Cultura

Biógrafa passa a limpo vida de Samuel Wainer

Em homenagem ao centenário de Samuel Wainer, biógrafa Karla Monteiro reconstrói vida do jornalista responsável por uma das publicações mais originais do século passado

diario da manha
Samuel Wainer foi um dos nomes mais brilhantes da história da imprensa brasileira - Foto: Reprodução

Um dos nomes mais importantes da imprensa brasileira no século 20, o jornalista Samuel Wainer (1910-1980) fez história com o “Última Hora”, jornal fundado na zona portuária do Rio de Janeiro a 12 de junho de 1951. De origem humilde, Wainer conquistou tiragens gigantescas e concebeu uma publicação moderna, elegante e arrojada.

Como sua ideia desde o princípio era inovar, desenhos e fotos grandes eram estampadas na capa – algo incomum à época. Mas óbvio que tamanha afronta não deixaria dúzia de famílias que sempre detiveram o controle da mídia satisfeita: o império de Wainer, erguido com o apoio de Getúlio Vargas, ruiu nos anos 70.

Pelo diário passaram repórteres como Sérgio Porto (também conhecido como Stanislaw Ponte Preta, cronista autor do clássico “As Cariocas”) e Nelson Motta (nome seminal da crítica musical dos anos 60 para cá). Em suas páginas, escreveram ainda gente do calibre de Nelson Rodrigues e Vinícius de Moraes, que a essa altura – lá pelos idos de 1950 e poucos – já eram considerados dois dos maiores expoentes da literatura brasileira.

O jornal, que adotava uma linha editorial popular, foi ainda pioneiro em dedicar espaço na capa para chamadas de futebol e artes. Mesmo com essas qualidades, porém, a publicação não escapou da fúria de Carlos Lacerda.  

Reportagem do Jornal da Globo sobre a morte de Wainer, em 1980

Ex-militante comunista, Lacerda virou na década de 50 uma das vozes mais raivosas e estrepitosas (com seu gogó difamatório) da reacionária UND, razão pela qual tornou-se inimigo de carteirinha de Vargas. O jornalista enxergou na “Última Hora” uma ameaça ao seu “Tribuna da Imprensa”, fundado em 1949, e lançou uma campanha difamatória contra Wainer, acusando-o de ser favorecido em negociações com o Banco do Brasil.

Esse imbróglio desembocou numa Comissão Parlamentar de Inquérito, com desfecho desfavorável a Wainer. E ainda que derrotado, o destemido jornalista botou para circular a revista “Flan”, publicação que fez alarde no mercado e contava com a colaboração de intelectuais renomeados à época.

Se essas histórias já foram relatadas na autobiografia “Minha Razão de Viver”, no estudo acadêmico “O Caso Última Hora E O Cerco da Imprensa ao Governo Vargas”, do professor da UFF Aloysio Castelo de Carvalho, e nas memórias “A Rotativa Parou!”, do jornalista Benício Medeiros, a biógrafa Karla Monteiro encontrou mais o que ser contado.

“Em Samuel Wainer – O Homem Que Estava Lá”, Monteiro amparou-se em fontes inéditas e realizou dezenas de entrevistas, procurando equilibrar as ambivalências desse personagem marcante no jornalismo produzido nos anos de 1950 e 1960.

Na obra, que será lançada em breve pela Companhia das Letras e já está disponível para pré-venda, a biógrafa entrelaçou também a aventura encampada por Wainer com as artimanhas secretas (algumas já reveladas em “Minha Razão de Viver”) do poder entre a ditadura do Estado Novo (1937-1945) e o curto período de redemocratização, que esfacelou-se com o golpe civil-militar de 1964 – apoiado, vejam só, por Lacerda.

Valorização profissional

Além de transformar a indústria de notícia no Brasil, Samuel Wainer também tornou-se notório pela valorização profissional dos seus jornalistas, do design moderno das suas páginas e da sensibilidade com que compreendia questões de interesse público. Carlos Lacerda, como não poderia deixar de ser, voltou a acusar Wainer, agora de praticar “dumping”, durante o período de maior sucesso do diário carioca.

Mesmo tendo uma linha editorial pró-getulismo, com o golpe civil-militar de 1964, o jornal passou a ser partidário do regime – por motivo de sobrevivência econômica, pois não tinha saúde financeira para confrontá-lo. E com a censura prévia, perdeu a relevância de outrora.

Samuel Wainer escancara as relações entre a "grande" imprensa no Brasil e  as empreiteiras - Socialista Morena
Wainer na gráfica do jornal ‘Última Hora’ – Foto: Reprodução

Wainer permaneceu no comando da publicação até 1971, quando finalmente vendeu seu “Última Hora” para uma empresa liderada pelo empreiteiro Marcelo Nunes Alencar – a quem chegou a destilar críticas em “Minha Razão de Viver”, pois os empreiteiros se faziam “essenciais aos interessados em decifrar os segredos do jogo do poder no Brasil”.

Um das publicações mais relevantes de seu tempo, o celebrado diário carioca faliu em 11 de julho de 1991 pela juíza Célia Maria Vidal. Com estratosférica dívida, a empresa disse que foi vítima das altas taxas de juros. Wainer, no entanto, não chegou a ver a derrocada do jornal: ele faleceu em 2 de setembro de 1940.

Ficha Técnica

‘Em Samuel Wainer – O Homem Que Estava Lá’

Autora: Karla Monteiro

Gênero: Biografia

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$ 89,90

Foto: Divulgação

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