Anápolis

A vocação religiosa e econômica de Anápolis

O DM conversou com historiadores que apontaram as origens da criação do município. A cidade celebra neste domingo (26) os 150 anos da fundação da sua primeira capela

diario da manha
Foto da Matriz de Sant'Ana encontrada por Jairo Alves Leite quando trabalhou na criação do Museu dos Frades Menores no Coração do Brasil - MUFRAM. Imagem feita pelos frades franciscanos vindos de Nova York no inicio da década de 1940

Anápolis celebra neste domingo (26) os 150 anos da fundação da sua primeira capela. O marco fundador do município ocorreu em julho de 1870. O DM conversou com historiadores que apontaram a vocação religiosa e econômica da cidade, que completa 113 anos no próximo dia 31.

O historiador Daniel Araújo Alves aponta que Anápolis surgiu com uma dupla identidade. Uma delas, religiosa. “Sua fundação está ligada à fé de Dona Ana das Dores. Que junto com seu filho, Gomes de Souza Ramos, têm a devoção à Sant’Ana. Mais tarde, junta os moradores da região que doam terras à Sant’Ana, para formar o patrimônio de Sant’Ana. Neste patrimônio, nessas terras, construir a Capela de Sant’Ana. Isso na Fazenda das Antas, que vai dar origem ao Arraial de Sant’Ana das Antas”.

Foto da Matriz de Sant’Ana encontrada por Jairo Alves Leite quando trabalhou na criação do Museu dos Frades Menores no Coração do Brasil – MUFRAM. Imagem feita pelos frades franciscanos vindos de Nova York no inicio da década de 1940

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Aspecto econômico

No entanto, essa não é única origem do município. O historiador Daniel Araújo Alves também acrescenta o aspecto econômico, observado pelos viajantes europeus no início do século XIX. “A localidade era um importante e estratégico ponto de convergência de pessoas e mercadorias. Uma região agrícola muito fértil e que mais cedo ou mais tarde, um dia haveria de se desenvolver de alguma forma. E é isso que acontece”, destaca.

Conforme Daniel Araújo Alves para que o desenvolvimento desses moradores e fazendas (das Antas e vizinhas) acontecesse a via necessária na época era construir uma capela naquela localidade. “Não só para garantir os serviços, o atendimento religioso da Igreja Sacramental, Pastoral, mas também para garantir a presença e o serviço do Estado. Porque a chegada a construção da capela do padre também se transformava na presença do Estado. Os registros que eram feitos na igreja eram uma espécie de departamento, um órgão público. Isto, de certa forma, trazia novas expectativas para os moradores”, argumenta.

Estrada férrea em Goiás

Tropeiros acampados em derredor da primeira Estação Ferroviária de Ipameri, 1913. Foto: http:// www.ypameri.com/old/html/fotos_historicas.html

Já o historiador Jairo Alves Leite ressalta outro fator da logística que Anápolis recebe. No final do século XIX havia um projeto da estrada férrea saindo dos grandes centros: Rio de Janeiro, São Paulo, passaria por Minas Gerais e chegaria até a capital do Mato Grosso, Cuiabá. A falta de recursos provocou a demora na construção da ferrovia. A estrada férrea só entrou aqui no Estado de Goiás em 1911/1913, conforme explica.

“O interessante é que esse primeiro projeto passaria pelo município de Vila de Sant’Ana das Antas, antes mesmo de se tornar Anápolis. Passaria por aqui, adentraria um pouco ao norte, chegaria até a via férrea passando por Anápolis, chegaria à via férrea até a cidade de Goiás que era a então capital do estado de Goiás. De lá, ela penetraria o estado do Mato Grosso passando por cima do Rio Araguaia, com destino à cidade de Cuiabá, capital do Mato Grosso”, pontua.

Revolução de 30

Conforme o site Toda Matéria, a Revolução de 1930 foi um golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís, no dia 24 de outubro de 1930. Foto: Claro Jansson

Todavia, o projeto só chega à Anápolis em 1930. Jairo Alves Leite aponta que o período é marcado pela Revolução de 30, quando Getúlio Vargas chega ao poder. Assim que chegou ao poder colocou um interventor em Goiás: Pedro Ludovico Teixeira.

Idealizador e construtor da capital do Estado de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira.

Nesse sentido, no início do mandato como interventor ele viu a dificuldade de governar o estado a partir daquela cidade. O local já contava com oligarquias arraigadas, conforme o historiador. “Ele como médico faz um relatório muito bem embasado na área de saúde para falar que não poderia permanecer a capital naquela localidade, naquele município. Então, a capital deveria ocupar um novo território, um novo lugar. Então foi pensado em alguns outros lugares como Silvânia, como, se não me engano, Pires do Rio, e também Campinas. Foi escolhido o município de Campinas”, declara.

“Com isso não tinha mais propósito de ir a estrada férrea de Anápolis, que foi inaugurada em 1935, ela ter continuidade até a antiga capital. Então ela ficou aqui um bom tempo como ponto final da linha férrea”.

Contribuição para Goiânia e Brasília

De acordo com o historiador Jairo Alves Leite essa estrada de ferro em Anápolis contribuiu para a construção de duas importantes capitais do Brasil: a capital federal e a capital goiana. “Chegavam muitos materiais, principalmente materiais de acabamento pela linha férrea. Chegavam até Anápolis e de Anápolis levavam de caminhão até essa nova capital que estava sendo construída. Isso na década de 30, início da década de 40, até o decorrer da década de 40 toda”.

“Chegava muita coisa para Goiânia, essa novíssima capital, através dessa estrada de ferro que era o ponto final à estrada de Anápolis. Então contribuiu muito essa logística também da estrada férrea”, reitera.

“Posteriormente, Anápolis também ajudou na construção de Brasília, logicamente pela estrada de ferro, que chegavam muitas mercadorias pela estrada de ferro e levavam de caminhão para Brasília”, completa.

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