Cultura

Série mostra faceta transgressora de Hebe Camargo

Vida de Hebe Camargo é retratada na série “Hebe”, de 10 capítulos, que começa a ser exibida hoje, após a novela “Fina Estampa”, na Globo. Apresentadora marcou época da Band e SBT

diario da manha
Andréa Beltrão vive o auge da rainha da televisão, entre 1965 a 2012 - Fábio Rocha/ Globo/ Divulgação

“A gente ama você, eu amo você”, disse Roberto Carlos a Hebe Camargo (1929-2012) numa das cenas mais icônicas da televisão brasileira. Era uma sexta-feira, dia 5 de março de 2010. Hebe, uma mulher que marcou época na Bandeirantes e no SBT, estava às vias de completar 81 anos naquela ocasião. Na platéia, todos marcaram presença – de Ana Maria Braga a Carlos Eduardo Miranda, o produtor. Mas o cantor – de quem a apresentadora era fã – preferiu presenteá-la, digamos assim, de uma maneira mais reservada: ele a recebeu numa suíte do hotel Sheraton, em São Paulo. “Eu tô tremendo, você não acredita?”, confessou ao ídolo.

Com direito a taças de vinho, choro e pedido de casamento, a aniversariante perguntou ao cantor se ele não queria se casar com ela. O ídolo da Jovem Guarda retribuiu as declarações amorosas de Hebe com a música “Como é Grande o Meu Amor Por Você”. Assim que a canção findou, ambos choraram. O intenso momento pode ser revisto agora em “Hebe”, série estrelada pela atriz Andréa Beltrão que chega à TV aberta, hoje, após a exibição da novela “Fina Estampa”. Produzida pela Globoplay, a obra conta com 10 episódios e é um projeto que complementa “Hebe: A Estrela do Brasil”, cinebiografia lançada em setembro do ano passado.

Atriz Valentina Herszage interpreta Hebe Camargo entre 1943 a 1954 – Foto: Fábio Rocha/ Globo/ Divulgação

“Hebe foi uma mulher muito exuberante, solar, e ao mesmo tempo insegura demais. Avançada e também conservadora”, diz Beltrão, que interpreta a rainha na fase em que ela se tornou estrela suprema da TV, em material de divulgação. A atriz Valentina Herszage vive Hebe durante a infância. “Nosso início, de cara, já foi muito marcante. Eu assisti a quase todas as filmagens da Andrea para o longa e depois, quando comecei a minha preparação, ela embarcou comigo para que pudéssemos construir, de forma dinâmica, essas duas Hebes, com a ajuda das nossas preparadoras maravilhosas: Marina Salomon, Íris Gomes e Cris Delanno”, afirma Herszage.

A série, dirigida por Maria Clara Abreu e escrita por Carolina Kotscho, mostra a apresentadora a partir de uma faceta pouco conhecida. Ao contrário de “Hebe: A Estrela do Brasil”, o foco dessa vez recairá sobre a relação de cumplicidade com o pai, Fêgo (Ângelo Antônio), os amores que marcaram sua vida e a paixão pelo filho, Marcello (Caio Horowicz). No primeiro episódio, o público já assiste ao lado transgressor de Hebe, com o desgosto dos malfadados militares – sim, o Brasil ainda vivia sob a batuta fardada – por causa das atrações iam ao seu programa. “Essa mulher é uma subversiva com um microfone”, reclama um censor, emputecido.

Com uma postura transgressora, Hebe peita o diretor Walter Clark (Danilo Grangheia) e leva ao programa a modelo transexual Roberta Close (Renata Bastos) e a atriz Dercy Gonçalves (Stella Miranda). “Os anos 80 foram a fase mais interessante da Hebe, para mim, porque ela estava no auge como mulher e como apresentadora”, afirma Beltrão. Na noite do dia 17 de agosto de 1987, Hebe esteve no centro do programa Roda Viva, da TV Cultura. Antes de entrar no ar, de acordo com o jornalista Arthur Xexéo, no livro “Hebe: A Biografia”, ela estava com medo por ser “inculta”. Mas, em pouco tempo, dominou os entrevistadores. E foi aplaudida.

Hebe Camargo troca seu indefectível selinho com Rita Lee – Foto: Reprodução

Epítetos

Na década de 1940, quando era apenas uma cantora de rádio, Hebe Camargo recebeu epítetos que não chegaram propriamente a marcar a sua carreira, mas dizem muito sobre a cativante personalidade da rainha da TV: Morena Brejeira do Samba, a Queridíssima, a Estrelinha, a Estrelinha do Samba, a Estrela de São Paulo, a Moreninha do Samba, a Estrela do Planalto, a Vitamina do Samba. Nenhum deles, no entanto, chegaram a definir Hebe tão bem quanto “Soberana da Telinha”, alcunha dada pelo jornalista Augusto Nunes. “Hebe tinha o direito legítimo de usar esse título”, anotou Arthur Xexéo, em“Hebe: A Biografia”. Tinha, de fato.

A jornada ao estrelato começou quando ela tinha apenas 11 anos e participara do programa de calouros no rádio. Na época, formou a dupla Rosalinda e Florisbela com a irmã Stella. Aos 15 anos, depois de gravar suas duas primeiras músicas, Hebe começou a trabalhar nas emissoras Tupi e Difusora – vivia-se, naqueles tempos, o auge do rádio. Daí para brilhar na televisão foi uma trajetória natural, tão natural que é difícil dissociá-la da telinha, já que ambas foram companheiras desde o início. Por causa do sucesso, recebeu um convite do magnata Assis Chateaubriand para cantar o “Hino da Televisão”, no começo da TV Tupi, em 1950.

Não demorou, todavia, para a então cantora ganhar espaço na grade da emissora. Em 1953, estreou “Musical Manon”, cobrindo o titular Roberto Corte. Já com o indefectível visual louro, passou a comandar “O Mundo é Das Mulheres”, programa dirigido e produzido por Walter Foster. A partir deste momento, sua trajetória foi impulsionada, e Hebe jamais saiu dos holofotes. Saiu, quer dizer, por um breve tempo: ela se casou com o empresário Décio Capuano, pai de Marcello. Mas, dois anos depois, em seu retorno, comandou o dominical “Hebe Camargo”, na TV Record, e conversou com nomes como Ronnie Von e Roberto Carlos.

Mesmo lembrada como uma das grandes estrelas da televisão, nem tudo foi flores para Hebe Camargo. Para ajudar em casa, ela precisou largar os estudos quando estava na quarta série. “Não ter o direito de estudar é algo que eu considero triste na vida”, disse Hebe, certa vez, para a apresentadora Marília Gabriela, no GNT. Nada disso, porém, impediu-a de passar por quase todas as emissoras do Brasil. Em novembro de 1985, a pedido de Silvio Santos, passa a integrar o SBT, estreando no ano seguinte o “Programa da Hebe”, que ficou no ar até 2010. Um de seus hábitos era dar selinhos nos entrevistados. A mania começou com Rita Lee. 

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