Cultura

“Só os mendigos salvam o planeta”

diario da manha

Na manhã da última segunda-feira foi divulgada a morte do cantor Daminhão Experiença. Ele tinha 81 anos e vivia no Rio de Janeiro desde a década de 1940, quando veio ainda adolescente do Estado da Bahia. Passou a ganhar visibilidade a partir da década de 1970, quando gravou seus primeiros discos, que traziam na essência o improviso musical com direito à criação de um dialeto próprio oriundo do Planeta Lamma, de onde ele afirmava ter vindo: um mundo onde “só os mendigos salvam o planeta”. Segundo o site JC Online, o músico morreu no último sábado e foi sepultado na segunda-feira no Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio. A cerimônia foi acompanhada apenas por uma vizinha e por um fã.

Apesar de sua obscuridade, exerceu grande influência na cena musical do Rio desde os anos 1970. Foi pioneiro na produção de música independente, criando um esquema de produção particular onde ele custeava, compunha, gravava e comercializava (ou doava) pessoalmente as cópias de seus discos. Planeta Lamma, seu disco de estréia foi lançado no ano de 1974 e apresentava ao mundo a identidade extraterrestre do projeto musical de Daminhão, transformando sua música em uma mensagem trazida de outro planeta, o planeta dos mendigos. Daminhão se intitulava mendigo, e apesar de ter onde morar tinha uma relação de proximidade com os moradores de rua nas redondezas da Praça General Osório.

Planeta Lamma, primeiro álbum de Daminhão, lançado em 1974
Planeta Lamma, primeiro álbum de Daminhão, lançado em 1974

Planeta Lamma é até hoje seu trabalho mais conhecido mundialmente. Nele, Daminhão toca todos os instrumentos em todas as faixas: seu violão munido de apenas duas cordas (há quem discorde desse número e diminua o número para uma), chocalho e gaita. Os vocais são entoados com uma áurea de catarse, em meio aos instrumentos que parecem ter vida própria, desrespeitando quaisquer padrões possíveis, enquanto ele expurga de forma imediata uma espécie de grunhido do caos e da confusão mental que remete ao barulho imanipulável das ruas – ambiente no qual o músico se fazia vivo. Há relatos de que ele vagava constantemente nos quarteirões próximos à sua casa, e que às vezes embarcava em ônibus aleatórios só para deixar fluir a mente em movimento.

O reconhecimento da carreira de Damião Experiença ganhou força com a internet. Na comunidade musical Rate Your Music, o álbum Planeta Lamma possui avaliações realizadas por usuários do site de várias partes do mundo. Os discos de vinil lançados por Damião são considerados raros, e podem ser encontrados por sorte em sebos do Rio de Janeiro com preços a partir de R$200,00. O próprio Daminhão havia se posicionado sobre a disponibilização de suas músicas na internet, dizendo “Pode pegar, é tudo de graça”. Um registro raro de apresentação ao vivo do artista em 2009 no Sesc Santo André pode ser visto pelo público, no Youtube. No registro o músico mostra a força da Experiença que criou durante a vida.

Obra

A tentativa de ordenar e categorizar a discografia de Daminhão também é uma experiência caótica, com uma organização semelhante à visão que descreveu o jornalista André Miranda sobre seu apartamento em ipanema, em um raríssimo momento de abertura de Daminhão à imprensa em novembro deste ano: repleto de entulhos com sujeira e paredes quebradas. Estima-se que ele produziu aproximadamente 36 álbuns, a maioria deles possui ano de lançamento desconhecido. A maioria desses discos foi produzida e prensada em formato de vinil entre o período de 1974 e 1992, quando o músico entrou em um hiato de produções até 2007, quando foram lançados Amorzinho 1914 e Sarafina 1937, em homenagem a seu pai e sua mãe, respectivamente.

(Fotos: reprodução)
(Fotos: reprodução)

Durante sua carreira, Damião Experiença vagou por vários estilos. É significante a diferença de humor entre as diferentes fases de sua obra. Nas primeiras gravações, prevalece uma sonoridade acústica semelhante ao que produziam os artistas que fundiam rock psicodélico aos elementos do folk com improvisação. Essa tendência musical ficou visível através de bandas do fim dos anos 1960 como Comus, Godz, The Fugz e David Peel & The Lower East Side, que mais tarde ostentariam a referência de precursores do ‘freak folk’, definição que surgiu somente nos anos 1990. A difusão dessa nova estética apresentada através da digestão de Damião Experiença fizeram dele um expoente para várias gerações de músicos que admiram sua liberdade de produção e aversão às gravadoras.

A fase mais elétrica de Daminhão está representada por trabalhos com maior elaboração, nos quais o músico é acompanhado por uma banda completa que atinge uma sonoridade mais próxima do rock progressivo e do blues. Os vocais passam a ser cantados em português, e transmitem mensagens gritadas que passeiam entre temas como sexo e política, misturando vertentes de pensamentos incompatíveis, o que faz com que suas letras sejam relacionadas à semiótica. Álbuns que representam bem essa fase são Planeta Guerrilha e Ezabelitaperonsim.

Na música que abre Planeta Guerrilha, ele descreve a noite das ruas: “todo mundo tem defeito, ninguém é direito, o mundo foi bem feito, não adianta prender, não adianta prender, não adianta matar. Vocês tem que entender. Vocês só sabem criticar as mulheres das ruas, e as travestis, e as mulheres das enxurradas. Não sabem que vocês que eles são seres humanos gerados de vocês”. O músico já afirmou ter sido cafetão nas noites do Rio de Janeiro.

O músico Rogério Skylab é um fã declarado de Daminhão Experiença, e inclusive produziu um disco em homenagem a ele, o Skylab III, lançado em 2002. Rogério, que apresentava um programa de entrevistas no Canal Brasil, contou através do texto Damião Experiença: a entrevista que não houve, publicado em 2012, sobre a tentativa frustrada de entrevistar o músico, que encontrou por sorte pelas ruas, recebendo o convite para um café. “A conversa se desenvolveu em meio a delírios e lucidez. Disse-me que sua mãe era judia e seu pai, russo. Falei-lhe do meu programa e que tencionava entrevistá-lo. Pediu-me que desistisse, que até o Jô Soares tentou levá-lo e não conseguiu.Eu o fiz ver que ele era a minha principal referência. Cheguei a dizer-lhe que era um gênio, mas ele fez pouco das minhas palavras”, conta o músico.

Biografia

Damião Ferreira da Cruz nasceu na cidade de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, no ano de 1935 (segundo algumas fontes esta data nunca foi oficialmente confirmada). A aversão do músico às entrevistas acabaram criando uma lacuna biográfica em torno da figura de Daminhão Experiença, o que torna difícil separar as lendas das realidades. Existe espalhada por artigos em blogs sobre música de que ele chegou ao Rio de Janeiro para trabalhar na Marinha ainda bem jovem. Até os últimos anos, viveu em um apartamento em Ipanema, recebendo pensão da Marinha Brasileira, onde trabalhou como operador de radar até ser reformado em 1963. Sua aposentadoria precoce por invalidez foi motivada por um acidente de trabalho.

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