Cultura

Um trotskista insubordinado

diario da manha
O doutor em Economia e professor da PUC – SP, João Machado
  • Teórico marxista descarta guerra de guerrilhas, rejeita cerco da cidade pelo campo, recusa reforma e apoia greve geral insurrecional 
  • Velho barbudo é fundador do jornal Em Tempo, em 1977, que obteve destaque à época da imprensa alternativa no Brasil da ditadura 
  • O Capital, de Karl Marx; Tratado da Economia Marxista e O capitalismo Tardio, Ernest Mandel; A revolução traída, Leon Trotsky, fizeram sua cabeça 
  • Aos 66 anos, doutor em Economia da PUC – SP, João Machado, cria a Comuna, fração pública do PSOL, uma tendência à esquerda 

 

Nascido em 17 de maio de 1951, hoje aos 66 anos, o professor – doutor do Departamento de Economia da PUC de São Paulo [PUC-SP], João Machado, parece possuir fôlego de criança. Temperado pelas lutas democráticas contra a ditadura civil e militar no Brasil, que engajou-se em 1966, em Belo Horizonte, ainda secundarista, ele fundou o jornal alternativo Em Tempo, o primeiro a publicar a lista dos 244 acusados de tortura à época dos anos de chumbo. Tempos sombrios aqueles. Animado, o velho bolchevique renovado participou da criação do PT, com quem rompeu, ao lado de Heloísa Helena [AL], Luciana Genro [RS], João Batista Babá [RJ], em 2004, para construir tijolo por tijolo do PSOL [Partido Socialismo e Liberdade], à esquerda do PT.

 

– Estudante de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais, organizamos a O – ‘Organização’. Um grupo clandestino marxista para lutar pós-1970. O líder era Aluisio Marques.

 

A Organização virou a Organização Marxista Revolucionária Democracia Socialista, seção brasileira da Quarta Internacional. A central mundial da revolução dirigida pelo economista belga Ernest Mandel, autor de O Capitalismo Tardio e de A Burocracia. O enragé se encantou com as análises de A formação do pensamento econômico de Karl Marx, conta ter adorado O Tratado de Economia Marxista, deliciou-se com A Burocracia. Ernest Mandel, além de teórico, era um continuador das lutas de Liev Davidovich Bronstein, ucraniano nascido em Yanoka, em 7 de novembro de 1879, mesma data da revolução que iria dirigir em 1917, na velha Rússia, atrasada, e que contrariaria Karl Marx, que projetava revoluções no capitalismo desenvolvido.

 

– Poder e Dinheiro e As ondas longas na economia capitalista constituem obras seminais de Ernest Mandel.

 

A Democracia Socialista [DS], que editava o jornal Em Tempo, com sólidas raízes no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, foi criada por João Machado, Aloísio Marques, Joaquim Soriano, Flávio Andrade, Virgílio Guimarães, Robson Aires, Raul Pont, informa o escritor. O primeiro militante da organização no Estado de Goiás teria sido Américo Bernardes. Década de 1980 do século XX. No auge da corrente marxista e trotskista, como no ano de 2001, a DS chegou a contar, em seus quadros, fundados no centralismo democrático, com dois  mil militantes socialistas e revolucionários, aponta o ex-dirigente. A primeira crise na ‘Era Luiz Inácio Lula da Silva’ levou à expulsão da militante trotskista cristã Heloísa Helena, senadora da República, ano de 2003, diz.

 

– Saí do PT e construímos o PSOL, que obteve desempenho expressivo nas eleições presidenciais de 2006.

A primeira corrente que João Machado atuou no PSOL chamava-se Liberdade Vermelha, em 2004. Com Heloísa Helena e Luiz Felipe Bergmann. Uma seção brasileira com vínculos com o antigo Secretariado da Quarta Internacional. O intelectual marxista promoveu, em 2005, a unificação entre as facções Liberdade Vermelha e Marxismo Revolucionário Atual. O novo agrupamento denominou-se Liberdade e Revolução. Com Flávio Serafini, Carlinhos Campos, Maria da Consolação. No mês frio de dezembro de 2005, os trotskistas se entendem e criam o Enlace. João Machado, José Correa, Gilberto Maringoni, doutor em História e professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, além de Berna Menezes [RS].

