Cotidiano

Orgulho de ser o que se é

Conheça a história do ativismo LGBT em Goiás e algumas vozes de resistência

diario da manha
Foto: Reprodução

O Dia do Orgulho LGBT não foi contemplado com as famosas passeatas e eventos de simpatizantes e comunidade, nas principais avenidas das capitais brasileiras neste domingo (28), devido a pandemia de coronavírus. Contudo, inúmeros eventos online e manifestações nas redes sociais lembraram sobre a importância destas vozes na formação de uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

A Parada Gay, realizada em São Paulo é uma das festividades mais importantes da comunidade no Brasil. Em 2019, o evento, realizado na Avenida Paulista, reuniu cerca de 3 milhões de pessoas e movimentou R$ 403 milhões, de acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, em São Paulo.

Tais comemorações e eventos só foram possíveis quando as primeiras vozes começaram a se levantar nos anos 90, no Brasil como um todo e também em Goiás.

Ativismo LGBT em Goiás

Em meados de 1980, inicia em Goiânia, uma tentativa de militância homossexual, com um grupo denominado Triângulo Rosa, organizado dentro do Partido dos Trabalhadores (PT). Contudo, apenas em 1990 o movimento surge em Goiás, simultaneamente com as iniciativas LGBT em outras partes do Brasil.

De acordo com pesquisas realizadas pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade, da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ser-Tão, nesse cenário, a manifestação dos grupos LGBT em Goiás está intimamente ligada ao enfrentamento da aids, em um período, no qual os estudos sobre homossexualidade ainda são tímidos nas universidades e as representações de pessoas LGBT na mídia, na maioria das vezes são negativas.

Ainda, segundo o Núcleo de Estudos, era crescente o mercado de trabalho segmentado voltado a essa população e de “estreitamento cada vez maior das relações entre o movimento LGBT e o Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde”.

Grande marco

Foto: Reprodução

Em 1995 foi fundada a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), no Rio de Janeiro. E foi apresentado, pela então Deputada Marta Suplicy, o Projeto de Lei nº 1.151, que dispõe sobre a parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo – uma das principais bandeiras de luta do movimento LGBT brasileiro ao longo de muitos anos.

Em Goiás, no mesmo ano, nasce a Associação Ipê Rosa de gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transexuais, filiada à ABGLT. No acervo da associação, um documento explica as motivações da criação do grupo.

“A Associação Ipê Rosa foi criada em 1995, destinada à lutar contra a violência, discriminação e o preconceito contra as minorias de orientação sexual (gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais), conscientizar também a sociedade civil sobre o direto de orientação sexual, além do trabalho de prevenção de DSTs e AIDS, feito em conjunto com outras. Em Goiás, ainda hoje somos vítimas de uma sociedade eminentemente agrária e por isso, mais autoritária, machista e patriarcal do que o restante do país, o que torna urgente o nosso trabalho.”, diz o documento.

E mesmo hoje, em pleno século XXI a pauta sobre preconceito, respeito a diferenças e minorias ainda está em voga. O motivo? Os discursos de ódio continuam reverberando em suas mais sutis ou escancaradas formas.

Enunciados

Estudante de Letras da UFG Rodrigo Neves. Foto: Reprodução/Instagram

O brasiliense Rodrigo Neves tem 22 anos. Com 18 veio para Goiânia estudar Medicina Veterinária na UFG, curso que veio a abandonar depois de um ano, após perceber que outras aspirações o chamavam, como a literatura.

Transferiu-se então para Letras Inglês e pôde se dedicar com exclusividade aos estudos literários, mas na metade da graduação se apaixonou pela análise do discurso.

“Partindo da ideia de que tudo é ideologia e que a mesma exerce inúmeras funções, como a coesão de um grupo ao justificá-lo e naturalizá-lo, as instituições são atravessadas por vários enunciados e formações discursivas. Estas instituições (podemos citar a religião, a educação, o esporte, etc.) têm um modo de funcionamento e estão a serviço de alguma coisa.”, explica o estudante.

Para Rodrigo, a ideologia cria formas de justificar os enunciados contra a comunidade LGBT de forma estrutural, seja através do discurso religioso e até mesmo capitalista, com a lógica de consumo.

“Porque não se pode ser homossexual? Não existe nenhuma justificativa real e coerente sobre isso, mas a ideologia cria discursos para criminalizar tais práticas e consegue, inclusive convencer os próprios homossexuais de que seria algo errado, que deveria ser escondido, que teria locais apropriados para isso acontecer. Tirar isso do ambiente público é um problema porque cria uma naturalização dos discursos homofóbicos”.

