Cultura

‘Coisa Mais Linda’ reforça união entre mulheres

Série chega ao streaming nesta sexta-feira (19)

diario da manha
Maria Casadevall em cena da série 'Coisa Mais Linda' - Foto: Aline Arruda/ Netflix

A nova mulher, alertou a filósofa Elaine Showalter, era uma figura anárquica que ameaçava virar o mundo de ponta cabeça. Claro que uma frase dessas deu nó no juízo da macharada. Vamos lá, explico: a nova mulher quer a liberdade pra escolher o que ser, e sem serem obrigadas a andar conforme os mortíferos pilares que sustentam o machismo e que, vejam só, insistem em ver as mais transgressoras – sobretudo aquelas que desafiavam a ética e a moral cristã, as tidas como adúlteras, mães solteiras e emancipadas – pela ótica do punitivismo que ceifou a partir da premissa patriarcal universos femininos que não admitem pitacos de machões vacilões.   

Se a cartilha da macharada pregada por sujeitos decrépitos e legitimada por homens de fé eclesial duvidosa maltratava mulheres no século 19, de acordo com Showalter, imagine como era no Brasil dos anos 1950. Elas ficavam em casa, eles trabalhavam fora. Script que, tristemente, ainda se repete no atual cenário que flerta com o conservadorismo. Acontece, todavia, que esse enredo foi levado ao Netflix na série “Coisa Mais Linda”, cuja segunda temporada chega ao streaming nesta sexta-feira (19). Estrelada pelas atrizes Mel Lisboa, Pathy Dejesus, Maria Casadevall e Larissa Nunes, a produção mostra a sororidade feminina numa época em que isso não era tão comum.    

Da esquerda à direita: Pathy Dejesus e Mel Lisboa em cena da série ‘Coisa Mais Linda’ – Foto: Aline Arruda/ Netflix

A série foi o grande lançamento nacional no Netflix de 2019. Ao passar os olhos pela sinopse, imaginava-se que a trama seria fantasiosa, ambientada no Rio de Janeiro de 1959 e movida pela trilha sonora da bossa nova. Nada mais piegas, clichê já abordado em diferentes produções, certo? Não, errado, erradíssimo. O que a gente viu foi quatro protagonistas femininas – lembrando: no Rio dos anos 50! – que passam por situações tensas. Todas provam as agruras do machismo da época, que não as deixam trabalhar fora de casa, vivenciar a sexualidade e até criar um filho sem a presença da figura paterna, porque a família a vê como desquitada. Tem ainda o fardo de Adélia, mulher negra e pobre.   

Dito isto, o último episódio da primeira temporada finda com um tiroteio nas areias da praia de Copacabana, numa noite de Réveillon, na virada da década de 50 pra 60. Augusto, o enciumado marido da aspirante a cantora Lígia (Fernanda Vasconcellos), dispara contra a esposa, atingindo também Malu (Casadevall), dona de um clube boêmio que dá nome a série e onde músicos que lembram a cena musical do período encabeçada por Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Tom Jobim e Vinícius de Moraes – guardadas, é bom dizer, as devidas liberdades criativas – se apresentam. Por si só já era uma coisa fora dos padrões da época, uma mulher agitar a cultura.

Malu, ao abrir os olhos depois do ferimento quase fatal, continua a ser uma mulher decidida, mãe dedicada e amiga leal a qual era durante a primeira temporada. No entanto, depois de quase ver sua vida ser ceifada por pouco pelo patriarcado, ela se mostra mais forte e desinibida. Já a jornalista Thereza (Lisboa) decide cuidar da família, porém logo percebe que precisa da realização do trabalho, que, agora, será numa emissora de rádio. Prestes a se casar e recomeçar do zero, Adélia (Dejesus) reflete sobre a infância e o pai, Duque (Val Perré). Ivone (Nunes), sua irmã, antes uma adolescente, torna-se uma artista de talento e desafia uma indústria dominada por homens.

Com um episódio a menos do que na primeira temporada, “Coisa Mais Linda” cumpre louvável papel ao mostrar a luta das mulheres por um mundo menos letal, com uma sororidade que precisa servir de espelho em tempos onde o discurso machista se faz presente e tem adesão de certas figuras. Em inglês, a série mudou o nome: passará a se chamar “Girls From Ipanema”, assim como a icônica canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes que foi gravada por nomes do calibre de Frank Sinatra. É importante considerar, tal como ocorreram nos episódios da primeira temporada, que as personagens falam expressões que ainda não sido inventadas, como “não tô nem aí”.  

Detalhe que, diante da relevância da produção, sejamos honestos, é quase insignificante. “Coisa Mais Linda” pode, sim, tornar-se uma série de sucesso no mercado internacional. É boa e desconstrói aquela narrativa do período que sempre foi protagonizada e escrita por homens. Aqui, não: o texto, quer dizer, o roteiro fica por conta de Patricia Corso e Mariana Tesch. A direção é de Caíto Ortiz, com direção de Julia Rezende em certos episódios. O trailer para os fãs sentirem a áurea dos novos capítulos já está disponível nas redes. “Coisa Mais Linda” é, para usar uma frase da filósofa Elaine Showalter, “o amor entre as mulheres sem a influência degradante e perturbadora dos homens”.

Ficha técnica

‘Coisa Mais Linda’

Gênero: Obra de época

Direção: Caíto Ortiz, com episódios por Julia Rezende

Roteiro: Patricia Corso e Mariana Tesch

Disponível no Netflix nesta sexta-feira (19)

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