Cultura

Escapuliu

"Escapuliu" crônica de Júlia Moura voltada para a expansiva rebelião de sentimentos provocados pela cidade e suas infinitas camadas de afeto

diario da manha
Foto: Júlia Moura Arte: @monikegoyana

Es ca pu liu, soa bem. A língua dança e se contorce para soar o susto. Aquilo que escapa, salta e escorrega, flui de modo indomável, como peça pregada pelo acaso em uma fração de segundos quase imperceptíveis. 

Ninguém tem culpa do que escapuliu, mesmo o inanimado tem essa autonomia. Quando algo escapa, a culpa transfere; não se pode fazer nada, aconteceu, só escapuliu, abandonou. Pensamentos que escapolem em rebeldia, dão o tomé nos sentidos. Não há tato que não se assuste na falta daquilo que se afasta do Ser tão repentinamente, de maneira quase desonesta, sutil e impiedosa. 

Algumas coisas me escapuliram desde o último filme que levei no centro da cidade, algumas chances também escapuliram, algumas poses e alguns flashes. O guardei por muito tempo para que a expectativa fosse frustrada de um jeitinho medíocre. Existem péssimos dias, como esse, que não tive meus filmes revelados. O anseio deslizou pelo ralo, paralelamente, o ânimo em voltar para casa era nulo. Em meio a incontáveis desventuras, transbordou meu desejo quase indecente pela cidade, pela sujeira analógica do centro e como tudo se organiza caoticamente em sua própria ordem. O mundo cai enquanto as buzinas soam e os velhos jogam damas na Avenida Paraíba com um caricato desgosto pelo pedaço de vida infeliz que resta, não apenas para eles como para todos nós, tão miseravelmente comuns. Recordo que, nesse dia fiquei receosa de fotografá-los e ser recebida com a tradicional antipatia anciã-central, tem coisa nem precisa escapulir, solta-se com a intencionalidade do livramento, evita o desgaste. Naquele momento, entre tantos amedrontamentos banais, eu temia demais a chuva, mas ainda me recusava a voltar, isso seria dar o braço a torcer, eu aguardava ansiosamente pelo instante que me prendesse, aguardava pelo segundo decisivo do despertar, a viagem tinha que valer a pena. Infelizmente, se a paisagem escapole a memória também se esvai, como aquela palavra pontual para se definir sentimentos nebulosos. A expressão é só o que temos, em sua abstenção, retornaríamos para o grau zero de compreensão humana. Quando a expressão me escapole sinto a deficiência, sinto o limbo indefinível a flor da pele, sinto o soco no estômago. 

Eu vi a passagem do dia escapulir devagarinho diante dos olhos, dançando, eu a vi debochar, ouvi o riso de escárnio, ouvi a crueldade. Ouvi o som de seus passos indo embora, a porta bater, também o lamento nostálgico e amargo de quem contraria as previsões e caçoa da ideia de destino. O relógio acelera e a cidade me amarra, impede meus chutes e meu passos largos, ela se agita de costas na minha frente. Todo mundo nega, eu também nego pela nobreza de se defender a cidade, mas, amar assim a cidade não destroça a graça de inúmeros instantes serem perseguidos em vão. A rua se contorce, mas não se altera, o sol toca quente e o vento sopra árido, o respirar vem como um corte doloroso, a pupila já é gasta e exausta. Aqui, encontra-se mais do lado de dentro do que de fora, ou possivelmente, o brilho da monotonia é o que tece habilidosamente suas formas singulares de atração. A teoria é que as faces da metrópole de essência provinciana guardam mais armadilhas e descobertas que se pode catalogar. Eu não sei definir a face desta capital, muito menos o que ela quer, mas seria tolice não imaginar os jogos que guarda para aqueles que ousam desafiar a soberania impositiva do espaço e do tempo. 

Essa máquina de descobertas, a mesma que Drummond chamaria “do mundo”, que faz saltar os olhos e inflama o brilho de um olhar luminoso rendeu-se a introspecção moderna. A máquina, mística e majestosa agora atua de dentro pra fora, as salas escuras e portas enterradas estão no âmago dos sentidos, em uma localização remota da superfície caoticamente medíocre da nossa consciência. Quando escapole, estamos a flor da pele, o que também não me parece mal, essa visão epifânica se veste como um oásis. Entretanto, em certos aspectos, soa cômico como escapamos de nós mesmos a ponto de não reconhecermos nossa própria subjetividade, viramos outro para que olhemos de fora e, com coerência e propriedade possamos dizer em um suspiro lesto “não é possível” ou “não posso acreditar”… afinal, escapuliu, foi um susto; se não existe culpa, é nula a possibilidade de abraçar a responsabilidade. Essa vida é posta só como uma eterna e indomável menina travessa.

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