Cultura

Bendito chá de Matilde

"Bendito chá de Matilde", crônica de Júlia Moura, redatora em jornalismo cultural e cronista.

diario da manha
Foto: Reprodução

Quando menos esperava esbarrei de cara dos versos dela, foi uma choque feio. Dias de agonia, noites em claro delirando de amor, a cabeça na lua e o coração em Portugal, perdi tudo quando um dia ouvi Matilde dizer, “o garoto da loja de sorvete piscava-me o olho quando eu chegava sozinha no balcão, ele já sabia que você dobraria a próxima esquina. Por você eu ficava sempre brigando com os pássaros, queria assobiar muito mais alto do que eles e, isso, não é nada esperto. Quem briga com bicho, perde!” 

Quem briga com bicho, perde. Era isso, sempre foi isso, uma bateção de cabeça interminável contrária por uma vida inteira, e a resposta sempre óbvia: quem briga com bicho, perde. A epifania me arrepiava sem parar, não via nada da mesma forma depois que vi esses versos. O mesmo sol que toca e aquece as cabeças que vivem no mundo da lua, me faz passar a mãos sobre meu braço tentando impedir o calor, o que é em vão, e isso ficou muito claro depois de bater meus olhos na poeta. 

A Matilde nunca foi um soco no estômago, Matilde foi um beijo na testa, uma sedução descontrolada, tanto um chamado para a noite como um sábado de praia. Brisa que joga o cabelo para os olhos só para que exista o charme de passar os fios detrás da orelha. É cheiro de pele em dia frio, arrepio debaixo de cobertor, troca de olhares durante a noite, o primeiro frenesi depois da terceira taça de vinho,é  a impressão de que realmente algo ali esquentou. 

Descobri assim que era amante, das bravas e impiedosas, tipo de soldado que não enxerga nada a perder na sua frente, afinal, a vida é muito curta para que as essas batalhas sejam lamentadas. Menos as selvagens, creio eu que já é sabido que, quem briga com bicho, perde. Isso aprendi com Matilde naquilo que me tocava tão leve 

“E não se iluda, nunca mais se iluda. Eu não sou herói, nada de campeonatos. Nunca atravessei nenhuma das chuvas pra te provar coisa alguma. Tudo que atravessei, toda aquela rapidez que te levava do claro ao escuro em quarenta e três segundos era só porque… desculpa, mas eu sempre achei que eras a pessoa mais bonita do mundo.

Sempre achei que a tua presença ao meu lado era quase imersiva. Não acho que sejas a Gisele Bündchen, não acho que sejas o Brad Pitt, não acho que sejas o menino Arthur Rambault, não acho que tu sejas os quantos quilômetros de um Austin Martin em uma estrada de Katimandu. Acho que tu és o teu nome. Teus olhos castanhos. Teu cabelo claro. Tua voz as vezes grave, as vezes doce. Tua incrível  mirada sobre o mundo dos negócios. E, tua bendita sensibilidade para a natureza, una, espiritual, familiar, de todas as coisas.” 

Penso que seria uma grandiosa cara de pau da minha parte ousar dialogar com a poeta no meu mais medíocre delírio, mas é isso, quem briga com bicho perde, e não são necessários arrependimentos infinitos de uma batalha já dada como perdida. Fui entregue, fui esmagada por Matilde, e adoro essa sensação.

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