Cotidiano

Ritual de cura pela fé

diario da manha
Benzedeira Maria Eneri (50) e Ilton Junior, da Comissão de Folclore de Bela Vista: preservação da história e cultura religiosa(FOTOS: LAUANE VERISSIMO)

A benzeção é uma prece fei­ta pelos homens através da força da fé e do pensamen­to elevado aos espíritos da boa ilu­minação com pedidos para con­ceder a cura, trazer bênçãos e limpeza do espírito. Ela é o meio que concede ao seu guia a possi­bilidade de estabelecer relações de solidariedade e de pacto com os santos de um lado, e com os homens do outro entre ambos si­multaneamente. Uma condição de concentração e animosidade efetuada por meio do amor ao pró­ximo e da espiritualidade ligada ao divino que é considerada um dom que não pode ser forçado, pois acontece naturalmente e é en­sinado por mães avós e avôs. Uma crença que independe de qual­quer religião ligada fortemente pe­las forças da fé e da caridade com o propósito de cura do corpo e da alma. O benzimento ganhou força no Brasil com a chegada dos imi­grantes e da colonização. Nessa época as classes que predomina­vam sobre a cultura do benzimen­to eram parteiras e benzedeiros.

O OFÍCIO

“As benzedeiras e benzedores encaram seu ofício como um ser­viço assumido por tradição, por acreditarem no bem que fazem aos outros. Não cobram pelos serviços prestados, mas muitos dos que procuram seus servi­ços costumam levar presentes como forma de agradecimen­to. Não saem nas ruas oferecen­do seus serviços, mas recebem todos que os procuram”, diz Lu­cinete Morais, 37, antropóloga.

Ela revigora as forças da alma e do espírito deixando a pessoa em um estado de tranquilidade e paz interior elevando seu estado men­tal, fazendo com que a pes­soa que recebe a benção reno­ve suas forças, espantando as más energias, trazendo cura . Ao decorrer da benzeção a pessoa sente lapsos de leveza, internalizando as re­zas feitas ao longo do processo, e assim mentalizando somente coisas boas; se sente bem mais leve após acabar. Um dom que foi internalizado dentro de uma cultura antiga e eficaz que revela saberes até os dias de hoje sem uma explicação evidente de sua eficiência. Uma oferenda sim­ples que não depende de dia, horário, ou local para ser prati­cada. O benzedeiro Senhor Ma­noel Ducéu, 71, conta um caso em que encontrou uma mulher doente, e logo no outro dia após benzê-la ela já estava melhor: “Um dia cheguei no Hospital da cidade, e Dona Corvina estava com erisipela (infecção de pele), coisa mais feia do mundo. Ela disse–acho que minha perna vai cair. Fui na frutaria comprei uma abóbora bem grande, cortei um pedaço dela, passei nas pernas dela e benzi, peguei as sementes e enterrei. No outro dia fui ao Hospital e dona Cor­vina tinha se recuperado da erisipela.

Antropóloga e gestora de pro­jetos na Luppa Luz de Projetos de Patrimônio e Arte, Lucinete Morais conceitua um pouco so­bre a cultura de benzeções: “Em termos de relevância cultural, a transmissão do dom da benze­ção possibilita a continuidade da tradição arraiga­da no meio popu­lar. Muitos herda­ram de seus pais e avós o dom de ben­zer, outros o dom é nato e fica ali iner­te até a revelação”. E ainda complemen­ta sobre o dom: “A descoberta do dom é como renascimen­to, o benzedor ou benzedeira passa a viver uma nova vida, sob novos códigos, símbolos e a favor da comunidade. O reconhecimento do dom vem pela eficá­cia do encontro afe­tuoso – da fé do que benze e a crença do que é benzido, re­sultando na cura”.

Geralmente os ri­tuais de benzeção contêm trechos que são repetidos como mantras sendo repassados às pessoas que querem aderir às crenças de ben­zer e guiados como uma tradição. São trechos que falam sobre luz, limpeza espiritual e física, cura, iluminação e bênçãos. Trechos repetidos várias vezes encerran­do com a reza do Pai Nosso ou Ave Maria. Nas bênçãos são uti­lizados diversos apetrechos para realizar o rito, geralmente são ra­mos de folhas e em maioria das vezes é utilizada a arruda (que no dicionário popular representa a planta que espanta mal olhado e inveja). Dona Iulina Carolina da Silva, 82, benzedeira há mais de 20 anos conta como são os trechos de suas bênçãos: “Você está com mau olhado? Está com inveja? En­tão vou benzer: “Eu vinha pelo ca­minho e encontrei Nossa Senho­ra, sentada na pedra fria e curava todo mal que havia, especial fula­no que o mau olhado, inveja, ma­gia negra, macumba, feitiço, feiti­çaria, mal-estar, baixo astral, mau humor, nervoso, dor de cabeça, e tudo de ruim que sentir; Ave Ma­ria, Ave Maria, Ave Maria. Reza da Ave Maria ao final”

Placa do Museu de Santo Antônio de Goiás (a 17 quilômetros de Goiânia): fé e cultura se misturam no interior goiano

Contato com as benzedeiras

Avenida Walter Carneiro Machado, quadra F, lote 23, n. 876, Setor Campos 1, Santo Antônio de Goiás

 

A força do raminho de arruda

 

A maneira que se benze, bem como os objetos utilizados, de di­ferentes maneiras, visam princi­palmente a cura do corpo e da alma como explica o benzedor Celino, 51 anos, morador da ci­dade de Goiás, na comunidade quilombola Alto Santana: “Tinha muito benzedor que usava o sím­bolo como um raminho, folha de arruda ou guiné, até mesmo o fe­degoso. Tem outros que benze, igual o cobreiro, usa o talinho da mamona. Agora da minha par­te, se tiver o rosário pela simples fé da pessoa. Um simples gesto já serve… porque o escudo a gen­te sabe que tem sempre ao redor, a aura toda formada, né? Porque um gesto que você faz é um sím­bolo do pensamento elevado ao Pai criador…”, comenta.

