Cultura

O tempo e o limbo: incerto

"O limbo de existir batuca na avenida todos os dias" crônica de Júlia Moura

diario da manha
Foto: Reprodução

É quarentena, e nenhuma sinfonia toca da mesma forma quando se a ouve com tempo. O tempo que aparenta ser livre, aqui, não é mais escolha, o tempo é imposição. Debruça-se com o peso do maior animal existente e sem piedade alguma deixa escancarado diante de nossos olhos a infinitude de sua pavorosa imensidão. O tempo pesa quando não se é escolha, o tempo pesa quando se é saudade, pesa também quando se contrapõe com a pequena ilusão de liberdade antes sentida. 

Seu Francisco, o velho vizinho de minha avó, tinha bastante tempo livre e sempre mantinha-se recluso, cercado pelas enormes paredes de sua casa nada extravagante, cheia de prateleiras, cheias de seus livros de linguística. Eu o visitei algumas vezes e tinha a sensação de viver a maior aventura do mundo, ainda que permeada pela aura de solidão, memória e mofo. Francisco vivia em uma espécie de quarentena voluntária e fora de época, usava sempre seu boné velho e passava suas tardes a observar o movimento da rua ao lado de seu cachorro. Ambos custavam a sair do mesmo lugar.

Era rotineiro, após passar por sua porta e saudá-lo, ser convidada a entrar para olhar o seu acervo de livros e divagar sobre literatura. Algumas vezes cheguei e ser presenteada com itens de sua coleção, mas uma situação em especial marcou-me de maneira estapafúrdia: Seu Francisco me deu uma página antiga de jornal. “Sábado, 18 de abril de 1992. Europa luta para salvar suas línguas em extinção – línguas neolatinas são mais ameaçadas”. A manchete angustiou-me por semanas, quando um povo perde sua língua, perde seu maior marco identitário, e isso ecoava em minha mente tornando-se minha mais invasiva memória do velho linguista, além de suas odisseias estadunidenses de quando lecionava em uma universidade que por ora me foge o nome. Mas o que me apavorava de maneira singular era a possibilidade de perda da subjetividade de um povo, o fenômeno me parecia um cenário distante e impalpável, até agora.

Francisco se foi, mas sua lembrança é uma visita inconveniente, que não bate à porta, mas convida para entrar em si. O que lhe ocorreria nessa conjuntura me é nebuloso, a quarentena de Francisco rasga de dentro para fora, não pelo fato de o senhor não sair de casa, ele já não o fazia, mas pela impossibilidade de escolher sair ou ficar.

Nunca foi sobre ficar, sempre foi a liberdade de escolha, não uma escolha individual, mas uma escolha que avança ou retrocede em coletivo. Nessas longas horas, percebe-se melhor o tempo. Tempo que fora escasso, agora abundantemente rebelde, conduz a uma ação familiar, o debate nas amarras da própria liberdade e a constatação de que, do lado de dentro da janela o leão ruge mais alto e degusta-se a aflição em seu mais puro elixir.

O silêncio do bairro escancara o desespero, o silêncio dos românticos evidencia a sensatez, a crise impossibilita a expressão das mais primitivas propriedades humanas, o medo ceifa o afeto, a tensão torna-se um pacto social e as relações são congeladas, não pela distância necessária, mas pela insensibilidade de enxergar, ainda que longe, um humano, tanto em si, como em outro.

Aquilo que nos espera é incerto, o que nos governa, insano, o que nos tornaremos é nebuloso e impalpável. Ainda assim, diante da obscuridade, existe uma certeza de reconstrução, um feixe distante que possivelmente Francisco observaria com a sensibilidade de quem guarda uma manchete de 92 e, gentilmente e despretensiosamente presenteia uma jovem mulher que pouco sabe sobre crises e pouco conhece sobre o caos que talvez lhe fosse familiar.

A dor sem pé nem cabeça guia as horas e conduz o tempo mestre para um destino amedrontador, a esperança é condenada e banhada pelo desespero paramentado de pés no chão. O tempo de Francisco é o mesmo do jovem que mergulha em um oceano de pânico pela sobrevivência social, também da mulher que tece e destece suas angústias em quatro paredes e pequenas janelas. Temporariamente e eternamente soberano, o limbo de existir batuca na avenida todos os dias.

Quando a banda passará é incerto, se cantaremos coisas de amor, também, mas a reconstrução é certeira, porque é disso que somos feitos, de uma subjetividade ferida mas não perdida, feita de brisa fresca e carnaval. 

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