Cultura

A cena dourada na voluptuosidade de "Mel e Girassóis"

Caio F. Abreu, utiliza diversos recursos de linguagens e temáticas transgressoras para a construção da narrativa. Acompanhe uma análise sobre a condição humana do eu em concepção as relações interpessoais no conto do autor "Mel e Girassóis".

diario da manha
Foto: reprodução

“Como naquele conto de Cortázar ― encontraram-se no sétimo ou oitavo dia de bronzeado. Sétimo ou oitavo porque era mágico e justo encontrarem-se, Libra, Escorpião, exatamente nesse ponto, quando o eu vê o outro. Encontraram-se, enfim, naquele dia em que o branco da pele urbana começa a ceder território ao dourado, o vermelho diluiu-se aos poucos no ouro, então dentes e olhos, verdes de tanto olharem o sem fim do mar, cintilam feito os de felinos espiando entre moitas”

Caio Fernando Abreu, Mel e Girassóis.

Dentre os principais nomes da literatura brasileira contemporânea, destaca-se Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho de produção literária centrada na narrativa não convencional, manifestada em contos de linguagem e temática transgressoras. Ressalta-se também que, as obras de Abreu foram produzidas em meio ao cenário de repressão e iminente abertura de temas controversos da sexualidade humana com profunda interiorização do eu.

É notório a existência de uma relação entre Mel e girassóis, conto de Caio Fernando Abreu, com a construção de sentidos por meio das relações semissimbólicas da cor e da construção da cenografia voluptuosa em sua narrativa.

Diante disso, hoje proponho-me a dialogar sobre a contribuição do dourado à cena tropical construída na obra no nível da manifestação, e em como as figuras humanas são desenvolvidas pelo autor no cerne da sexualidade.

Caio Fernando Abreu, em Mel e Girassóis, utiliza de diversos recursos linguísticos para a construção da narrativa, o cenário tropical da obra alicerça uma profunda análise reflexiva sobre a condição humana do eu em concepção as relações interpessoais.

O conto inscrito na obra Os dragões não conhecem o paraíso (2001), segue a trajetória de dois sujeitos numa sociedade fragmentada, imersos nas questões individuais que perturbam o ser contemporâneo. A efemeridade já característica da esfera de veraneio abraça a narrativa e sustenta a ponte de identificação com o leitor, mecanismo para construção da verossimilhança.

A efemeridade na relação exposta em Mel e Girassóis que torna tudo tão real, tão palpável e sensível ao ponto de se estilhaçar

Por meio do retrato contemporâneo literário, os recursos estilísticos, o uso da cor e do imaginário e o conflito interior das personagens constroem o quadro cênico do conto de Abreu. Para tanto, manteremos o foco em como o autor brasileiro cria efeitos de sentido e articula as figuras humanas na sexualidade e na contemporaneidade.

A relação do dourado, manifestada como uma cor quente, voluptuosa e sensual, se associa à imagem do mel e do girassol e se correlata à construção cênica da obra: a cena englobante indica um tipo de discurso literário; a cena genérica conduz ao sentido do conto, como uma narrativa curta e a cenografia legitima a enunciação ao passo que constrói o quadro cênico de veraneio e transmite ao receptor a paisagem do calor tropical, assim como o sensual que se desenvolve na construção das personagens.

Além disso, uma cor descrita na narrativa, de maneira aparentemente insignificante, carrega em si um enorme peso simbólico no conto dos dois amantes submersos na modernidade líquida de Bauman.

A cena validada, nesse sentido, faz com que o leitor a associe com o cenário que se tem do mundo real, face da verdade e da verossimilhança e, portanto, se fixa facilmente em representações arquetípicas popularizadas. Dessa forma, não é difícil ao ler o conto, se lembrar de uma situação vivenciada, um casal conhecido ou uma memória recente. Em nossas circunstâncias atuais, quem nunca se perdeu no ímpeto de um amor breve de estação?

Por fim, essa efemeridade na relação exposta em Mel e Girassóis que torna tudo tão real, tão palpável e sensível ao ponto de se estilhaçar diante dos nossos olhos desatentos. Nesse caso, Caio manifesta em letras nossas questões humanas triviais, quase padronizadas, mas ainda assim dependentes de nossa profunda subjetividade.

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