Cultura

Entenda por que Al Green é considerado o cantor do amor

Nosso repórter destrincha a sensual obra da lenda do soul Al Green e mostra por que ele ganhou o status de Guru do Amor

diario da manha
<p>Al Green performs during the 2009 Essence Music Festival at the Louisiana Superdome in New Orleans.</p>

Se você quiser curtir a trilha do desejo, dê um play em… acertou quem, tchan, tchan, tchan, apostou em Al Green. A razão é simples: seu soul, com sua voz personificada por timbres sensuais, traduz perfeitamente o amor a partir das letras que concebia com uma naturalidade só reservada aos gênios. Nesse tempo da moléstia onde a gente está enclausurado em casa, defender a expressividade – e a expressão – do desejo se faz mais do que necessário, se faz fundamental, eu diria. Green catalisou tão bem a explosão enérgica, quase orgástica, pra ser franco, dos anos de 70 que ele é presença garantida em qualquer playlist séria do tipo.

Green, o cara que nasceu pra cantar o amor, foi um vulcão fonográfico. Vai vendo: “Let’s Stay Together”, “Tired Of Being Alone”, “Simply Beautiful” e “I’m Still in Love with You” são executadas aos borbotões nos motéis – quer dizer, eram na época em que eles não estavam em convalescença pandêmica. De tão impressionantes, as canções alçaram a lenda do soul num patamar pertencente à realeza do tesão. Mas não foi assim, num toque de mágica, que o cantor despontou para o sucesso. Antes de abocanhar 21 indicações ao Grammy Awards – premiação da qual venceu em 11 categorias diferentes -, ele ralou, digamos, um bocado.

A lenda começou cedo sob os palcos. Aos 10 anos, apresentava-se ao lado dos irmãos. Mas foi no high school, como a turma do Tio Sam refere-se ao ensino médio, que Green formou a banda Al Green & The Creations. Dela dois integrantes, Curtir Rodgers e Palmers James, montaram uma gravadora independente, a Hot Line Music Journal. O primeiro lançamento do novo selo foi “Back Up Train”, canção que figurou no topo das paradas de rhythm and blues. Ainda assim, o público não prestava atenção no som que estava sendo feito. A coisa mudou, no entanto, quando Green conheceu Willie Mitchell, passando a assinar Hi Records.  

Al Green durante show em Nova Iorque no início dos anos 70 – Foto: Morrison Hotel/ Reprodução

A partir desse momento, finalmente, o cantor passou a gravar discos. E fez pelo menos 30 ao longo de sua carreira. Em 1969, a lenda do soul lançou o LP “Green Is Blues”, álbum disponível nas plataformas de streaming. Guiado por melodias sensuais que dialogam com a potência de sua voz, “Green” – além de canções de autoria própria – conta com covers repaginados de músicas famosas à época, como “Summertime”, da cantora Janis Joplin, “Get Back”, composição de Paul McCartney do “White Album”, e “My Girl”, hino romântico consagrado pela banda The Temptations. Green dava um sinal do que estava ainda por vir.

Em 1971, dois anos depois do divisor de águas “Green Is Blues”, o cantor faz o LP “Gets Next To You”, seu terceiro disco. Na mesma toada do anterior, Green mescla músicas compostas por ele, além de sucessos incrementados por naipe de metais de bandas como The Doors. “Let’s Stay Together”, de 1972, é direto: vamos ficar juntos? De fato, só o título do álbum basta para explicar por que trata-se de uma obra com tamanho apelo sexual. Mas podemos ir além: a voz suave, delicada, leve, somada ao suingue típico e ao backing vocal, não deixam margem para imaginação. Green fala de coito, transa, sexo, dê o nome que quiser ao prazer.

Green ainda abriu a caixa empoeirada do rockabilly e concebeu uma versão de “Oh, Pretty Woman”, de 1964. Personalidade cativante que influenciou as gerações futuras, Al Green assimilou como poucos os sentimentos do amor – isso explica, por dizer assim, por que suas composições são citadas como clássicos. Suas melodias, impulsionadas pela sua voz leve e apaixonante, continuam tocando e embalando relações. Sejam os clássicos revigorados dos Beatles ou não, o groove delicioso dá urgência ao tesão. Por isso, você aí, que vive um amor à distância por causa da moléstia, nada como a imaginação, nada como a música de Green.

Ouça o cara. Nascido em 13 de abril de 1946, a obra de Al Green tem grandes momentos que precisam ser revividos. A começar – além dos já citados – por “How Can You Mend a Broken Heart”, faixa do LP “Let´s Stay Together”. É uma agitação provocada pelas guitarras tão necessárias quanto o coração palpitando pela batida do amor. E se tem alguém que traduz esse sentimento como poucos, esse alguém é – disparadamente – a lenda máxima do soul: Al Green. Som na caixa: “Your Love Is Like The Morning Sun”, canção que integra o disco “Call Me”, um dos mais esquecidos do cantor, mas uma personificação do soul delicioso. 

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