Cultura

O erótico e a autoria feminina: para além da Vênus

Versos escritos por mulheres trazem luz à subjetividade ofuscada pelo patriarcado

diario da manha
Foto: Reprodução

O que surge das raízes dos prazeres mais ocultos, entre o dito e o não dito e a sensibilidade em descrever as nuances do que habita na flor da pele é a mais selvagem poesia manifesta em letras e identidade feminina. Embora a sexualidade da mulher, por muito tempo tenha sido reprimida e ignorada, ao longo da história, poetas se levantaram para que o prazer deixasse seu posto de mito e tabu intocável para ser tateado como deve em meio a arte.

O erotismo na poesia de autoria feminina trás a luz uma subjetividade não antes explorada e por muito tempo reprimida por inúmeras armadilhas patriarcais. Sem dúvidas, a arte sempre esteve intrinsecamente relacionada a realidade, se não há existência simbólica, dificilmente haverá existência real. Logo, se na arte, ignora-se a subjetividade feminina, incluindo seus prazeres, ela é a anulada na realidade.

Ainda que não recente, é inegável o imensurável peso transgressor presente na literatura erótica de autoria feminina. Safo, considerada a maior poeta grega do gênero lírico, talvez a primeira escritora do sexo feminino a marcar a literatura ocidental, tem sua arte marcada pelo erotismo. A poeta da ilha de Lesbos exerceu enorme influência em nossa visão do que seria a configuração da linguagem do amor e do desejo, principalmente voltada para ótica feminina.  Safo também cede seu nome a uma forma poética, denominada estrofe sáfica, e é atribuída a ela a origem de algumas ideias românticas comuns, como a suposta natureza “amarga” do amor, e levanta questões relacionadas à homo afetividade feminina, por direcionar em sua lírica, a paixão por suas pupilas, mulheres de Lesbos.

Mas para além da manifestação livre do amor de uma mulher para outra, a poesia safiana representa a possibilidade de a mulher construir seu mundo através da linguagem, e isso abraça também as nuances do erotismo.

Em terras brasileiras, poetas como Gilka Machado, Lilian Sais e Hilda Hilst tateiam o terreno na poesia erótica e conduzem a sexualidade feminina para o cerne da poética de uma maneira unicamente transgressora e subversiva. O feminino como arte tem força política e reafirma a existência da mulher enquanto individuo, dotado de prazeres, anseios e inúmeras singularidades.

Entretanto, é válido ressaltar o peso do patriarcado da sociedade ocidental, e como a sexualização e objetificação do corpo da mulher são ferramentas simbolicamente violentas para o apagamento da subjetividade feminina. Logo, a literatura erótica de autoria feminina, em sua subversão, busca em um todo a emancipação da mulher das amarras patriarcais e a descolonização da sexualidade.

A mulher é vista como um ser autônomo e livre; isso inclui um afastamento do sentido comum do erótico, voltado para o pornográfico, que não possui valor artístico e apenas alimenta as estruturas opressivas que anulam impiedosamente a emancipação feminina em essência. Logo, as representações do erótico na autoria feminina passam longe das concepções falocêntricas que costumam reverberar dentro das configurações desse discurso na literatura.

Em síntese, a mulher ocupa o centro do diálogo, a posição de agente, criadora e principalmente, dona do próprio corpo e da própria arte.

LÉPIDA E LEVE


Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
o verso não descreve…
Lépida e leve,
guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos rudo,
o vocábulo, ao teu contacto de veludo.

Dominadora do desejo humano,
estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!…
és o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes, solta, à toa.
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá do tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!

– Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
– Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de
alucinação, és o elatério da alma… Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca…
– Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!…

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contornas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
ou surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha…

Língua-lâmina, língua-labareda,
língua-linfa, coleando, em deslizes de seda…
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?…

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!…

GILKA MACHADO

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