Dona Iulina C. contou em entre­vista ao Diário da Manhã que apren­deuabenzerporcausadeumadoen­ça de seu filho. A curiosidade por benzer se deu por causa de uma en­fermidade do filho ainda pequeno, por causa de uma febre forte e mal es­tar ela procurou uma benzedeira da cidade que ao benzer curou imedia­tamente aquele mal estar, e após foi aprendendo a benzerdesenvolvendo uma forma própria de benzer adicio­nando mais palavras às suas rezas e orações em seus rituais e hoje pratica a crença com muita fé benzendo até mesmo quem não solicita suas ben­zeções: “Eu aprendi a benzer por que o meu menino deu uma febre a noite e eu fiquei sem saber o que eu fazia, levei na benzedeira logo cedo, e ele se curou ali naquela mesma hora, aí eu falei,–nossasenhoracomadremeen­sina a benzer–e ela me ensinou”. Um dom que ela descobriu por curiosi­dade, foiaprendendo, foibenzendo, e hojeéumadasbenzedeirasmaispro­curadas em Santo Antônio de Goiás (a 17 quilômetros da UFG).

A palavra “benzer” vem de vá­rios significados, um deles signi­fica: fazer o sinal da cruz, é este o símbolo que dá início à benzeção. São diversas as doenças pelas quais as pessoas procuram as benzeções em busca de cura e limpeza: co­breiro, quebranto, vento-virado, mau-olhado, espinhela caída en­tre muitos outros nomes que dis­tantes do universo científico, fa­zem parte de um mundo místico, povoado de benzeções, orações, crenças, rezas e simpatias. Narareth Cândida de Freitas, 52, benzedeira, todas às quintas-feiras abre as por­tas do Museu de Santo Antônio de Goiás para receber pessoas que querem benzer, e ela explica como vê a perspectiva das benzeções: “A benzeção ela é energia, você con­segue benzer qualquer pessoa de longe. A energia ela vem do uni­verso, e pela fé ela vai longe. A ener­gias ultrapassam vidas. A benzeção ela não pode ser negada”, destaca.

ERVAS

Alguns benzedeiros após benzer uma doença indicam algumas er­vas para auxiliar na cura de algumas doenças benzidas como explica Lu­cinete Morais: “Benzedores(as) são procurados para solucionar pro­blemas de saúde, concorrendo muitas vezes com a própria medi­cina, e oferecendo uma alternati­va aos mais necessitados. O ritual de benzer apresenta três fases que compõem o processo ritualístico: o diálogo, a benção e por fim as pres­crições com orações ou mesmo chás e ervas”, afirma. Ela também fala sobre a relevância imaterial que estas tradições têm para com a sociedade: “São conhecidos pela cura das moléstias ou resolução dos mais variados problemas humanos. Além de benzedores e benzedeiras, são também conselheiros e conse­lheiras. São guardiões desse patri­mônio imaterial que une o mundo material e espiritual”.

Quem não recorda dos pais le­vando os filhos para benzer quan­do pequenos? Antigamente a ben­zeção era uma tradição muito forte nas famílias. Era preciso benzer o filho ao menos uma vez ao mês para que não contrair doenças, e manter os maus espíritos bem lon­ge do sono dos pequenos. Hoje a tradição ainda existe, mas com bem menos fervor. A benzeção é tida hoje como um “lavar de almas”, uma restauração das boas energias, e o reencontro com o espírito.

Além de curar doenças ela tam­bém traz alívio para dores tanto fí­sicas quanto espirituais. O benze­deiro Ducéu fala um pouco sobre como aprendeu a benzer: “É um dom que vem pela mãe da gen­te. Minha mãe ela era benzedeira e me ensinou a benzer desde pe­quenininho. Ela morreu com 99 anos, benzeu até no dia de morrer. E ninguém quer aprender, eu pele­jo mas ninguém quer. Benzedores lá em casa éramos eu meu irmão e minha mãe”. Ele também comenta a respeito de como acontecem suas benzeções: “Vem gente de longe para eu benzer, e eu nunca cobrei nada de ninguém não, mas sem­pre trazem alguma coisa, algum agrado como gratidão. A benzeção não depende de nenhuma religião mas ela é ligada ao católico. Minha família tudo era católica”, enfatiza.

É uma prática cultural que carre­ga em si as energias de um povo an­tigo e perdura até os dias capitalistas de hoje. Uma tradição cultural en­raizada, pois nela acredita-se que da terra vem as doenças e dela também vem as curas. É uma relação muito forte com o ser, pois está diretamen­te ligada à natureza, e principalmen­te às mulheres, que tem uma ligação ainda maior com a natureza, pois o papel das benzedeiras na socieda­de é como o papel das mães de aco­lher, conversar, ouvir, aconselhar, to­car, interagir. Contudo as práticas de benzer com certeza trazem algo de novo para as pessoas, a esperança, boas energias, caso contrário a cul­tura não existiria até os dias de hoje.

 

Os sábios e as sábias que aprenderam com os seus pais e avós, apenas vendo o ritual, hoje, são os que nos acolhem. É preciso um trabalho interdisciplinar de sensibilização para sua continuidade, pois muitos jovens não se interessam pela tradição popular da benzeção, o que leva o risco de desaparecimento desses saberes e fazeres – ouvir, benzer e aconselhar – tão importantes para as comunidades”

Lucinete Morais, 37, antropóloga, e gestora de projetos

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