Cotidiano

Existe ciúme saudável, até que ponto isso é possível?

Especialista explica que a partir do momento que o parceiro começa a interferir significativamente na vida do outro, colocando e pautando sua relação romântica no ciúmes, é necessário ter cuidado.

diario da manha
Foto: Reprodução

Quantas vezes nos deparamos com relatos de ocorrências policiais, em que alguém acaba por matar o outro movido pelo ciúme? Esse sentimento é estimulado e expresso de formas diferentes pelos indivíduos, mas nem sempre é algo ruim, podendo ser saudável.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento, o ciúme é controlado pela mesma estrutura cerebral responsável pela dependência de drogas. Esta região, que faz parte do nosso sistema de recompensa é responsável por motivar a busca e proteção do objeto do nosso desejo.

Segundo os estudiosos da área, a principal substância que controla essa região cerebral é o neurotransmissor Dopamina, relacionado à sensação de prazer. Contudo, o hormônio da ocitocina – produzido em massa, mediante a visão da pessoa amada –, faz aumentar a produção de dopamina.

Para a neurobiologia, as pessoas ciumentas são mais sensíveis à estimulação da ocitocina. Desta forma, ao ver a pessoa amada ou ouvir sua voz, a ocitocina hiperestimula a liberação da dopamina, que hiperestimula o núcleo accumbens, que torna a pessoa fissurada pela amada. Assim, quanto maior a intensidade, maior será o grau do ciúme.

Afinal, existe ciúme saudável?

O senso comum acredita que o ciúme saudável se confunde com preocupação e excesso de zelo, de carinho, sendo um sentimento que faz com que o outro se sinta valorizado e importante no relacionamento.

Nesta semana, o DM realiza uma série de reportagens sobre o tema. Como já vimos, o ciúme pode ser a porta de entrada para um relacionamento abusivo, pode ser negligenciado e naturalizado pela sociedade e vimos também o lado de quem sofre as consequências negativas desse sentimento.

Agora, o DM traz uma entrevista com a psicóloga Priscila Barbosa de Oliveira, graduada em psicologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), que explica um pouco mais sobre o assunto. De acordo com ela, o ciúme é o medo da perda – no caso de relacionamentos amorosos, existe um nível considerado normal, “seria aquele baseado em fatos concretos e possibilidade real”, diz.

“O ciúme é universal”

– Cientificamente, o que é o ciúme?

Há várias maneiras de se entender o ciúmes, até dentro da própria psicologia. O que se tem de consenso é que, apesar de ideais antropológicos, talvez utópicos, o ciúmes é universal. No geral, ele é o medo da perda, uma reação a uma ameaça, sendo essa imaginária ou não, em que o indivíduo pode perder o seu lugar na vida do parceiro (Pines, 1992).

– Há relação entre ciúmes e amor?

Quando a gente fala sobre amor, é importante lembrar que o amor conhecido, romântico, é uma criação social. O ser humano é, necessariamente, evoluído para conviver em sociedades. Com todo o processo de evolução, foi necessário que se constituíssem maneiras sociais de perpetuar a espécie, surgindo as relações e instituições que conhecemos hoje, como casamento, por exemplo.

Tendo claro isso, a relação mais didática a se fazer entre ciúmes e amor é a sensação de perda potencial do seu parceiro para alguém que seja mais atraente, sedutor, gratificante e outros atributos que o ciumento encontra na ameaça. E isso já explica a relação entre ciúmes e insegurança.

O medo da perda

Conforme explica Priscila, na iminência da perda, real ou imaginária, o indivíduo percebe a ameaça de uma maneira possivelmente equivocada, potencializando características “boas” e diminuindo suas características. “Ele apreende que, se “fulano” está interessado em outro (a), é por que as qualidades que, outrora tivera, agora já não fazem sentido ou não são interessantes”, aponta.

– Quando é saudável sentir ciúmes? Até que ponto?

Essa é outra questão complexa quando lidamos com ciúmes pois cada teórico apreende um nível considerável normal e não patológico. Considerando que haja a divisão entre comportamentos normais e patológicos, o normal seria aquele baseado em fatos concretos e possibilidade real de perda. Já o patológico, o que percebemos, principalmente, em relacionamentos abusivos, seria o que se pauta em relações não reais, imaginárias e/ou de nenhuma probabilidade real de perda.

– Pode ser considerado um distúrbio? Pode ser tratado?

Não consideramos, dentro da literatura, como um distúrbio, mas está relacionado a outros comportamentos que, sim, são considerados – ansiedade, por exemplo. Contudo, como se trata de uma emoção humana que pode se relacionar a comportamentos, estes abusivos ou não, o ciúmes é totalmente passível de tratamento. Isso seria com um conhecimento profundo de si através de terapia, por exemplo.

– Como lidar com o ciúme? Encará-lo como algo normal ou ter cuidado?

Isso depende, principalmente, em que nível está esse ciúmes e se ele traz prejuízos reais para o ciumento e seu parceiro. Por evocar respostas muitas vezes primitivas, como sensação de perda, medo, ansiedade, há como trabalhá-lo para que não cause grandes prejuízos a quem sofre com ele. Contudo, a partir do momento que o parceiro começa a interferir significativamente na vida do outro, colocando e pautando sua relação romântica no ciúmes, é necessário ter cuidado. Isso ocorre em relacionamentos abusivos em que o abusador apreende o parceiro (a) como seu objeto e entende tudo a sua volta como ameaça.

– Como a Psicologia pode nos ajudar a lhe dar com ciúmes?

No contexto geral, a psicologia possibilita o indivíduo a se entender como sujeito, a lidar com situações estressoras e resolver seus problemas, por exemplo. Em qualquer aspecto de sofrimento humano, a profissional ou o profissional de psicologia são essenciais para se estabelecer uma vivência menos dolorosa para aquela pessoa. Então, no caso específico do ciúme, por exemplo, tanto a pessoa que sofre com ciúmes quanto seu parceiro entenderiam maneiras de manter o relacionamento amoroso e romântico saudável, desconsiderando ameaças não reais e, quando houver ameaça real, conseguir dialogar e resolver o problema de maneira que não haja danos emocionais consideráveis.

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