Cultura

Exceção

Exceção, crônica de Julia Moura. Publica às sextas no DM Revista.

diario da manha
Foto: Reprodução

Sempre achei exceção difícil demais de escrever, difícil demais de falar e de definir também. Quem sabe se a gente está excluindo algo ou não, se é uma lista ou não, se é uma exaltação ou não. Talvez seja difícil demais de escrever justamente por ser difícil demais de definir, coisa de elite, firula de belas letras. 

Engraçado é que não tem muito a ver com excesso, mas não tem um oposto, talvez um grande excesso seria uma exceção, mas isso soaria óbvio demais, o que a gente tira disso? Eu não tenho ideia, talvez ninguém saiba, ou talvez não teremos nada além de delírio. 

Sempre quando mergulho em devaneio me lembro de Drummond, claro que não estou o chamando de louco, mas creio que a minha organização de ideias se torna mais clara quando posta em comparação com a poesia. 

O fato da poesia tanto zombar da linguagem torna tudo mais atraente a ser compreensível, se tudo nesse mundo fosse tão claro, a poesia claramente seria uma exceção, ou talvez um grande excesso de clareza, temos um “excessão” em pleno neologismo. 

A questão é que retorno até a máquina do mundo do poeta mineiro.

“e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana. “

Sim, mais uma vez dialogo com poemas, a justificativa você encontra nesse texto. A máquina do mundo sempre foi um enigma pra mim, sua maneira de compreender a existência me faz questionar qualquer motivação de viver nesse mundo. No fim das contas, busco o absurdo original e seus enigmas, sem exceções, em estado bruto, a verdade não dilapidada ou corrompida, sem afetos com monumentos de deuses erguidos por homens corruptíveis e tão corruptíveis quanto suas próprias verdades.

A máquina do mundo é a própria exceção.

Comentários