Cultura

Sérgio Ricardo trouxe realidade brasileira à bossa nova

Um dos mais geniais artistas dos anos 60 e 70, cantor e compositor Sérgio Ricardo faleceu ontem após se curar da Covid-19

diario da manha
Cantor Sérgio Ricardo com violão quebrado no Festival de Música Popular Brasileira de 1967

Sérgio Ricardo foi da bossa nova ao cinema novo. Junto com Geraldo Vandré e Carlos Lyra, ele trouxe ao estilo sambista-jazzístico eternizado por João Gilberto a realidade do Brasil (“Tristeza mora na favela/ Às vezes ela sai por aí”). Sérgio, por essas e por outras, é um libelo da cultura brasileira produzida durante os anos de chumbo da ditadura civil e militar, o que lhe credenciou como uma das figuras mais importantes da MPB naqueles tempos em que se esperava que o amanhã fosse outro dia. Sua obra, incrementada com irretocáveis harmonias belas, permanece viva. “Brinca um pouquinho/ enquanto a tristeza não vem”, cantava.

Mas não adianta brincar, não adianta cantar, não adianta, simplesmente não adianta: a tristeza veio. E ela veio – ah como dói, como dói! – numa época em que estamos carentes da loucura criativa da arte. O compositor Sérgio Ricardo saiu de cena ontem, aos 88 anos, no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Sérgio estava com a saúde debilitada desde quando havia fraturado o fêmur, em outubro do ano passado. Chegou, durante o período em que esteve internado, a contrair a Covid-19, porém recuperou-se da peste. A causa da morte, de acordo com sua assessoria de imprensa, foi insuficiência cardíaca.

Sérgio Ricardo, um senhor talento na música e no cinema
Cantor se tornou célebre por clamar por democracia na ditadura – Foto: Ana Rezende/ Reprodução

Uma das personalidades mais importantes da MPB durante a época em que a sociedade lutava para que a democracia fosse restabelecida, Sérgio passou a ser cultuado a partir de 1967, ao participar do 3º Festival da Música Brasileira. Na ocasião, quando cantou a música “Beto Bom de Bola”, foi vaiado e perdeu a cabeça, chegando a quebrar um violão. “Foi uma coisa puramente extemporânea e descontrolada”, confessou o músico, em entrevista para o documentário “Uma Noite em 67” (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil. “Por que vaiar, que história é essa? É só pelo sensacionalismo de um público que virou personagem de repente?”.  

 “Quando apareceu a bossa nova, eu reneguei o que havia antes. E o Sérgio Ricardo além de fazer parte do movimento, fazia aquelas músicas um pouco modernistas. Músicas sem rima”, afirmou o cantor e compositor Chico Buarque, em depoimento para “Uma Noite em 67”, documentário que está no Youtube. Chico diz ainda que “adorava o estilo” de Sérgio e comenta as letras politizadas do músico: “Além disso, ele foi um dos primeiros a começar a fazer músicas de movimento social como ‘Zelão’. ‘Pedro Pedreiro’ tem um pouquinho a ver com isso. Tudo tem a ver com o Sérgio Ricardo nessa minha fase primeira certamente”.

A essa altura, Sérgio já tinha subido ao palco do mítico Festival da Bossa Nova do Carnegie Hall de 1962, na cidade de Nova Iorque, onde ficara após a apresentação por oito meses. Ao aterrissar em terras brasileiras, o músico lançou seu terceiro LP, “Um Senhor Talento”, que teve produção de Aloysio de Oliveira. No ano seguinte, ele conheceu o cineasta Glauber Rocha, expoente do cinema novo, e compôs a trilha sonora do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), obra aclamada em Cannes. “Glauber me disse: Você vai fazer a música do meu próximo filme”, contou no show “O Cinema na Música de Sérgio Ricardo”, do Canal Brasil.

Dois anos depois, fez sucesso com o filme “Esse Mundo É Meu” (1963), estrelado por Antonio Pitanga, Ziraldo e Agildo Ribeiro. No mesmo ano, voltou a morar no Rio de Janeiro e compôs o piano da trilha sonora de “Terra em Transe”, considerado o melhor longa-metragem já produzido no Brasil. Em 1968, Sérgio escreveu o roteiro musical para a peça “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, levada às telonas pelo cineasta George Jonas. Após quatro décadas sem realizar novos filmes, Sérgio lançou “Bandeira de Retalhos”, com produção de Cavi Borges, obra inspirada em suas experiências como morador do Vidigal, morro da zona sul do Rio de Janeiro.

Nascido em 18 de junho de 1932, na cidade de Marília (SP), Sérgio Ricardo deixa uma extensa obra musical e cinematográfica que merece ser redescoberta pelo público. Trata-se de uma produção para além do lampejo emputecido que ele protagonizou no Festival de Música Popular Brasileira, em 1967. Muito além, muito além. Trata-se de seus que clamam pela liberdade, algo tão importante nestes dias em que o País bate à porta do autoritarismo. “Olho aberto, ouvido atento/ E a cabeça no lugar/ Cala a boca moço, cala a boca moço”, cantou Sérgio, em “Calabouço”, trilha sonora anti-farda que compôs em 1973. Sérgio Ricardo pulsa. 

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