Cultura

Morto não fala: a esfera fantasmagórica no cinema nacional

O filme, inspirado em contos de terror de Marco de Castro, me tocou em referências que passam de Edgar Allan Poe até crônicas morais de Nelson Rodrigues. Acompanhe a crítica

diario da manha
Foto: Reprodução

O terror brasileiro “Morto não fala” teve sua estreia em 10 de outubro e desde então tem gerado inúmeras reflexões. No filme dirigido por Dennison Ramalho, o funcionário do IML da periferia de São Paulo, Stênio (Daniel de Oliveira) possui a habilidade de se comunicar com os mortos. Diariamente, Stênio escuta inúmeros relatos do além. Entretanto, quando essas conversas revelam segredos pontuais, o homem, em sua peversão, atrai uma maldição perigosa para si e todos a sua volta ao tomar decisões no mundo real que afetam a ordem paranormal.

O filme, inspirado em contos de terror de Marco de Castro, me tocou em referências que passam de Edgar Allan Poe até crônicas morais de Nelson Rodrigues. A perversão humana, vingança e degeneração social são temas relevantes à serem discutidos.

Sem spoilers, é notório que já no inicio da obra cinematográfica cadáveres nus são expostos em seu estado mais socialmente repulsivo, inchados de hematomas, retalhados, ensanguentados. Dessa forma, imediatamente o espectador é posto em um espaço onde o corpo humano já morto e a nudez são elementos completamente naturalizados.

A sede por vingança e o sadismo são aspectos que também caracterizam a obra e se aproximam das narrativas de terror tradicional, obviamente, nada disso torna o filme revolucionário ou diferente de algo que você provavelmente já viu. A perversão humana, que já é da natureza do horror no cinema é muito explorada (fato que me lembra os contos de Poe) e foca no castigo/vingança, reflexo da cultura brasileira que está fundamentada no punitivismo, fazendo deste um elemento de horror.

A violência gratuita também é ressaltada na obra, onde em inúmeras cenas presenciamos grosserias intensas, nesse caso, observa-se como os laços sociais entre os personagens já está desgastado, paralelamente aponta-se o efeito de desumanização de cada um deles em suas relações por um fio e em desarmonia.

Entretanto, a mudança de esferas fantasmagóricas é brusca. Aparentemente, imagina-se que o filme se trata de experiencias em um necrotério, mas ao longo da obra a narrativa converte-se em um espirito perseguidor vingativo e uma casa mal assombrada. Sustentando de forma mais latente o sadismo, a violência e a imoralidade humana diante de sua raiva.

A fúria sobrenatural do além vinda sob personagens inocentes também provoca um incomodo no telespectador, voltando novamente para as noções de justiça pela logica punitivista. Mas em uma sociedade com seus laços humanos completamente degenerados, qual seriam os limites estruturais da moral que definiriam quem possui a razão? Eis que Lara (Bianca Comparato) tem seu lugar no filme, como uma personagem inocente e bondosa que sofre as consequências de um ato que não lhe diz respeito, aqui, uma dicotomia entre bem e mal é clara, onde o mocinho contrai consequências injustas para si e conquista a afeição do telespectador.

“Morto não fala” é um bom filme, não foge do obvio, mas também não se torna intragável. Uma boa opção para conhecer o terror contemporâneo produzido no Brasil.

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