Cultura

No Timbre: Rock clássico reinventado

Em entrevista exclusiva, a banda The Galo Power conta como marcou posição no cenário goiano com músicas explosivas e a reciclagem do bom e velho rock n' roll

diario da manha
Ilustração: Rabiscos e Escarros

É pensar em rock clássico, revisitando os melhores nomes do estilo que reinaram no final dos anos 60 e 70, imaginamos um hard rock, os timbres psicodélicos e muita energia nos palcos. Foi nessa estética que os rapazes da The Galo Power reinventaram o clássico e forjaram um som autoral próprio e diversificado, com abertura a letras em português e até mesmo implantando uma tipicamente goiana, viola caipira.

O quarteto tem a formação clássica, com Rodolpho Gomes (26) no baixo e viola caipira, Thomas Bove (27) no órgão elétrico, piano e guitarra. Evandro Gallo (29) é o baterista e, finalmente, Bruno Gallo (27), guitarrista e vocalista. A formação atual teve de passar por voltas um tanto rocambolescas para chegar na harmonia que eles imaginaram.

A The Galo Power surgiu como uma fuga, Bruno e Evandro são primos e, quando passaram para os cursos de Química e Filosofia na UFG, respectivamente, foram morar juntos em uma república. Nessa época, Evandro começou a aplicar Bruno, nas melhores e mais clássicas bandas do rock mundial. “Quando conheci essa nova realidade musical, com meu primo e a galera que morava com a gente na república, comecei a estudar, desenvolver e a tocar guitarra” contou Bruno. Em meados de 2006, ambos começaram a ensaiar e a tocar juntos, como um passa tempo, brincando inicialmente com covers dos grupos setentistas que eles ouviam e curtiam juntos.

Para Evandro, a dupla formada com seu primo, nas épocas áureas da juventude universitária em que moravam na república, foi fundamental para formar os alicerces melódicos e também o estilo do que viria a ser o Galo Power. “Tocávamos um violãozinho com uma meia-lua, o nome artístico era Brunão da Arapuca and Evandro Catrina, nessa época já começou a rolar as composições autorais” – Na época, pela dificuldade e quebradeira econômica, logo na primeira vez que ensaiaram em um estúdio, com uma guitarra emprestada, já gravaram a primeira música da banda, a versão que viria entrar no disco.

“Somos uma banda atual com reflexo no antigo,um novo antigo rock”

Os rapazes fazem questão de pontuar, que apesar do que está posto, como “rock clássico” não deixam de mão, as referências do blues, funk e progressivo. Talvez por isso, é possível logo de cara sacar a música que foi reinventada, com toques de psicodelia brasileira também, como O Terço, Ave Sangria, O Som Nosso de Cada Dia e Mutantes.

Foto - Renato Vital
Foto – Renato Vital

No começo ainda não tinha baixo, mas os dois já tocavam e se apresentavam nos locais que eventualmente promovem a efervescência de novas bandas: o pátio do FCHF na UFG, DCE da UFG, Casa das Artes (que foi demolido) e o palco do café no Cine Ouro, por exemplo. Finalmente em 2007, os primos convidaram o Rodolpho para encaixar os tons de grave na banda e já lançaram o nome, The Galo Power, que estreou pela primeira vez, na primeira edição do festival Perro Loco.

Um dos prováveis motivos da banda ter decolado, foi a influência conjunta na qual os parceiros do grupo nadam e bebem com constância e de bom grado. “Ouvíamos muito The Kinks, The Who, Grand Funk e outras desse mesmo período” comentou Evandro. Apesar de que individualmente cada integrante tem suas preferências, a linha que leva os acordes da Galo a frente é o som do hard rock, Progressivo e a psicodelia dos anos 70, “nisso entra todos os jargões né, Deep Purple, Cream, Led e Black Sabbath, a gente absorve de tudo, mas sem se espelhar nisso, mas fazendo o nosso próprio som” completou o baixista Rodolpho.

