Cultura

Atrizes mostram ternura até no campo da ficção

Protagonizado por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, ‘Amor e Sorte’ esbanja delicadeza com história que poderia virar série própria

A série “Amor e Sorte” reserva momentos (e até diálogos) divertidos. A produção, protagonizada pelas atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, mãe e filha na vida real, e dois dos nomes mais importantes das artes cênicas, mostra uma reconexão forçada, mas nem por isso indelicada, de mãe e filha. Apesar das diferenças entre elas – Gilda é uma debochada fruto da geração libertária dos anos 60 e Lúcia cria do mercado financeiro -, a história enfoca uma relação emocionante.

Se a trama tivesse apenas a atuação das duas (e o ‘apenas’ aqui não tem a pretensão de rebaixar a série, muito menos menosprezá-la), já seria suficiente para o público não desgrudar os olhos da tela: elas embelezam, despertam distintas emoções e suscitam risadas no receptor. É o efeito que uma grande atuação cênica tem sobre nós. Detalhe: o primeiro episódio, certamente algo histórico na televisão brasileira, é um convite ao afeto que a gente viu se perder na pandemia da necropolítica.

A mãe aposentada é levada à força para o isolamento pela filha, personagem de Fernanda Torres, após ser encontrada tomando caipirinha na praia, nem aí para a pandemia (“minha filha, eu não tenho 15 minutos”, diz Gilda a filha). Como não poderia deixar de ser, Lúcia a transporta para a região serrana do Rio, porém vai escutando no caminho os lamentos da mãe: Gilda era independente quando vivia no “antigo normal”. No entanto, isso não se encaixa mais no “novo normal”. Lúcia quer proteger a mãe contra o coronavírus, mas Gilda dispensa interferências em sua rotina.

Trailer da série ‘Amor e Sorte’

A quarentena bagunçou tudo e inverteu os papéis de mãe e filha, daquela que cuida e daquela que é cuidada. E escancarou as diferenças intrínsecas a esse tipo de relacionamento durante o processo de isolamento. Com uma vida guiada pela sinfonia da correria da grana no mercado financeiro, Lúcia se assusta ao descobrir que sua mãe voltou a fumar. O espectador tem uma dúvida: será mesmo que ela – algum dia – chegou a parar? Eis a incógnita. Os dias se passam, com as diferenças entre as duas cada vez mais acentuadas, escancaradas para o público. E ficamos grudados na telinha.

Elas são distintas em tudo: na forma de pensar, de sentir, de comer e rolam até divergências ideológicas – a personagem de Montenegro é, como a própria filha a define, “uma esquerdista carnívora”, enquanto a de Torres “uma liberalzinha vegetariana”. Em nome do bem-estar de sua empresa, por exemplo, Lúcia faz demissões a distância (“você demitiu até o caseiro”, diz a mãe). Gilda, obviamente, não concorda com as decisões tomadas pela filha. E num desses momentos de ‘austeridade’, a mãe bota para tocar “Back To Bahia”, clássico setentista de Gilberto Gil. Gargalhamos, ora.

Criada por Jorge Furtado, a série, mirando em atores que dividem o mesmo teto no isolamento, obteve êxito ao transportar a intimidade que a dupla de protagonistas têm na vida real para o universo da ficção. E a cumplicidade, afetividade, ternura e sensibilidade que Fernanda Montenegro e Fernanda Torres demonstram em cena é comovente. Seja nos gestos, no amor, no olhar: trata-se de interpretações que emocionam. Pena que a história de Gilda e Lúcia acabou num passe de mágica, mas merecia uma história à parte, só delas, merecia.

Ficha Técnica

‘Amor e Sorte’

Direção: Andrucha Waddington

Duração: 44 minutos

Disponível no Globoplay

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