Cultura

A mulher no cinema político

Ao DM, cineasta Isa Albuquerque diz que a vida é a fonte de Histórias, conta que filmes são sentimentos, critica estereótipos da mulher no cinema e anuncia ‘Codinome Clemente’, seu novo longa-metragem

diario da manha
Diretora afirma que Ancine não repassou R$ 750 mi ao cinema de recursos carimbados - Foto: Divulgação

O cinema emociona e seduz. E Isa Albuquerque, 58, sabe disso. Documentarista de formação da escola de Eduardo Coutinho e Silvio Tendler, ela segue ao pé da letra a máxima do professor de cinema da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ): o documentário é o cinema dos vencidos. Sim, é. Isa concorda. “Codinome Clemente”, novo longa-metragem que ela lança nesta segunda-feira (27), ilumina a trajetória de Carlos Eugênio da Paz, integrante do movimento Aliança Nacional Libertadora (ALN) durante a ditadura civil e militar.

Isa já conhecia Carlos, um dos homens mais procurados pela polícia política da ditadura, e sempre o ouvia falando sobre sua história. Foi aí então que ela decidiu levar a trajetória dele às telonas. “Codinome Clemente” foi exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, no ano passado. O filme traz imagens exclusivas, desenho e animação, além de revelações e entrevistas impactantes com nomes como Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz e Franklin Martins. Ao Diário da Manhã, a realizadora conta quais são suas influências cinematográficas, discorre sobre o ofício do cinema e fala da presença do patriarcado no setor. Confira:

Diário da Manhã – Quem é Isa Albuquerque?

Albuquerque – Venho de um Brasil profundo, das bordas da Amazônia. O desejo de fazer filmes nasceu no Cine Vitória, uma sala de Cinema rudimentar fundada por meu pai,  Isaac Ferreira Sobrinho, em Lago do Junco, pequena cidade do interior do Maranhão com um tio, Macir Jansen, projecionista em São Luís, anos 70. Era criança mas naquela época, me senti destinada a participar do tecido cinematográfico. Não foi um caminho fácil nem rápido. A primeira de seis irmãos. Me formei em Jornalismo na Universidade Federal do Maranhão.  Casei,  tive dois filhos,  atuei no Jornalismo, em São Luís, e depois no Rio, na extinta TVE do Rio, depois EBC. No Maranhão tive outra janela de oportunidades aberta  pelo Festival Guarnicê, fundado por Mario Cella e Euclides Moreira Neto. Com o  Guarnicê, estabeleci contato com o cineasta Murilo Santos, premiado realizador de documentários sobre os trabalhadores rurais do Maranhão. Ao me mudar para o Rio, anos 90,  estudei dramaturgia aplicada ao Cinema, com o teatrólogo Luiz Carlos Maciel, ativista  da contracultura, no Brasil, consagrado pelo Pasquim e, na época, um dos professores das Oficinas de roteiro da Globo.  Fundei a Íris Cinematográfica, no Rio de Janeiro, e  realizei os três longas metragens, de minha carreira.  Leandro Karnal diz e concordo que o ser humano contemporâneo encontra-se em permanente construção.

DM – Quais os filmes que lhe fizeram chorar? 

Albuquerque – Sinto-me como Zeca Baleiro. Qualquer beijo de novela me faz chorar.  Filmes que me emocionaram como: “ Jogo de Cena” , de Eduardo Coutinho. Um documentário sensível sobre dramas vividos por mulheres comuns, em que atrizes consagradas interpretam as falas das entrevistadas. “Os Girassóis da Rússia”, de Vittorio de Sicca – com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, que vivem um casamento feliz interrompido pela Guerra. “As Pontes de Madison”, de Clint Eastwood.  “A Escolha de Sofia”, de Allan Pakula e “Out of África”, de Sidney Pollak. “O Filho da Noiva”, de Juan José Campanella.   Filmes são sentimentos. 

“Sinto-me como Zeca Baleiro. Qualquer beijo de novela me faz chorar.”

DM – Qual o motivo de fazer cinema?

Albuquerque – O cinema é um artifício de comunicação em massa que tem poder de emocionar, persuadir e seduzir, com técnicas de narrativa. Instrumento de transformação social. É a arte-síntese das demais expressões artísticas. A arte é fundamental porque a vida não basta. 

