Cultura

Documentários exploram faceta humana de Maradona

Nascido na cidade de Lanús em 30 de outubro de 1960, o eterno camisa dez argentino divide opiniões

diario da manha
Argentine soccer superstar Diego Armando Maradona cheers after the Napoli team clinches its first Italian major league title in Naples on May 10, 1987. (AP Photo/Meazza Sambucetti)

Foi assim: Diego Armando Maradona dominou a bola antes da intermediária da seleção argentina, driblou o primeiro marcador, girou, partiu em velocidade, veio o segundo, entortou sua costela, a mesma coisa fez com o terceiro, com quarto, ficou cara a cara com o arqueiro, deixou-o sentado e… Gooooooooolllll, golaaaaçççoooooooo! O que é isso, Jesus Santíssimo! Que pernas endiabradas são essas, meu Deus?! Sim, essa cena ocorreu no dia 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, em partida válida pelas quartas de finais da Copa do México.

Nascido na cidade de Lanús em 30 de outubro de 1960, o eterno camisa dez argentino divide opiniões: alguns o veem como um maluco, eternamente viciado em cocaína, com impressionante talento para se envolver em escândalos e provocar tretas. De fato, Maradona tem predisposição para esse tipo de encrenca, mas ele é muito mais que um mero ex-jogador problemático: é um deus. E a prova disso é que aficionados do mundo inteiro criaram a igreja maradoniana, em Rosário, na Argentina, para celebrar o futebol do camisa dez.

Com uma história riquíssima dessas, é claro que um personagem tão essencialmente humano como Maradona seria cobiçado por documentaristas atrás de uma história boa para contar. E foi o que aconteceu. “Diego Maradona”, de Asif Kapadia, também autor de filmes sobre Amy Winehouse e Ayrton Senna, e “Maradona no México”, de Angus Macqueen e Guillermo Galdón,  chamaram atenção do público – e vejam só: da crítica especializada! – sobre a instigante personalidade do El Pibe de Oro. Sem dúvida, Maradona é de carne e osso.

Se o craque é tratado como deus em Napóles, onde reinou entre 1984 e 1991, também passou por maus bocados na vida: internou-se para lutar contra as drogas, teve overdoses (não foram uma, nem duas… foram pelo menos três vezes em que isso aconteceu) e travou uma luta solitária contra os manda-chuvas do futebol. Maradona se tornou uma estrela pela sua habilidade gigante em fazer jogadas lindas e alfinetar os poderosos. “A máquina do poder o tinha jurado”, escreveu o jornalista Eduardo Galeano, em “O Futebol a Luz e à Sombra”. 

“Diego Maradona” começa quando o craque já era conhecido e tinha na bagagem uma passagem malsucedida pelo Barcelona. Sempre ao lado dos desfavorecidos, o camisa dez foi contratado pelo Napoli, então um time com pequena relevância na liga italiana e vítima do preconceito da elite por ser uma equipe do sul do país da bota. Nos jogos contra os grandes do norte, sobravam ofensas e discursos racistas. E é aí é que está o xis da questão: o filme oferece um ótimo paralelo entre o argentino e os pobres, os humildes e os excluídos. 

Trailer do documentário ‘Diego Maradona’, do diretor Asif Kapadia – Reprodução/ HBO

Todo o amor de Nápoles ao el diez eram retribuídos nas quatro linhas. Maradona deu confiança ao napolitano, inserindo-o na ponta do campeonato italiano e passando a ser temido por times tradicionais, como Juventus, Milan e Inter de Milão. Havia uma relação de intenso afeto entre o ídolo e a população – ao ponto dele se relacionar com integrantes da Gomorra, a temida máfia local. “Diego Maradona”, portanto, é um filme apreciável não só para quem é fã de futebol, mas também àqueles que se interessam por compreender as contradições da natureza humana.

Disponível na Netflix, “Maradona no México” mostra a chegada do El Pibe de Ouro ao Dorados Sinaloa, clube da cidade de Culiacán, no México, que é comandado pelo narcotráfico. É o retorno de Maradona ao país onde foi campeão do mundo com a Argentina, em 1986. O craque é visto como uma lenda e tem um trabalho árduo pela frente: fazer com que o Sinaloa não caia à terceira divisão do futebol argentino. Dono de temperamento explosivo, sua passagem – é óbvio – alimentou as páginas dos jornais mexicanos.

Trailer do documentário ‘Maradona no México’, dos diretores Angus Macqueen e Guillermo Galdón – Reprodução/ Youtube

Sim, Maradona foi expulso durante uma partida por insultar a equipe adversária. Mas ele tinha avisado: sua presença causaria revolta nos juízes e, é claro, ele seria presa fácil para os assopradores de apito. A mensagem transmitida em “Maradona no México” não faz rodeios e esclarece que o craque continua com temperamento forte, e é capaz de mexer com as emoções das pessoas que estão ao seu redor. Ele não muda, não mudou e, provavelmente, não mudará – o que, vamos e venhamos, faz dele uma figura apaixonante e complexa. 

Se Pelé (sim, mais uma vez com essa inevitável comparação…) vive na redoma do craque místico e coroado, Maradona é a figura humana em stricto sensu, com seus erros e suas virtudes. Se Pelé (sim, repetir a mesma comparação pela segunda vez é demais..) teve uma relação próxima e, não raro, conflituosa com os militares, Maradona se coloca ao lado dos rejeitados. Se Pelé (está bem, esta é a última vez…) evita o discurso político, Maradona é fã declarado de Hugo Chávez e Fidel Castro, e crítico confesso de Jair Bolsonaro. 

Por essas e por outras, Pelé e Maradona são tão diferentes quanto a água e o vinho.

Ficha técnica dos documentários

‘Diego Maradona’

Ano: 2019

Autor: Asif Kapadia

Gênero: Documentário

Duração: 2h10

Disponível no HBO app (em inglês)

‘Maradona no México’

Autores: Angus Macqueen e Guillermo Galdón

Ano: 2019

Episódios: 8

Gênero: Documentário

Disponível no Netflix

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