“Quando começamos o que predominava na cena local era o Hard Core, o Stonner estava apenas começando a se desenvolver, antes de se estabelecer como um padrão goiano musical” comentou Bruno, dizendo que ainda sim tinha uma aceitação boa e o público comparecia aos shows. “Mesmo que a banda tocasse esse som, 20 anos antes ou 20 anos depois de agora, acho que sempre teria um público especifico, porque abordamos uma coisa de raiz, o inicio desse processo que chama rock n’ roll” completou o vocalista.

No inicio de 2010, quando o grupo estava terminando de consolidar as músicas autorais que entrariam no primeiro disco, quando na época o então “power trio” concordaram que seria bacana encaixar um vocal feminino da estética da banda. Então a convocada para ocupar esse espaço, foi a Salma Jô, que atualmente estourou nacionalmente como vocalista da também goiana Carne Doce. Salma chegou a participar de alguns shows e da gravação do primeiro disco do grupo que saiu em 2011, com o nome de “Ancient Rise” com o selo goiano da Two Beers or not Two Beers e gravado no Loop Studio.

Foto - Renato Vital
Foto – Renato Vital

“Conhecemos a Salma pelo Orkut na época, porque assim como nós ela também era muito engajada com a cena independente local” revela Bruno. O vocalista comenta que as discussões promovidas dentro da antiga comunidade “Goiânia Rock City” levantavam questões até hoje atuais, como as panelinhas de estilos e nomes que se repetiam e perpetuavam nos festivais. A banda ficou mais conhecida e com uma diferenciação das demais, por ser uma das poucas que colocava uma mulher como linha de frente do projeto. Acabou que Salma ficou pouco mais de um ano na Galo Power, mas os integrantes avaliam como extremamente positiva a participação e contribuição dela durante sua passagem. “Uma voz e uma presença feminina na banda, deixou muito mais atraente musical e visualmente assistir um show nosso” completaram.

O primeiro disco serviu para dar um pontapé inicial, sendo seis canções com a participação da Salma e outras duas de outras gravações. Apesar da pouca tiragem, o Ancient Rise, deu uma certa circulada e gerou um respaldo ao grupo, consolidando de vez a The Galo Power no cenário alternativo de Goiânia. Todas as oito músicas do disco são cantadas em inglês, e cada letra conta fases da amizade entre os integrantes do grupo. No mais eles cantam sobre o amor, a onda e as características das músicas dos anos 60’ e as relações humanas como um todo, de forma intimista. “As fritações do cotidiano também estão presentes nesse primeiro disco” completou Bruno.

A entrada de Major Tom

Apesar de não se tratar de um alter ego de David Bowie, a entrada do tecladista Thomas Bove mudou, consideravelmtente, a sonoridade da banda, para melhor. “Ele entrou como uma mente criativa, que produz músicas e letras, além de trazer novas pegadas melódicas. De cara já produzimos umas seis novas músicas e sentimos uma urgência de lançar o segundo disco”, comentou Rodolpho.

O tecladista Thomas fez questão de pontuar que antes de entrar para o grupo, sempre assistia aos shows da banda e que conheceu o som em 2011, quando foi em uma apresentação e pirou no som dos caras. “Eu fui para assistir um show do Space Truck, justamente porque não conhecia outras bandas locais que faziam esse tipo de som, ai escutei os caras tocando um cover de Grand Funk e gostei demais, porque tem uma carência de Hard Rock em Goiânia”, completou.

Foto - Renato Vital
Foto – Renato Vital

No final de 2011, segundo Thomas, assim que ele entrou no grupo coincidentemente quando um dos sócios tinha saído da Monstro e isso fez com que eles tocassem no primeiro Goiânia Noise. “A gente se aproximou da galera, nos veiculamos a Monstro e isso abriu muitas portas, tocamos em todos os festivais e fomos para fora de Goiânia também, como no Porão do Rock em Brasília”, comenta.

