Coronavírus

Voluntária registra efeitos colaterais da vacina contra Covid-19 da Johnson & Johnson

diario da manha
Laryssa Borges, voluntária em teste da vacina desenvolvida pela Jannsen-Cilag- Foto: Reprodução/Veja

A repórter Laryssa Borges que é voluntária inscrita no programa de testagem do imunizante produzido pelo laboratório Janssen-Cilag, braço farmacêutico da Johnson & Johnson, relatou sua experiência após tomar as primeiras doses da vacina contra o coronavírus. O relato foi feito para o site Veja, no qual ela trabalha.

Laryssa conta que recebeu a primeira dose no dia 17 de novembro, no Instituto Brasileiro de Pesquisa Clínica (IBPClin), onde costuma realizar os testes. Ela ainda relata que após receber a dose ficou pelo menos 15 minutos sendo monitorada pelos médicos.

“Os médicos queriam saber se eu desenvolveria uma reação alérgica ou um efeito adverso qualquer logo após ter recebido a dose com o princípio ativo (ou placebo). Nada. Até o minuto em que o relógio marcar 17h43”.

Neste horário citado pela voluntária, ela diz que começou a se questionar se já estaria sentindo os primeiros efeitos colaterais da vacina. “Saí da clínica há menos de uma hora. A cabeça lateja. Será que já era o primeiro dano colateral? Será que efeitos adversos surgem assim tão imediatamente? Faço um retrospecto do dia em que tomei a vacina e percebo que almocei meio omelete quase dez horas antes. É fome”.

Já às 21h, Laryssa escreve que está mais tranquila e decide ir cumprir os protocolos que os voluntários que participam do programa devem fazer todos os dias, para que os pesquisadores possam fazer a análise do estudo.

“Depois de jantar no dia em que recebi a vacina, a cabeça não dói mais, estou relaxada e empolgada pelo vai-e-vem em consultórios, laboratórios e salas de espera. Mas sou um turbilhão de dúvidas. Começo a preencher meu diário virtual. Este diário faz parte do estudo clínico. É nele que relatarei dia após dia aos pesquisadores o que senti. Duas vezes por semana também terei de medir o nível de oxigenação no meu sangue com um oxímetro que recebi. Tudo que eu escrever lá vai ser armazenado em um grande banco de dados para análise das informações dos voluntários desta pesquisa”.

Para os testes, normalmente os voluntários costumam ser divididos em dois grupos, em que um grupo toma o imunizante e o outro toma uma vacina com efeito placebo, ou seja, que não tem efeito. Mas como os participantes não sabem a qual grupo pertencem, Laryssa relata que no dia 18 de novembro, à 00h03, ela começou a se questionar se teria tomado um placebo.

“Estou convencida de que tomei um placebo. Nada acontece, não tenho febre, dor, cansaço, náusea. Nada. O local de aplicação da dose é imperceptível. Três horas antes, minha temperatura corporal era de 35,5ºC. Placebo, certeza. Vou dormir com uma certa carga de frustração. Deito virada para o lado esquerdo, o mesmo que recebeu a aplicação, com o braço onde ministraram a potencial vacina prensado no colchão. Se isso significar alguma coisa vou descobrir em breve”.

“Eu tomei a vacina!”

Mas, já pela manhã às 9h:36, ela diz que começou a sentir os primeiros efeitos. “A cabeça parece que vai explodir. Uma dor forte na base da nuca, nos braços, antebraços, coxas. O braço direito, que não foi onde tomei a dose da vacina, dói tanto ou mais do que o esquerdo, local da aplicação. A lateral direita da cintura dói de um jeito estranho (nem sabia que poderia existir dor naquela região). Placebo que nada. Eu tomei a vacina!”, relata.

Laryssa continua falando de sua incerteza sobre se o imunizante que tomou teria de fato efeito, já que só terá conhecimento sobre qual grupo pertence cerca de 25 meses após os testes, que é o prazo para que os pesquisadores informem os voluntários se eles receberam doses com princípio ativo ou uma substância sem eficácia clínica.

“Existe uma certa oscilação de percepções em uma voluntária absolutamente leiga na área médica, como eu. Saí da clínica no dia anterior com a convicção de que me deram uma substância sem nenhum princípio ativo – no caso da experiência da Janssen-Cilag, seria uma dose de soro fisiológico. Depois das primeiras reações colaterais posso jurar que dentro de mim foi injetada uma solução com adenovírus 26 e um pedaço da proteína do espinho do coronavírus, a vacina real que busca induzir meu corpo a produzir anticorpos. Se vacina ou placebo só saberei mesmo dentro de 25 meses, quando os pesquisadores abrem os dados confidenciais dos estudos e informam os voluntários se eles receberam doses com princípio ativo ou uma substância sem nenhuma eficácia clínica”.

Ela diz que apesar das dores, continua trabalhando. Os voluntários precisam relatar no aplicativo do programa todos os sintomas que sentem ao longo dos dias, se sentiram dor, o quanto essa dor é suportável ou se deixam de exercer alguma atividade diária por estarem se sentindo mal.

Onde fui me meter?

Às 13h09 daquele dia, ela conta que as dores se intensificaram. “Enquanto escrevo outra reportagem, tenho de alongar quatro vezes as costas. A lateral direita da cintura teima em não parar de doer. Na verdade, tudo dói. O corpo pesa. As articulações dos dedos estão sensíveis e também dão o ar da graça. Onde fui me meter? Parece que fui atropelada por um caminhão. Ando devagar. Não por cansaço ou fraqueza. Talvez por cautela. Talvez por medo. Almoço e vou para o aeroporto. Preciso voltar a Brasília”.

“Não foram incapacitantes, mas longe de serem absolutamente tranquilas”

Já no aeroporto, às 19h08, ela diz que preenche o relatório do dia e afirma que já tinha conhecimento sobre os sintomas que está sentindo. “No aeroporto, preencho os sintomas do dia no programa de celular do estudo clínico da Janssen-Cilag e relato as dores. Não foram incapacitantes, mas longe de serem absolutamente tranquilas. O tipo de reação adversa que estou experimentando é muito comum. O pesquisador principal do projeto, o doutor Luis Augusto Russo listou os efeitos colaterais clássicos há mais de dois meses para mim: dor, sensibilidade e vermelhidão no local da injeção, dor de cabeça, calafrios, dor muscular, cansaço, náusea e febre”.

O último dia relatado por Laryssa foi 19 de novembro, às 8h20. “Acordo e levanto devagar com medo de os efeitos terem piorado”, finaliza a voluntaria.

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