Cultura

Galope

Galope, crônica de Júlia Moura. Publica às sextas no DM Revista

diario da manha
Foto: Representação das amazonas clássicas, presentes na mitologia. Domínio público/Reprodução

O som de galope me atrai, como inúmeros outros sons na língua portuguesa. Galope soa melhor feminino, como visivelmente é superior a montaria realizada por filhas de Ártemis. Destemidas em sua fúria indomável e movidas em essência pela enérgica brisa da Deusa, aquelas que também se alinham a amazonas levam pela mão tudo o que existe de mais selvático na terra.

Penso devagar na etimologia da denominação dessas guerreiras e não surpreendo, entre as lendas haver a provável e óbvia herança do gentílico iraniano *ha-mazan-, significaria originalmente “guerreiras”. Mas, exalando toda raiva de dentro pra fora o significado “sem seio”, do grego, me balança; segundo algumas versões do mito, as amazonas cortavam um dos seios para melhor manejar os arcos, meu bem, isso é simbólico.

Mais do que simbólico, é o escarro dentro de bocas patriarcais, é pureza endiabrada virada em puro ódio, mais do que corpo, mais do que mente, é quebrar as paredes da casa antes que o fogo a consuma; é berro, é controle, é honra que incendeia a vulva e vandaliza os muros de mitos para que em glória se evidencie: estivemos aqui!

A quem cantariam se não às musas, a quem clamariam se não as senhoras da terra, a quem implorariam por misericórdia se não para as grandiosas que atravessam o aqui, o agora, e o próprio eu, em um ciclo de reconstrução diante do mundo que tenta, mas não alcança tamanha magnitude daquelas que regem a orquestra divinal do existir. 

   Safo, amante transgressora, a maior poeta grega do gênero lírico, talvez a primeira escritora do sexo feminino a marcar a história da literatura ocidental, ressoa em sua arte as marcas do cerne do erotismo. Do amontoado de terras de Lesbos a autora ressoou por toda história, Safo em seus versos ditou a configuração da linguagem do amor e do desejo, tornou atento nossos sentidos, abaixou o pelo após o arrepio. Humana, carnal, feita de sentidos, cede seu nome para estrofe sáfica, cede seus prazeres ao moldar versos de mulher, só de mulher, feitos de dor, gozo e ótica de mulher. 

Ela prova o doce da paixão e descreve o amargo do amor. Amor de mulher é revolucionário, por outra mulher é subversivo, direcionado em sua lírica, com paixão mulheres de Lesbos, é feroz como um galope e certeiro como uma flecha de amazona. Amar para mulher é constantemente um estado inflamado de guerra

Safo deveria ser ouvida, deveria ser ouvida sua voz poética incluindo seus prazeres. Se esse prazer é anulado na arte ele é anulado na realidade. 

É aqui que o rio curva de maneira indecente, quando o galope furioso muda a forma. De quatro patas até quatro apoios, de uma lombar forte, como pilares helenísticos, que se contorce, intenso em pressão e suspiro, sem fôlego, sem decência, que invoca deusas e musas, guerreiras e místicas, seres elementares em eterna submissão ao Ser que carrega materializado em si a gênese do mundo.

O galope existe para si, o controle da guerra, a conquista de reinos e da terra santa, ou profana, ou infértil, ou amaldiçoada por ecos de antepassados. A terra se encharca de energia divina que vibra de dentro para fora e coroa com a glória eterna as heroínas de mil odisseias em vida, em mil e uma noites de descoberta, com oito mil terminações nervosas em base. 

Comentários