DM – O que a senhora busca na sétima arte?

Albuquerque – Emocionar. Compreender, aceitar e promover a aceitação do diferente. Para estimular a capacidade de perceber o semelhante no dessemelhante. Estar na felicidade, como define o filósofo Theodor Adorno. 

DM – O seu método de trabalho?

Albuquerque – É resolver um problema de cada vez. Começo com o ato criativo de escrever.  Levo dois meses para escrever o roteiro de um longa. Quando termino o primeiro tratamento, o texto é submetido à apreciação de um ou mais script doctors, que dão sugestões pontuais.  Depois, enfrentar a burocracia da Agência Nacional de Cinema. Projeto aprovado, busco os recursos necessários à produção. Até 2019, último ano em que a indústria esteve em atividade, havia 13 mil produtoras disputando as linhas de financiamento. Com o sistema de pontuação automática adotado pela Ancine, apenas um grupo restrito de produtoras reuniu as condições necessárias para ter acesso aos recursos de produção. O que mostra a falta um indutor de desenvolvimento às pequenas e médias produtoras. Com o recurso captado, o que leva entre dois e quatro anos, pelas leis de incentivo ou FSA,  contrato a equipe de produção. Dependendo do desenho de produção, a preparação pode levar entre 6 a 15 semanas e cerca de 150 profissionais no SET.  Mais do que isso o orçamento de filme brasileiro não aguenta.  Codinome Clemente teve suas primeiras exibições em festivais de Los Angeles e de Paris. Com um projeto de comercialização aprovado pela Ancine desde 19/12/2018. O lançamento do filme será realizado pela distribuidora O2Play. O recurso, que o filme conquistou ema seleção realizada de 2015 a 2018,  até hoje não foi liberado. Com a Vakinha On Line o exibimos em oito universidades francesas, entre elas Sorbonne, além de participação nos festivais de Bordeaux e de Toulouse. Veio a Pandemia e a rede de eventos foi desmarcada.  

DM – Projeção para o futuro?

Albuquerque – Não há presente e nem futuro com o Governo Jair Bolsonaro. Era de apagão na Saúde,  Meio Ambiente,  Educação, Cultura, Ciência e  Economia. O país foi lançado em um projeto neocolonial. 2020 é um ano perdido. No Brasil, a situação se agrava. 

DM – Mulher no cinema: os papéis do patriarcalismo, machismo, misoginia, sexismo?

Albuquerque – Sou uma das cinco diretoras mulheres que concluíram seus filmes em 2018, dentre mais de 100 diretores homens, no Brasil. O patriarcado é ativo nas equipes que selecionam os filmes a serem patrocinados, embora a representatividade feminina seja crescente, no campo da produção audiovisual.  O caminho de filmes produzidos por mulheres é mais lento.  É importante combater estereótipos da mulher no Cinema. Caminho traçado pelo novo feminismo. Há um tempo  tratávamos de reproduzir os estereótipos para denunciá-los. Hoje, procuramos reposicionar a imagem da mulher, na tela.

“O caminho de filmes produzidos por mulheres é mais lento.  É importante combater estereótipos da mulher no Cinema. Caminho traçado pelo novo feminismo.”

DM – Qual é a relação entre Cinema & Política?

Albuquerque – O ativista africano dos Direitos Humanos, Desmond Tutu, Prêmio Nobel de 1984 afirmou: Quem escolhe ser neutro sobre questões de direitos humanos, já escolheu o opressor.  Tudo é política. 

DM – Novos projetos?

Albuquerque – Codinome Clemente  retrata a trajetória de Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o Clemente. Lenda da luta armada, no Brasil. Um profundo defensor dos direitos humanos. Com um respeito igualitário por suas companheiras de luta armada. Se fosse cumprida a agenda de lançamento, há cinco anos, seria um filme de resgate histórico. Hoje, com um governo predominantemente militar e defensor da necropolítica,  o filme é um alerta para essas novas gerações. Já de olho no retorno à normalidade reativamos a campanha Vakinha Online para recuperarmos o plano de difusão. Quem quiser colaborar com a campanha basta acessar o link do projeto: Codinome Clemente distribuição: ID 758706.

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