferências em sinais de emissoras como a TV Cultura e o SBT. Um ano antes, Masagão participou da rádio anarquista Xilique.

Mostra Contemporânea

Nas sessões do Cine Vila Rica, o filme “Cadê Edson”, de Dacia Ibiapina, fala sobre um ataque promovido pela Polícia Militar a uma ocupação em Brasília. Mas seu foco vai além: a produção preocupa-se em retratar como a chamada grande mídia trata (e pauta) esse tipo de fenômeno social, fruto de uma desigualdade latente da sociedade brasileira. Já “Seres, Coisas, Lugares”, de Suzana Macedo, tem como ponto de partida a literatura do escritor Guimarães Rosa, sobretudo o conto “O Recado do Morro”. Em “Os Olhos na Mata e o Gosto na Água”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, a trama gira em torno de um passado não muito distante no sul do País.

Mesmo que virtualmente, as tradicionais exibições na Praça Tiradentes, em Ouro Preto (MG), vão continuar – para alegria do público. Os organizadores preocuparam-se em manter o xodó Cine-Praça e nele filmes como “Dorivando Saravá – O Preto Que Virou Mar”, de Henrique Dantas, que fala sobre a vida e obra de Dorival Caymmi; além de “Banquete Coutinho”, de Josafá Veloso, retrato de um encontro com o mestre do documentário, Eduardo Coutinho, vão ser transmitidos. Além deles, também serão projetados na praça (ainda que no ambiente cibernético) “Helen”, com direção de André Meirelles Colazzo, obra que fala dos anseios juvenis.

Filme ‘Dorivando Saravá – O Preto Que Virou Mar’ – Foto: Divulgação

Ainda no Cine-Praça, o público será convidado a retornar a 1988, ano em que a Constituição Cidadã foi aprovada e assegurou direitos sociais e políticos. “As Constituintes de 88”, de Gregory Baltz, resgata imagens e imaginário daquele tempo da história do País para escancarar a luta para fazer com que as mulheres tivessem suas vozes ouvidas e conseguissem aprovar emendas importantes para a igualdade de gênero no Brasil.  Já “Dona Cila, Não Me Espere Para o Jantar”, de Carlos Segundo, foi feito no contexto da pandemia de coronavírus e reflete, a partir da ficção científica, sobre as penúrias do isolamento social.

De volta ao Cine Vila Rica, a filha do cineasta Rogério Sganzerla, Sinai, utiliza-se em “Extratos” de fotografias e documentos para reconstituir memórias audiovisuais de filmes e figuras relevantes do meio. Por fim, haverá oportunidade para curtir filmes de curta-metragem no Cine-Teatro, com abordagens de comunidades e culturas singulares representadas sob percepções diferentes, como “A Fome”, de Diego Benevides, obra que fala sobre as celebrações a São Lázaro; “Abdução”, dirigido por Marcelo Lin, que mostra a vida de um morador de uma comunidade em Belo Horizonte. Sem contar na Mostra Educação e Cine-Escola e Mostrinha. É muita coisa.

Serviço

15ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto 

Quando: 3 a 7 de setembro de 2020

Horário: às 20h (abertura)

Onde: https://cineop.com.br/

Gratuito

Cartaz do CineOP
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