 

– O Enlace se divide, em 2011, em dois grupos: os que possuíam referências no internacionalismo revolucionário e proletário da Quarta Internacional e os que se recusaram a adotar essa estratégia. O Enlace se manteve. Os dissidentes fundaram o Fortalecer o PSOL.

 

João Machado, com paciência de um monge, marxista é claro, relata que no turbulento ano das jornadas de junho de 2013, que abalaram a República Petista, os grupos Enlace, C-Sol e Luta Vermelha formaram a Insurgência. Nas lutas de classes de 2016 e de 2017, com a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer, com as suas reformas neoliberais, a Insurgência rachou em quatro. A Insurgência manteve o nome original. João Machado e Flávio Sofiatti lideram a Comuna. Talíria Petrone, vereadora em Niterói [RJ], e o deputado estadual do PSOL [RJ] Flávio Serafini construíram a Subverta. A facção Comunismo e Liberdade também nasceu. As quatro professam as liturgias dialéticas de Karl Marx, Leon Trotsky e Ernest Mandel.

 

– A divergência que motivou o racha era sobre concepção de organização!

 

Contemporâneo da modernidade, o doutor em Economia da PUC – SP acredita que o Leninismo de 2017 não é a obediência cega a um modelo de organização conspirativa, centralizada. É possível, sim, conviver com as divergências, admite. A corrente sindical da Comuna é ‘Braços Dados’. Na juventude, os trotskistas da nova organização revolucionária atuam na ‘Rua – Juventude Anticapitalista’. Um coletivo autônomo formado por militantes que intervém na UNE, a União Nacional dos estudantes, que chegou a ser presidida por Honestino Monteiro Guimarães, nascido em Itaberaí, Goiás, e que estudava na UnB, Brasília, e hoje integra a lista dos mortos e desaparecidos do Brasil Nunca Mais e da Comissão Nacional da Verdade [CNV].

 

– A Comuna faz parte da Quarta Internacional, do seu Comitê Internacional. Com Michael Löwy e Olivier Besancenot.

 

A Comuna quer construir-se como uma organização aberta, democrática, horizontal, com um modo de vida próprio, como o comunismo, explica o pensador socialista. João Machado diz que não é possível saber como será a revolução no século 21. O que é certo é que o sujeito revolucionário é mais complexo do que a classe operária tradicional e o velho campesinato, observa. Ela terá feminismo, LGBTs, operário, camponês, estudante, ativista digital, mas não será nem cerco da cidade pelo campo, como na China, em 1949, muito menos guerra de guerrilhas, ao modelo de Cuba, 1959, com Fidel Castro e Che Guevara, crê. Acúmulo de reformas é importante, mas deve haver um momento de ruptura, dispara o ‘enfant terrible’.

 

– A revolução, quem sabe, pode incorporar um elemento de greve geral insurrecional…

 

Internacionalista, ele define o que existe, na China, hoje, como capitalismo selvagem. A classe dominante seria uma espécie de burguesia burocrática, sob o PCC [Partido Comunista Chinês], atira. Já a Coreia do Norte, de Kim Jong-Un, é classificada como uma verdadeira tragédia. Josef Stálin é rotulado, por ele, como genocida. Assim como o cambojano educado na França, Pol Pot, responsável pela morte de dois milhões de pessoas. Ho-Chi-Min matou trotskistas no Vietnan, acusa. João Machado admite que Cuba teria sido uma revolução autêntica, com poder popular e organização social, mas promoveu repressões políticas, perseguição a homossexuais, intolerância religiosa, estabeleceu regime de partido único, que condena, mas virou uma referência internacionalista e revolucionária para a América Latina, fuzila.

– Na fragmentação do movimento trotskista existem, em muitos casos, divergências estratégicas. Em outros, problemas particulares.

 

Ho-Chi-Min matou trotskistas no Vietnan

A Coreia do Norte, de Kim Jong-Un, é uma tragédia

Cuba promoveu repressões políticas, perseguição a homossexuais, intolerância religiosa, estabeleceu regime de partido único

O que existe, na China, hoje, é capitalismo selvagem

João Machado, doutor da PUC-SP

 

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