Cultura

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Morte do ator Flávio Migliaccio reacendeu debate sobre suicídio. Especialistas detalham como é envelhecer na sociedade brasileira

diario da manha
Ator Flávio Migliaccio em cena da peça ‘Confissões de Um Senhor de Idade’ - Foto: Neia Faria/ Divulgação

“O único problema filosófico realmente sério é o suicídio. Decidir se a vida vale a pena ou não é responder à questão central da filosofia”, diz o filósofo franco-argelino Albert Camus nas primeiras linhas do seu célebre “Mito de Sísifo”, obra lançada em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Camus, um dos nomes mais importantes do existencialismo, disserta sobre a tarefa de tirar a própria vida a partir da premissa individual, e não social. “Um gesto como este se prepara no silêncio do coração, da mesma forma que uma grande obra”. Esse debate, todavia, ganhou corpo nas redes sociais.

Na última segunda-feira (4), o suicídio do ator Flávio Migliaccio, aos 85 anos, reacendeu discussões sobre como é envelhecer no Brasil dos fardados e dos neopentecostais. Migliaccio deixou uma carta, a derradeira, escrita com letra firme e munida de tristeza e amargura, sobre a mesa. “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo agora. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com este tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”, escreveu o ator.

Carta deixada pelo ator Flávio Migliaccio – Foto: Reprodução

Convém lembrar do cineasta dinamarquês Lars Von-Triers: “a humanidade é uma experiência que não deu certo”. Da primeira à última linha, a carta de Migliaccio retrata o mal-estar da civilização brasileira num momento em que manifestações antidemocráticas ganham escopo em nossa sociedade, num momento em que a mordaça tornou-se projeto de País pela (ir) responsabilidade do inquilino do Alvorada, num momento em que lavamos nossas mãos numa bacia de sangue. “Eu te entendo, Migliaccio”, disse o ator Lima Duarte, em vídeo que circula nas redes desde anteontem.

“Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafo terrível de 68, agora, 56 anos depois, quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais. Eu não tive a coragem que você teve”, emendou Duarte, que tem 90 anos. É inevitável, ainda que estejamos consternados pela morte de Aldir Blanc, não imaginar que a cantora Elis Regina, logo ela, que chamou os milicos de “gorila”, está aliviada por não assistir o País ser doado à corporação do uniforme verde-oliva. Elis teria 75… “A gente está sendo castigado, é muita besta-fera que está aparecendo”, afirmou Migliaccio, em sua última peça.

Elis Regina chamou os militares de ‘gorila’ – Foto: FolhaPress/ Reprodução

Para o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Aarão Reis Filho, envelhecer, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, “é uma merda”. “Apesar de ter muito velhinho por aí dizendo que é muito bom, muito interessante, que você acumula experiência, que nada: envelhecer é uma merda”, sentencia o estudioso. Com a ameaça iminente de um golpe, acredita Reis Filho, esse processo se torna pior ainda. “O primeiro que eu enfrentei foi aos 18 anos, então enfrentar um próximo, de modo clássico ou de modo inovador, vai ser uma provação”.

Preconceito

Existe um preconceito enorme contra idosos ao longo da história. É o que diz o professor Reinaldo de Assis Pantaleão: “No Brasil, a herança patriarcal e escravocrata força uma relação de obediência aos mais velhos, e não um respeito”. De acordo com Pantaleão, chamado carinhosamente de ‘Panta’ pelos amigos, a legislação trabalhista, desde a era Vargas até os dias atuais, menospreza e esquece os idosos. “Com a eleição do Bolso-Pinochet, a situação vem se agravando, pois as reformas na previdência transformam a vida dos idosos num verdadeiro martírio”, analisa o historiador.  

Peça ‘Confissões de um Senhor de Idade’ – Foto: Reprodução/ Youtube

A sociedade democrática, reflete o filósofo Antônio Lopes, é aquela onde as liberdades e os direitos civis deveriam valer acima de qualquer postura autoritária. Para o pensador, o ato de viver não indaga ao sujeito social sua idade quando interessa ao corpo engajado durante a luta para sobreviver em meio ao sistema capitalista. “A labuta pela vida não precisa se tornar uma guerra economicamente inviável, quando a moda mercadológica dita, a partir do mercado, a promoção das liberdades humanas enjauladas por tecnologias a alimentar o comportamento (des) humanizado”.

No final do nazismo, lá pelos idos de 1945, a população alemã suicidou-se em massa. Calcula-se que, nos últimos meses da Grande Guerra, cerca de 10 a 100 mil pessoas ceifaram a própria vida. “Eram pessoas que preferiam morrer a viver fora do nazismo. Amavam tanto o nazismo que preferiram se suicidar a sobreviver a ele. O próprio Hitler encabeçou o movimento, mas ele se estendeu por inúmeras pessoas, não só da Alemanha, mas também da Áustria”, explica o professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Aarão Reis Filho. 

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