E continua, “Essa estrutura que é homofóbica, machista, misógina e racista realmente existe e grita na nossa sociedade.”

O próprio estudante, que é homossexual, conta que já sofreu com comentários e olhares discriminatórios quando saia com algum companheiro em espaços públicos.

“Já sofri preconceito com comentários que você escuta quando está na rua, quando sai com alguém, mas nunca fui agredido, como muitos já foram”.

Rodrigo ainda ressalta que “o fato de ter que se assumir, carrega em si uma presunção de heterossexualidade, como se a sexualidade fosse dividida apenas em hétero e homo, como sinônimo de certo e errado”.

“Dores e delícias de ser o que se é”

Foto 1: Fôlego (2018) Autorretrato

Entender seu lugar no mundo e imprimir significado em sua vivência faz parte da trajetória do estudante de Artes Visuais da UFG e artista Jhony dos Santos Aguiar.

Filho adotivo de pais que se separaram, cresceu cercado de influências femininas, ao conviver com quatro mulheres dentro de casa: três irmãs e uma mãe cabeleireira e costureira – “mulher guerreira do dia a dia”, conta.

“Fui a criança pega pelo pai passando esmalte nas unhas. Esmalte, objeto que estava ali, tão comum dentro do meu cotidiano. Fui pega pintando as unhas e de toalha na cabeça, cantando meus hits prediletos, em meados de 1999 e 2000”, lembra.

Negro e homossexual, as experiências que passou, desde a perda da mãe, quando tinha 16 anos, às adversidades para se manter estudando, tendo que conciliar estudo com trabalho, sinalizavam, desde cedo para o jovem, que a cor da sua pele e orientação sexual, de fato, interferem no tratamento recebido por ele, das outras pessoas.

Jhony Aguiar, 27 anos. Foto: Gabriel Barros

Ele lembra um episódio em que foi vítima de violência física, quando saía de um evento no centro de Goiânia. “Ao sair acompanhado do meu parceiro de um evento no centro, voltado ao povo, fomos agredidos. Ambos negros, ambos gays, ambos artistas. Eram cinco caras, um deles nos viram juntos e deu uma voadeira em mim. Só não me agrediu mais porque meu companheiro não deixou. Havia pessoas no ponto de ônibus. Ninguém fez nada. Quando o ônibus do agressor chegou, foram embora gritando coisas ofensivas”, conta.

Lugar de fala

“VOCÊ” – 2020 (Fotografia)

Ao entrar na universidade, influenciado pela irmã, Greice Aguiar, professora e artista, um mundo de possibilidades brilhou aos olhos de Jhony e uma oportunidade de “autodescoberta e fruição” emanaram daquele ambiente, que viria a repercutir em seu posicionamento na arte e nos lugares de fala que ele poderia atuar.

“A universidade foi uma deliciosa oportunidade, não só para entender as minhas questões, mas como elas estão entrelaçadas e amarradas com a questão do outro, do coletivo”.

Lá ele conheceu suas maiores influências dentro da arte, como Rosana Paulino, Dalton Paula e Priscila Resende. Artistas negros e referências para o estudante, que ressaltou a importância da representatividade.

“Através da arte encontramos nossos pares, através da música. E partindo para questões que vão além do ”G” de gay, do LGBT, eu, enquanto artista, tendo a oportunidade de ser voz, de achar o meu lugar no mundo, de ser referência se possível, falando de um lugar, onde eu devolva tudo que nos falta. Tudo que falta para a vivência negra, trans, gay, queer. Gosto muita da frase da Ângela Daves que diz: ‘quando uma mulher negra se move, o mundo todo se move’. E parafraseio: “Quando uma bicha preta faz arte, o mundo todo se move.”

O trabalho “Série Dicionário”, de autoria de Jhony, inverte palavras e significados dentro do dicionário, criando uma situação dissonante, através de frases que partem do inconsciente coletivo. Nesse lugar de fala, o artista denuncia o preconceito arraigado da sociedade.

Série Dicionário – “Homossexual” – (2018) – Colagem
Série Dicionário – “Negro” (2018) – Colagem

“É importante reconhecer o lugar de fala e reverter esse ódio que o sistema cotidianamente nos insere. Nas artes eu vejo a possibilidade de levar o meu corpo para outros lugares. Lugares de resistência cotidiana, de afirmação, onde eu possa colocar o outro pra pensar e se questionar de como as coisas são simplesmente dadas. A minha arte é um veículo de comunicação, inclusive para os meus familiares. Uma forma muito explícita, escancarada, franca, aberta, ilustrada, desenhada, esculpida, para que eu possa me fazer entender, inclusive para com os meus próximos.”

Comentários