Cultura

'As Cariocas', de Stanislaw Ponte Preta, é relançado

Companhia das Letras relança clássico do escritor Stanislaw Ponte Preta em meio à pandemia provocada pelo novo coronavírus; e-book já está disponível para venda no site da editora

diario da manha
Stanislaw Ponte Preta fez história na imprensa brasileira entre as décadas de 1940 e 1960 - Foto: Reprodução

“Triste escriba de coisas miúdas”, definia-se Machado de Assis, em sua faceta de cronista, escrachando o ofício dos textos efêmeros que não têm pretensão literária, mas ajudam a arejar o noticiário carregado do chamado primeiro caderno com leveza e humor: economia, política e mundo mandam nos jornais. No entanto, a prática diária serviu a Machado para amadurecer seu estilo e afiar sua escrita, assentando o caminho para os romances que ajudaram a pavimentar uma estética e uma linguagem singular adotada pelo autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” em suas obras.

Passado um século da morte de Machado, a posteridade começa a fazer jus à labuta proletária nas redações de jornais. Para termos uma ideia, o escritor Sérgio Marcus Rangel Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta, construiu sua carreira escrevendo em jornais cariocas dos anos de 1940 até 1960. Era um piadista contumaz: o cronista, dono de intrigante destreza para falar sobre as mulheres, fez história na imprensa. Seu primeiro emprego, lá pelos idos de 1940, foi na extinta revista Sombra. Depois, transferiu-se para a Manchete e, na sequência, integrou a equipe do Última Hora, periódico de Samuel Wainer.

Stanislaw Ponte Preta era conhecido pelo humor refinado – Foto: Reprodução

“No Rio há duas espécies de espetáculos que arrastam multidões para as arquibancadas dos estádios: futebol e desfile de mulher bonita”, escreve Sérgio Porto, em “A Cariocas”. De fato, o humor do jornalista, permeado por sacadas inteligentes e deboche aos padrões comportamentais, marcou época na careta sociedade carioca dos anos de 1940, quando ele começara a publicar suas primeiras piadas e crônicas. Por que escrever sobre mulheres, sexo, futebol, música e boemia? Por que zuar? Bom, a resposta, não sei. Mas que essa matéria-prima fez com que Stanislaw fosse um dos mais lidos na época, fez.

Com estilo sofisticado e divertido, Sérgio Porto traça um painel sobre os costumes da sociedade carioca dos anos 1950, apresentando ao leitor de “As Cariocas” a Grã-Fina de Copacabana, a Noiva do Catete, a Donzela da Televisão, a Currada da Madureira, a Desquitada da Tijuca e a Desinibida de Grajaú. A sedução, o desejo e a melancolia ganham vida com esses personagens que, de acordo com as palavras do escritor Jorge Amado no prefácio da primeira edição, lançada pela editora Agir em 1967, estão “em busca de uma esperança, de um porto seguro, de uma paz que parece impossível”.

Em sua obra, escritor retrata o Rio de Janeiro de maneira elegante – Foto: Reprodução

As seis novelas que fazem parte do livro são marcadas pela escrita atraente de Stanislaw e trazem para o leitor um panorama sedutor do Rio de Janeiro. Jornalista obrigatoriamente lido durante a década de 1950, o escritor é um dos nomes mais famosos da chamada geração da crônica carioca (fodástica) dos anos 50. Ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria e Paulo Mendes Campos, o autor de “As Cariocas” é necessário para que seja possível realizar a contextualização histórica sobre a vida num Rio que já não existe, e que na época (quando ainda era capital da República e nos primeiros anos após a mudança) era charmosa.

Boêmio

O jornalista Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, definia a música popular brasileira, a MPB, como Música Popular Bem Brasileira. Boêmio fã de birita (ops, desculpa) e botequeiro profissa, o hombre era dono de um peculiar e admirável senso de humor e por trás de sua aparência carrancuda havia um intelectual capaz de fazer piadas corrosivas contra a ditadura civil e militar. Também era crítico do moralismo social vigente, que fazia – de acordo com o cronista – parte do Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá), uma sátira que simulava notas jornalísticas, o que dava um quê de seriedade.

Stanislaw morreu aos 45 anos em decorrência de infarto – Foto: Reprodução

Um dos textos, por exemplo, chegou a ‘noticiar’ uma decisão da ditadura de prender o dramaturgo grego Sófocles, que morrera há dois mil anos, por conta de um espetáculo teatral montado pelo diretor Antônio Abujamra. Por essas e por outras, resguardadas a bizarrices dos arapongas, Stanislaw alcançou fama pelo seu senso de humor refinado e pela verve crítica aos costumes, que está registrada nos livros “Tia Zulmira” e “Eu e Febeapá”. Uma vida tão cheia de compromissos, requer trabalho: sua jornada diária era 15 horas por dia. O jornalista, uma espécie de workaholic, morreu aos 45 anos de infarto, no Rio de Janeiro.

Embora não tenha vivido para presenciar, um grupo de jornalistas encabeçado por Tarso de Castro e Jaguar fundou o jornal satírico O Pasquim, em 1969. O periódico adotara uma linha editorial de deboche contra os militares (com jornalistas, chargistas e ilustradores descontentes com seus trabalhos na imprensa tradicional) e chegou a vender mais que a revista Veja na ocasião. Ler Stanislaw, aos olhos dos dias de hoje, é essencial para que compreendamos os costumes, os hábitos e as convenções da sociedade carioca das décadas de 1940, 50 e 60. Sim, os textos de Sérgio Porto tocam – embora hoje possam soar um tanto misógino – na ferida. 

Ficha Técnica

‘As Cariocas’

Autor: Stanislaw Ponte Preta

Gênero: novela

Ano: 1967

Editora: Companhia das Letras

Preço: Físico (R$ 45,90) e e-book (R$ 29,90)

Capa da obra – Foto: Divulgação

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