Nesse momento de auge do grupo, com muitos eventos em casas de shows e uma cena musical em efervescência, após um ano produzindo aos poucos já lançaram o segundo disco. O álbum Lysergic Groove (O groove lisérgico), marca a entrada de Thomas com o órgão e o piano elétrico. “Nós decidimos gravar fora de Goiânia, justamente para fugir desse padrão Stonner que estava sendo imposto na época, fora que queríamos uma estética retrô com a sonoridade dos anos 70 de fato”, revela Bruno.

O quarteto partiu rumo ao sul, para a cidade de Farroupilha – RS, onde encontraram a gravadora Jardim Elétrico. No melhor estilo, que agradaria olhos, mentes e ouvidos do glorioso Arnaldo Baptista, utilizaram o equipamento todo valvulado e rolos de fita. “Na tora decidimos gravar ao vivo as nove músicas do disco, o que deixou o Lysergic mais bem trabalhado”. As letras continuam na essência dos relacionamentos humanos, mas introduz questionamentos comuns da existência, como Deus, o bom e o mau e “as fritações psicodélicas que a gente sempre vai incorporar” comentou Bruno. O disco foi lançado em 2013 pelo selo da Monstro Disco, consolidando a parceria.

A Galo Power deu um segundo passo com o Lysergic Groove, mantendo a raiz, porém de forma mais profissional e mais bem divulgada. Deixou uma boa referência e um ótimo “currículo” para o grupo

Foto - Renato Vital
Foto – Renato Vital

Outras ondas

Sobre o Festival Juriti de 2014, o qual a banda conquistou o terceiro lugar na categoria de Melhor Música, com a canção: Ser Estelar. Como um dos critérios para a participação no festival era a letra da música ser em português, os integrantes da Galo Power juntaram uma antiga vontade e provocação e se arriscaram nessa música específica. O resultado foi muito bom, porque misturou os riffs poderosos clássicos do grupo, com a sonoridade tipicamente brasileira, com uma viola caipira dando a temperada na melodia. “Tem influências na cultura caipira mesmo, tipicamente goiana e foi composta na viola para dar certo o som” completou Rodolpho.

Ilustração: Rabiscos e Escarros
Ilustração: Rabiscos e Escarros

Sobre a expressão que se popularizou e ecoou como pólvora Brasil a fora, sobre a cena independente da cidade Bruno dá uma cutucada: “Goiânia não é Rock City, nem a Seatle brasileira, se for para fazer um comparativo aos Estados Unidos, aqui seria o Texas. Com um rock bem mais sujo, redneck mesmo”, declarou o músico. Para o baixista, seria a capital do rock independente, porém não um fenômeno exclusivo da capital, mas que acontece muito no Sul e no Nordeste do país também.

No dia seis de Junho, a banda lançou o primeiro videoclipe, gravado no maior esquema trash da cidade, no putréfo e mais true local de rock da cidade: o Capim Pub. O clipe da música Murderer, remete a estética dos primeiros videos do Black Sabbath, com a história paralela de um assassinato frio e sangrento. Lançado na internet, teve uma alta taxa de visualização e chegou inclusive a ganhar três prêmios no 2º festival de Videoclipes Ifidevidula, sendo eles de melhor canção, produção e montagem.

Além disso, o grupo já está trabalhando em um terceiro disco, que está sendo ensaiado e gravado em um home studio na casa do tecladista Thomas, então para os fãs em breve deve ter novidade dos caras na mesa.

Depois de uma longa conversa nos jardins psicodélicos do Diário da Manhã, os rapazes da The Galo Power se despediram mandando uma última mensagem ao público, afinal coisas boas não envelhecem, se tornam clássicas:

“Somos uma banda que usa o clássico para colocar as questões autorais. Passamos a infância ouvindo Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Alan e Aladim e outras coisas do tipo nos churrascos de Domingo, então crescemos com muita vontade de ouvir e tocar um rock n’ roll. Então, a Galo Power é o tipo de banda que vai fazer você sentir vontade de tocar guitarra e dançar igual seu pai e mãe quando dançavam nos anos 70.”

No Timbre: The Galo Power - Foto - Renato Vital
No Timbre: The Galo Power – Foto – Renato Vital

Comentários